12 de setembro de 2020

Marx e Cristo: dois poetas da própria existência

Vivendo o tempo presente em estado de confinamento obrigatório devido a pandemia do coronavirus  surgiu-me a ideia (vá a gente saber de onde vêm as ideias) de Cristo e de Marx, e no momento em que estou a escrever este texto ainda me interrogo porque razão terei associado Karl Marx a Jesus de Nazaré.
Ponho a hipótese de tal se dever a algumas semelhanças essenciais entre eles e ao facto de ambos, pela sua vida, terem  vencido o esquecimento, terem vencido o tempo e continuarem a ser pontos de referência na História e no pensamento dos homens, elevando-os à categoria de imortais que, pelos vistos, não é privilégio exclusivo dos deuses sempre que encontram na terra homens à sua altura.
Tenho aqui ao meu lado enroscado o meu cão, que morre também sem ter cometido o pecado original e que é mais feliz do que eu porque se contenta apenas em existir e em amar o seu melhor amigo, que sou eu próprio.
Aqui ao lado tenho o Convento das Clarissas das Calhetas que passam a vida a “orare e laborare”, ordem monástica de raiz franciscana.
Mas voltando ao tema em epígrafe indicado, direi que, na perspectiva da vida hoje dominante, Cristo e Marx são derrotados,  vencidos da vida, pois um acabou os seus dias pregado numa cruz e o outro acabou os seus dias em Londres, na mais pungente miséria.
 Marx foi impoeta-filósofo da própria existência, tal como Cristo; isto é, à semelhança do que aconteceu com o próprio Cristo, tentou viver de acordo com as suas ideias, de acordo com a sua filosofia e doutrina economico-social.
Foi ostracizado em todo o lado e, embora formado em Filosofia, foi proibido de ensinar em todo o lado, com o fundamento de que era demasiado radical .
Cristo também foi ostracizado em todo o lado, pois ele dizia quem não e por mim e contra mim, ao contrario de Poncio Pilatos.
Portanto, a consequência foi que ambos viveram pobremente.
No caso de Marx, sendo casado e com vários filhos para sustentar, viveu da esmola do seu amigo Friedrich Engels até ao fim da sua vida, não ganhando dinheiro nenhum pois era desempregado crónico; em lado nenhum lhe davam trabalho por causa das suas ideias.
Marx, à semelhança de Cristo defendia uma sociedade fundada no amor; ele defendeu  que as pessoas, em vez de trocarem dinheiro por dinheiro, deviam trocar entre si amor por amor, confiança por confiança e Cristo, por seu turno, disse “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”.
Cristo era também um poeta que não escrevia poesia mas que dizia coisas como esta “não vos preocupeis com o que haveis de comer e beber, olhai os lírios do campo, que não cardam nem fiam”, ou seja, Cristo, não escrevendo coisíssima nenhuma, vivia a vida como um grande poema .
Marx , como disse, vivia de esmola, do seu amigo Engels, e não pretendia adquirir capital; aliás, a mãe de Marx ,perante aquela pobreza franciscana em que o filho vivia e sofria, dizia a Marx que em vez de combater o capital devia antes adquirir capital.
Cristo tem aquela frase celebre:  “É mais fácil um camelo entrar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus”.
Marx não tinha dinheiro para comer, quanto mais para comprar livros, mas passou a vida a ler na biblioteca publica de Londres, para além das vastas e profundas leituras que fez antes de ser declarado proscrito e persona non grata em todo o lado.
Marx disse que “os filósofos anteriores a ele nada mais tinham feito do que interpretar o mundo, a nossa tarefa e transformá-lo”, o que colidia frontalmente com a vontade das classes superiores, que apenas queriam conservar o mundo na sua marcha arrastada, tão propício aos seus interesses”
Para ele, a História faz o homem, mas os homens também fazem a História, portanto nos somos tanto os criadores como os seres criados da própria evolução (o darvinismo social)
Esta ideia tornou-se a pedra angular da interpretação materialista da História e teve como consequência que o governo germânico o acusasse do crime gravíssimo de alta traição, tendo de se exilar, primeiro em Paris, e depois em Londres, onde, como se disse, não teve melhor sorte, onde igualmente só comeu o pão da aflição .
Convém lembrar que Marx descendia de rabinos judeus e era de boas famílias e o pai era um excelente advogado, mas também um livre pensador que acabou por se converter ao protestantismo. Agora, o filho do advogado queria fazer uma revolução no drama da própria vida.
Agora há aqui uma questão central a mencionar: Marx considerava que “a religião é o ópio do povo”; isto e a promessa de recompensas celestes pelas privações terrenas é o ópio do povo.
Marx queria  o paraíso já na terra, o único paraíso a que o homem podia aspirar, enquanto Cristo disse que o seu reino não era deste mundo e disse ao bom ladrão pregado numa cruz ao lado da sua “ainda hoje estarás comigo no Paraíso”.
Há, de facto, esta diferença, entre Cristo e Marx, que, bem vistas as coisas, não e assim tão grande (o cristianismo veio a ser legalizado pelo imperador Constantino).
De facto, o marxismo é a religião da classe operaria, que são os deserdados da terra dos homens, e Karl Marx é o seu profeta e o seu Deus, mas Cristo também na sua vinda à terra defendeu os excluídos da sociedade, os mais fracos, os humildes, andou em más companhias e perdoou a prostituta Madalena, arrependida dos seus pecados.
Portanto, à semelhança de Marx, Cristo está do lado dos oprimidos, das vítimas da injustiça dos homens, dos que mais sofrem na vida.
Embora fosse um dos melhores escritores do século, não conseguia ganhar dinheiro nenhum com a pena e a pobreza, a fome e a doença eram os habitantes mais assíduo da sua casa, mesmo vivendo em Inglaterra, que na altura era considerada a mãe dos exilados.
Na interpretação materialista da História surge a ideia da luta de classes “Toda a História é uma luta de classes entre os que possuem e os deserdados, entre os exploradores e os explorados, entre os senhores e os escravos”.
Isto significa que Marx tinha uma concepção do homem semelhante à do filósofo Thomas Hobbes, segundo a qual o homem é o lobo do homem “homo lupus homini” expresso no seu Leviatã.
Com efeito, Hobbes diz, como disse Aristóteles, que o homem é um animal sociável, mas acrescenta que os homens são egoístas, depradadores, e conflituosos e quando se reúnem com os seus semelhantes mais não procuram do que aproveitar-se deles.
Mais pessimista sobre o homem do que este pensador inglês só vejo o alemão Schopenhauer.
Tanto Marx como Cristo tentaram libertar os homens  da servidão voluntária ou involuntária em que vivem.
Tanto Marx com Cristo viveram nas suas próprias vidas os ideais e doutrinas que professavam.
Tanto Marx como Cristo provaram na vida que acreditavam nas ideias que defendiam senão não tinham morrido por elas, teriam abdicado delas, porque só quem acredita profundamente em algo, só quem ama incondicionalmente os homens esta disposto a morrer por eles.
O amor, a amizade, a ternura, a compaixão, a beleza, a justiça são a salvação da vida.
Tanto Marx com Cristo salvaram as suas vida perdendo-as, como aliás, disse o próprio Cristo.
 

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Categorias: Opinião

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