“Muitas dificuldades vão começar a revelar-se nas escolas” nos próximos dias

 A Directora do Centro de Desenvolvimento infanto-juvenil dos Açores, Maria Lauteano, afirmou em entrevista ao ‘Diário Insular/Correio dos Açores’ que “muitas dificuldades vão começar a revelar-se” nas escolas nos próximos dias. “miúdos que estiveram em casa muito tempo podem ter dificuldades em regressar à escola e aos seus ritmos habituais. Miúdos mais pequenos que estiveram fechados em casa muito tempo, a luz do sol incomodava, o barulho dos carros assustava... Aqui na Região, por vezes, até parece que não está a acontecer nada, mas não é assim em todos os contextos e nem em todas as famílias”. Maria Laureano manifestou outro tipo de preocupação: “comparativamente com a minha experiência em Portugal Continental, posso dizer, é que na região vemos muito, de forma precoce, consumo de substâncias. Há um acesso a substâncias ilícitas fácil, de forma precoce…”


No que consiste o CDIJA (Centro de Desenvolvimento Infanto-Juvenil dos Açores)?
Este projecto foi criado, inicialmente, em São Miguel, e existe já também no Faial. Tem como objectivo dar um foco especializado na saúde mental e em questões do neuro desenvolvimento e do desenvolvimento. Há muitos miúdos que apresentam atrasos de desenvolvimento, coisas que por vezes podem ser transitórias ou não e um diagnóstico precoce pode mudar o curso das coisas. Do ponto de vista da saúde mental isso também é verdade. A nossa ideia é dar uma resposta especializada que é escassa nos Açores. Sou da Terceira, mas estamos a falar de ultraperiferia. Em Portugal continental, de um determinado limite para dentro, também não há... Mas há a vantagem de existirem acessos.
Nasceu um projecto da experiência de telemedicina durante o confinamento...
Sim. Algo que me activa muito emocionalmente é que não tenhamos o mesmo acesso às coisas do que os restantes portugueses. Há uma franja de muitos miúdos e famílias que estão um pouco desprotegidos, porque não têm acesso. Falamos de miúdos das Flores, Corvo, Graciosa, Pico, São Jorge, Santa Maria, Terceira (embora a Terceira seja um pouco diferente). Vamos permitir que crianças e jovens de outras ilhas marquem consulta connosco e, se quiserem, tenham consulta connosco. Por aqui isto ficava, mas com muito pouco interesse. No sector privado seria alargar um serviço. Não fazia sentido porque é preciso um bocadinho mais de trabalho próximo da comunidade. O projecto que estamos a desenhar e que vamos permitir que, quem quiser, esteja connosco, é constituído por uma parte inicial, de sessões formativas, através de modelo online. Clínicos de medicina geral e familiar, por exemplo, em determinadas ilhas mais isoladas, podem aceder aos nossos momentos formativos. Serão feitos pelos técnicos das nossas várias valências. Queremos dar “redflags”. No fundo, os sinais de alerta, quais é que são os sinais para determinados grupos patológicos. São quadros específicos, que não são idênticos aos dos adultos e que têm muitas nuances e particularidades que só quem trabalha realmente com crianças e jovens começa a perceber. Temos esse know-how para transmitir. Depois, faremos o que são reuniões de consultadoria. Estas duas modalidades serão um serviço para a comunidade, que nós vamos prestar pro-bono. 

Quais são as vantagens?
O nosso objectivo são os cuidados primários de saúde, porque estão periféricos, em equipas escassas. É para quem está no terreno. O grande racional disto: Imagine que alguém vê um jovem na consulta que necessita de terapia da fala e questiona se devia ter uma consulta de pedopsiquiatria. Conforme aquilo que vamos tentando perceber, pode-nos ser óbvio que aquilo é um caso para ir já para uma consulta de terapia da fala. É permitir que o trabalho seja mais eficaz, que os colegas não se sintam inseguros. O mandar o jovem para a consulta de pedopsiquiatria, que pode não ser necessária, pode implicar, se for através do Serviço Regional de Saúde, uma deslocação a São Miguel ou ao Continente... Se conseguirmos contribuir, para mim, que sou da Região, isso deixa-me satisfeita. É a minha gente. Gostaria de fazer a diferença. Quanto ao serviço da telemedicina, que será pago, tem um impacto muito grande, que é evitar deslocações e poder-se ajustar o horário. É claro que haverá sempre uma franja que poderá necessitar de consulta presencial. Não é uma resposta a 100 por cento, mas é uma resposta que vai servir a muita gente.

