13 de setembro de 2020

Crónica da Madeira

Porto Santo, a Ilha onde os amigos se encontram e os Poetas cantam as suas belezas

O palco ideal para os
Narcisos mostrarem 
os seus corpos bronzeados,
como deusas e deuses, escravos
do prazer do Sol do portosantense
e o árido das montanhas,
atapetadas com o verde dos
pinheiros derrama-se
em formas esculpidas 
pela ventania.
Aí é quando o imaginário 
se agiganta 
inventando novas histórias


O que o Porto Santo proporciona é mais do que os nove quilómetros de uma praia única, pelas suas condições terapêuticas e de um mar que, na calmia do tempo, se tinge e se mistura de azuis ganhando a beleza de um espaço que enlouquece e fascina os visitantes. 
O que o Porto Santo proporciona, porque o humano ultrapassa sempre qualquer paisagem, é o encontro de amigos que há muito não se viam ou reatar de relações de amizade perdidas em discussões inúteis. É o saudável abraço fraterno, mesmo em tempos da COVID 19, que tanto desejamos.
O que o Porto Santo proporciona é o convívio das noites cálidas, à volta de uma mesa carregada de petiscos. Enquanto as palmas das palmeiras balançam, como um cântico, sopradas por um vento fraco e as vozes cruzam-se na alegria das palavras.
A praia é o percurso para longas caminhadas. A ilusão – apenas a ilusão – do emagrecimento que pressupõe elegância. A praia, com as suas areias finas e douradas, é palco ideal para os narcisos mostrarem seus corpos bronzeados como deusas e deuses escravos do prazer do sol. Pouco interessam os raios ultra-violetas quando os corpos musculados ou com formas de manequins, faíscam sob o sol portosantense. E na praia sentados os curiosos, com olhares de espanto ou de maldade, fazem as suas críticas. 
O que o Porto Santo proporciona ainda – disso quase nunca se fala – é uma paisagem que insulta, no sentido positivo da palavra.Isto é: embriaga o visitante, obrigando-o a colocar no seu imaginário um mundo de fantasias. O árido das montanhas atapetadas, de quando em quando, com o verde dos pinheiros que se derrama em formas esculpidas pela ventania, quando esta revoltada com o tempo enervantemente calmo, se põe a cavar as rochas por vingança. Depois oferece o retrato de um quadro abstrato. É aqui que a imaginação viaja e inventa a história: 

Porque em cada pedra
as palavras exaltam-se
Porque em cada zumbido
precipita-se o olhar
Porque em cada onda
arrasta-se um cântico indecifrável
Porque em cada voz
repete-se o segredo de tantas outras vozes
e
a noite esconde-se no silêncio 
e
o silêncio é vencido pela claridade
da lua cheia enciumada.

