9 de setembro de 2020

Os grandes erros dos Açores

Turismo (4)

Falar-se de turismo sem se falar, em primeira instância, de tudo aquilo que é subjacente a esta indústria, descurando-se, portanto, aquilo em que assentam os verdadeiros interesses regionais, fora dos perigos vários por que passa esta actividade, seria uma forma errada de se abordar este tema.
A indústria turística tem, por isso, que ser conduzida, nunca, em função das políticas ou dos interesses das pessoas, mas daquilo que a Região pode suportar sem se estragar, ou por em perigo o equilíbrio daquilo que, de facto, mais atraias pessoas que nos visitam.
Existem vários tipos de turismo, cada qual assente naquilo que são as verdadeiras ofertas que cada região pode fazer sem se por em perigo aquelas que são as suas estruturas naturais e físicas, as quais sendo destruídas, matarão aquilo que se poderá convencionar da nossa galinha dos ovos de ouro. Por isso existem regiões muito bonitas mas muito frágeis para as quais têm que ser criadas formas de controlo do esforço que é feito para que essa região não entre em colapso naquelas que são as estruturas que lhe dão valor.
Por exemplo os Açores, com uma natureza soberba e rica, mas muito frágil, não podem, de forma alguma, sujeitar-se a um turismo de massas que, a suceder, dará cabo da mesma num ápice, sem regeneração possível ou de muito difícil reparação. Donde, se o nosso potencial turístico reside nessa natureza frágil, no seu sossego, e nessa melancólica bruma que nos esconde o sol,  aquilo que temos que fazer é respeita-la e protegê-la para que não nos suceda aquilo que já sucedeu em algumas regiões turísticas do globo.
Por isso os Açores nunca poderão ter um turismo alicerçado como muitas zonas têm no sol, com enormes praias de areia branca cheias de coqueiros; nem tão pouco como em zonas, também com muito sol, alicerçadas numa vida noturna com diversão intensa, como o jogo e outros atractivos, próximos dessa realidade.
Os Açores são, portanto, no meu entender,  uma região propensa a um turismo especial, diria elitista, longe de um turismo de massas que destruiria a nossa frágil natureza pelo exagerado pisoteio exercido nela, em poucos anos. Assim, o fomento exercido na aposta turística, com atractivos subsídios  para a construção de toda a espécie de unidades hoteleiras, foi um grande erro, sem cabimento no tipo de turismo que se coadunaria com a nossa realidade.
Por isso, todo aquele turismo que não caiba na contemplação, no sossego do diálogo das pessoas com a natureza, e na admiração do ruído do silêncio sob fragrâncias de clorofila, estampado nos nossos fabulosos recantos com a sua costumeira chuva, ou os mantos de bruma, que a abriga, seria um turismo que arrasaria com a nossa fragilidade ambiental, em poucos anos.
A Islândia deveria ser um bom exemplo para as autoridades açorianas seguirem, desviando-nos dos erros que eles cometeram para não nos custar muito caro. 
Para além de tudo isso, a limitação criada aos residentes locais, com imposições monetárias para frequentarem alguns sítios, ou usufruírem das benesses e tranquilidade de alguns recantos, na sua própria terra, não passa nem pela cabeça de um tinhoso, pela demonstração clara da feroz apetência que existe pelo dinheiro por parte de algumas entidades públicas regionais.
Uma coisa certa, é o facto de termos que parar, antes que seja tarde, para podermos reflectir sobre a espécie de política de turismo que melhor se adapta à nossa realidade, e rodearmo-nos de alguém sabedor dessa importante problemática, para nos ajudar e orientar para que os Açores, no contexto actual, continuem com uma natureza pura, saudável, e viçosa, atraindo as pessoas que cada vez mais procuram o sossego, a segurança, e a contemplação, sob o aconchegante ruído do silêncio, como forma de se regenerarem da sofreguidão que vivem enquanto trabalham. Os Açores são exactamente isso: o local de contemplação, onde o silêncio se expande na ternura e mansidão da sua genuína natureza, qual bálsamo oferecido em ondas de serenidade.
Em resume, quanto ganha a Região com o turismo alicerçado como está?
Não ganha nada pois a maior fatia sai dos Açores ficando o lixo e os elefantes barcos construídos à custa de subsídios muitos deles dos cofres da Região; e perdendo tudo pois a nossa natureza ferida, jamais se recomporá.
 

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Categorias: Opinião

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