Quais são os principais problemas que encontra em termos de saúde mental infanto-juvenil nos Açores?
Uma coisa que, comparativamente com a minha experiência em Portugal continental, posso dizer, é que na Região vemos muito, de forma precoce, consumo de substâncias. Há um acesso a substâncias ilícitas fácil, de forma precoce. Não estou a dizer que no continente não há jovens nesta situação, mas foi algo que me chamou a atenção. Eles tinham acesso. Se fizermos estatísticas, é claro que podemos estar mais ou menos paralelos com a realidade do país. De resto, em relação às outras patologias, é semelhante. Vemos muitos jovens com quadros depressivos, com quadros de ansiedade, ansiedade social, de desempenho. Miúdos que ficam muito ansiosos, por exemplo, quando têm de se expor a alguma tarefa na escola, a uma prova, a uma avaliação. Dentro do desenvolvimento, temos coisas idênticas, de perturbação da articulação da linguagem, de algum atraso na aquisição de competências. Isso necessita sempre de uma avaliação mais profunda do contexto, mas poderemos estar a ver aqui alguns contextos em que as crianças são subestimadas. Não há estimulação adequada, nem um olhar que identifique que “já devia estar a fazer”. Aí, as escolas são muito importantes e os cuidados primários de saúde também. Essa foi uma das nossas preocupações com o confinamento. Perdemos os olhos da escola sobre os miúdos.

As escolas são instrumentos de sinalização?
São os gatekeepers, quem sinaliza, quem faz o contacto com a outra entidade, seja a Comissão de Protecção de Crianças e de Jovens, os Centros de Saúde, o que for. Tivemos nos media essas informações bastante desagradáveis de muitas crianças expostas a contextos complicados durante o confinamento, até de violência muito grave. Com o confinamento, perdemos esse canal de observação. Curioso foi que a telemedicina permitiu-nos abrir um bocadinho a janela para dentro de uma casa.

Como será o regresso à escola após tanto tempo?
Acredito que muitas dificuldades vão começar a revelar-se. Miúdos que estiveram em casa muito tempo podem ter dificuldades em regressar à escola e aos seus ritmos habituais. Miúdos mais pequenos que estiveram fechados em casa muito tempo, a luz do sol incomodava, o barulho dos carros assustava... Aqui na Região, por vezes, até parece que não está a acontecer nada, mas não é assim em todos os contextos e nem em todas as famílias. Há famílias que ficam trancadas em casa e que não saem, nem permitem o acesso ao interior de casa. No Continente, é claro, as coisas estão mais tensas. Uma das técnicas que trabalham muito directamente comigo no CDIJA, em reunião, dizia-me que o filho de três anos esteve em casa e que ela agora queria que ele retomasse progressivamente o ATL. Quando ele regressou, pelas diferenças que encontrou (poucos brinquedos, uso de máscaras) quando chegou a casa disse-lhe: “Eles não adoram eu, não quero ir mais para a escola”. Perdeu toda a comunicação e a expressão não-verbal facial, que é muito importante nos mais pequeninos. Ele explicou que não conseguia identificar o afecto. Todos sentimos isso, mas compensamos com a parte cognitiva. Para os mais pequenos, sobretudo entre os zero aos três anos, acho que vamos ter aqui muitas dificuldades de desenvolvimento do ponto de vista relacional e até psicomotor, porque estão demasiado interligadas. Muitas coisas mudaram também nas famílias. Os ritmos, as horas de acordar e de deitar, o às vezes pairar pela casa não cumprindo a rotina. Os limites tornaram-se fluidos, os espaços perderam a sua função concreta. Os ecrãs também se tornaram demasiado presentes. Acho que isso é visível. Este ano ainda não terminou e há coisas que podem ainda estar camufladas. Agora... Se percebo que dentro da minha família há um corte de funcionamento, com uma tonalidade negativa. Alguém funcionava de uma forma e está de outra e eu não consigo identificar o porquê. A família é a unidade básica da sociedade e não podemos ignorar. Depois, é fazer pontes com quem pode dar ajuda, como este centro de desenvolvimento, a escola, o centro de saúde, outras associações ou grupos desportivos onde os miúdos andam..

DI/CA

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Autor: CA

Categorias: Regional

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