10 de setembro de 2020

Nótulas de Verão

1.  Estar na Fajã do Araújo, na ponta da nossa ilha , neste verão quente de pandemia, é saborear o som do Mar, nestes dias, azul e calmo , que até sossega a alma, com o Sol a oferecer vitamina D, tão necessária à vida humana, mas nesta altura esperamos sempre pelas marés de Agosto, com ondas altas e vigorosas . Na minha frente o grande horizonte pouco ensombrado  que limita os pensamentos e sonhos e nos faz memória da vida que vai passando. Esta Fajã , no Nordeste, como todas as outras , que existem pelos Açores fora, com especial realce para a imponência e beleza das que ficam na magnífica ilha de São Jorge, são um tesouro da natureza que o Céu pincelou em dias de estrondo , de águas em dilúvio e de corrimentos estrondosos que até abalavam a própria terra ! Assim nasciam áreas marítimas, onde o mar era inacessível com largas e produtivas zonas de cultivo e de vinha , sobranceiras ao mar, abrigadas apenas pelas altas e frondosas escarpas com altura vertiginosa, que obrigavam os nossos antigos e prestantes cidadãos a enormes sacrifícios palmilhando veredas íngremes e perigosas, por necessidade, surgindo aí as primeiras construções rústicas e toscas para seu apoio.  Agora que a atual Câmara  Municipal pensou e muito bem,  valorizar esta  zona que possibilita um contato direto com o mar desta ponta da ilha  entre a ridente Pedreira da Senhora da Luz e Água Retorta da Senhora da Penha de França, muita gente vem deliciar-se com as águas límpidas do Atlântico e muitos outros vão até à praia do Lombo Gordo , a mais sossegada e ambiental da ilha, agora que a Câmara melhorou significativamente os acessos e reabilitou os trilhos que vêm dos nossos antepassados ! Está por isso de parabéns. 

2. Por esta baía passam  pequenas embarcações e algumas por aqui ficam horas a fio na tarefa da pesca , esta que sempre foi até há poucos anos , uma boa zona para a apanha de lapas e polvos e muitos caranguejos , que nunca isso faltava a quem vinha a esta Fajã . Hoje é quase tudo proibido e vigiado, exceto o essencial ! Por ser uma área com uma geografia muito peculiar, um local de natureza simples, limpa , agradável e com requintado sossego, alguns turistas por aqui passam e até alguns por aqui se têm  fixado. O trilho pedestre , antigo, genuíno e peculiar ,  começa na Pedreira logo abaixo da Igreja e tem sido alvo de valorização das suas potencialidades pelos responsáveis do Desporto que colaboram com a Câmara. E assim se valoriza o Nordeste e as suas reais potencialidades naturais e ambientais que só aguardam quem se predisponha aqui investir.

3.  Famílias inteiras ainda se deslocam a esta Fajã para convívio e para ganhar os benefícios do Mar, principalmente aos fins de semana. Pequenas casas, junto à ribeira, de construção rústica, remontam há dois séculos e ainda mantêm a antiga e tradicional traça . Esta é uma zona de urze e incenso , de conteira e de salgueiros, de vidália e de faia e tabua. Canas é como em todo o lado, uma fartura até à beira mar. Mas também existem figueiras e vinha , bananeiras e araçazeiros .

4.  Mas o mais interessante de tudo isso é gozar este magnífico mar, ouvir dia e noite o seu marejar, deliciar com o nascer do Sol , um assombro espelhado nas águas  do  mar , olhar a lua e os cometas , ouvir os cagarros na sua famosa rouquidão , os pássaros que por aqui esvoaçam a cantarolar e até os milhafres em voo rasante , picado e assobiado!  E o sossego acolhedor e pacificador que nos lava a alma e nos retempera o ânimo !  Um bom Setembro para todos.

 Fajã do Araújo, nos finais de Agosto de 2020 

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Categorias: Opinião

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