12 de setembro de 2020

Cesto da Gávea

ASAP


Se há povo e correspondente literatura que gostem de siglas são os ingleses, gente cujo pragmatismo se espelha na própria forma como se exprimem. Estará aqui uma das raízes expansionistas do inglês, hoje globalmente difundido como idioma de comunicação internacional. Abundante em flexibilidade e simplificação, a Língua Inglesa domina as novas tecnologias, facilita a comunicação e é claramente dominante na Ciência, na Tecnologia, na Literatura e na generalidade da Cultura mundial. Atualmente, nenhuma obra científica ou literária se globaliza, se não tiver uma versão em inglês. Donde que, a par com essa difusão global, andem os estranhos e exageradamente usados acrónimos, tais como asap, sigla de “as soon as possible”.
Tão rápido quanto possível, é como a União Europeia deverá ultimar o decantado brexit, antes que os amiguinhos do lado de lá da Mancha arranjem uma estrangeirinha que cole o rótulo da culpa pelo fracasso negocial nas costas largas da Comissão Europeia. A propaganda do PM Johnson e seus seguidores abunda em tentativas deste cariz, desde procurar denegrir a imagem do negociador da UE-27, o francês Michel Barnier, ao “aperto” dado ao Ministro para a Irlanda do Norte, que defendia a acordada fronteira no mar entre as 2 Irlandas, evitando a perigosa “hard border”, ressuscitadora de conflitos sangrentos. Johnson assinou o protocolo, mas nada do que diz ou faz é para levar a sério. Em 2019, preferia “cair morto numa valeta” a adiar o brexit previsto em 31 de outubro, depois fingiu-se de morto e aceitou 31 de janeiro deste ano. Joga com um pau de 2 bicos para sair da União Europeia, procurando alterar o acordo com total desrespeito pelo que ele próprio assinou. Então, ameaça com novo deadline a 15 de outubro, sendo certo que se a UE-27 não ceder – e há sinais disso -- a escolha dos ingleses irá custar-lhes caro. Segundo a CBI-Confederation of British Industry, que agrupa190.000 empresas, a pertença à União Europeia rende em média 70.000 milhões de libras/ano ao Reino Unido. E os descontos da contribuição líquida para o orçamento comunitário atingem 66%, desde que em 1985 foram “exigidos” por Margareth Thatcher. Todos os europeístas se lembrarão da célebre frase “I want my money back”, que a PM Thatcher proferiu e devia ter tido resposta adequada. A então CEE acomodou-se e o resultado está à vista 35 anos depois.
O General De Gaulle, que conhecia bem os bastidores da política inglesa, disse em janeiro de 1963 que a Inglaterra “é marítima, insular, ligada pelas trocas, mercados, abastecimentos, aos países mais diversos e longínquos”. Desde 1973, tudo isto mudou e hoje, o Reino Unido está profundamente imerso na União Europeia, para onde envia 44% das exportações e recebe 55% das importações de bens e serviços. Percebe-se mal a intenção da maioria parlamentar de Johnson na Câmara dos Comuns de forçar a saída britânica de um “clube” de 500 milhões de consumidores, representando23% do PIB mundial, o que só tem trazido vantagens à Grã-Bretanha. Em termos de peso global, estar na União Europeia reforça – e de que maneira—a influência geoestratégica do Reino Unido, servindo de contrapeso aos Estados Unidos, Rússia e China. Confere poder de decisão dentro da União, dá vantagens na livre circulação de pessoas, bens e serviços, sendo um bom exemplo os 3,1 milhões de cidadãos europeus que ajudam a Saúde, a Educação, a Ciência e a Economia britânicas a ter o nível que todos reconhecemos. Até no futebol, uma faceta económica importante, onde se vê o número de treinadores, técnicos e jogadores portugueses existentes na Premier League, a par com outros europeus “continentais”. Mais: perto de 50% do investimento direto estrangeiro no Reino Unido proveio da União Europeia, ultrapassando 1,2 biliões de dólares e tendo duplicado desde a adesão ao Mercado Único, o “brexin” que os rapazes de BoJo querem esquecer. 
O que os assusta, é provavelmente a caminhada para a transparência, algo que a Comissão Europeia da Presidente Ursula von der Leyen dá mostras de desejar incutir nas políticas comuns. Para quem nada em lagos off-shores, pode dar que pensar. Devia também dar que pensar ao governo do trumpizado Johnson, o volume estimado em 40.000 milhões de libras das perdas que um brexit atabalhoado acarretará aos súbditos de Sua Majestade (aliás, majestaticamente calada durante o processo) superior a 2% do PIB anual do Reino. Se não tivesse havido a pandemia, o retorno ao pré-brexit levaria 6 anos; com a pandemia, deverá piorar. Dado isto, a Comissão Europeia entendeu chegada a ocasiãode dar um murro na mesa das negociações, ameaçando avançar em Tribunal Internacional contra as diatribes de Johnson & Cia. Com ou sem corredores turísticos, ou se respeitam as leis, ou…”get out, asap”. 

NdA: Com os Açores mantidos no corredor turístico britânico e o golfe algarvio excluído, não será altura do nosso verdejante golfe agarrar asapa oportunidade?


 

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Categorias: Opinião

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