Todos os anos venho aqui para abraçar esta natureza que tanto me encanta. Nestes últimos anos acompanho os meus amigos Victor Nobre e Zé Reis que saem da Quinta da Cerca, em São Domingos, para se deliciarem nas águas tão refrescantes e transparentes deste oceano atlântico que tanto amam. Vêm para gozarem do convívio de amigos, que como eles, todos os anos se encontram em Porto Santo, por esta altura – os Baratas, a Milú, a Fátima, a Elma, a Guida, o José Carlos, a Helena e a Nininha.
Há anos quando não existiam os transportes tão sofisticados, entrei na aventura de uma viagem no “Maria Cristina”. Um barco, construído em madeira, com mastros grossos, com um motor que emitia um som como se fosse um trombone desafinado. Cuspia água e fumo pelo escape. Era uma espécie de chuveiro, com respingos que chegavam, às vezes, aos passageiros. O barco era fundamentalmente para transportar carga e, por conseguinte, não tinha espaços para acomodações. Viajávamos em condições muito precárias. Quando cheguei ao Porto Santo estava encharcado dos pés aos cabelos. De então até agora houve grandes mudanças nos transportes. Só há uns anos a esta parte, graças ao Grupo Sousa, atingimos a qualidade desejada. O Lobo Marinho, um navio excelente, com conforto e uma velocidade razoável.  Em duas horas e meia estamos na Ilha Dourada, saindo do Funchal. A concessão da linha Funchal – Porto Santo é livre. Isto é: qualquer entidade pode concorrer à sua concessão. Nestes últimos anos o único concorrente foi o “Grupo Sousa”, que tem cumprido rigorosamente o estabelecido na lei, proporcionando um navio moderno, cómodo e rápido aos madeirenses e Porto Santenses. Garantindo a ligação entre ilhas durante todo o ano.
Recordo que o “Maria Cristina” perante a ondulação agitadíssima da Travessa, onde se cruzam várias correntes, oferecia a sensação que iria ser devorado pelas ondas. Fui jogado de um lado para o outro. Pensei que a noite não tinha fim. Comecei a me atormentar como seria o meu regresso. A única alternativa era o “Maria Cristina”. Regressei ao Funchal e prometi, a mim mesmo, que no “Maria Cristina” jamais voltaria ao Porto Santo.
Com os meus amigos Victor, Zé Reis e Nininha fomos ao miradouro do Furado Norte. Um miradouro construído com gosto. Dali se disfruta do Ilhéu do Ferro, a Costa do Camarão, o Ilhéu das Cenouras, O Porto Novo Zimbralinho. Depois dirigimo-nos ao Boqueirão de Baixo, Pico da Calheta da Malhada, 180 metros de altura, Pico do Facho da Malhada, Pico Castelo, Pico Ana Ferreira, Fonte da Areia, Serra de Fora, Serra de Dentro, Salemas e Porto do Varadouros. Tudo paisagens surpreendentes pelo que a natureza caprichosa oferece e que merecem uma visita.
Na praia da Calheta o enquadramento das rochas com o mar constitui um outro atrativo. Em alguns dias o mar deita-se tranquilamente na areia, permitindo aos nadadores horas despreocupadas de lazer. O Ilhéu da Cal, ao fundo, faz contraponto neste cenário teimosamente encantador. Este pedaço de praia, que fica no final do percurso é uma das zonas preferidas para muitos dos visitantes. Tem uma esplanada com um restaurante excelente.
Todos os anos no dia 29 agosto, a minha querida amiga Ferdinanda Sousa, festeja o seu aniversário no Porto Santo. Tornou-se já uma tradição. Um ponto de encontro de muitos dos seus amigos. Grande colaboradora nas várias iniciativas de animação turística que acontecem na Madeira, ela é uma personagem multifacetada: Foi professora tendo desenvolvido um trabalho muito importante junto das crianças em risco. Sempre muito discreta, guarda no silêncio todas as suas ações em prol dos outros. Pinta, fixando nas telas as paisagens da Madeira e Porto Santo com uma grande sensibilidade. Este ano por insistência dos seus amigos e em homenagem aos seus filhos Luís Miguel, Ricardo e Doris, apresentou um lindíssimo livro, com depoimentos comoventes e justos de familiares e amigos. O testemunho de uma vida preenchida com muitos acontecimentos onde predominou sempre o amor. Foi uma noite inesquecível, onde todos os convivas deram o seu contributo para uma fraterna confraternização. Uma noite mágica onde a amizade foi exaltada na beleza daquilo do que ela representa como elo de amor.
Uma outra noite divertidíssima, com gastronomia principesca, foi a que teve como anfitriões a Betty, a Elsa, o Norberto e o António Henriques. Eles foram inexcedíveis em comular os amigos de atenções. Eles são mestres na arte de bem receber. É assim que se passam as noites em Porto Santo, em ambiente de franca amizade e convívios salutares. A Ilha onde no próximo ano se realizará o V Encontro Internacional de Poesia. Aí os poetas cantarão as belezas das paisagens e dos recantos pitorescos que se escondem no silêncio, porque ninguém melhor do que eles para descobrirem com as suas sensibilidades o que aos olhos dos outros passa despercebido. Porque só eles têm a o condão de encontrarem na poesia as palavras justas para transmitirem a grandeza e a beleza das coisas que nos rodeiam.
Entretanto Porto Santo continua à espera da sua visita. Envolva-se na sua natureza imensa. Banhe-se nas suas águas temperadas. Seja uma deusa ou deus da sua praia única e maravilhosa onde teimosamente o sol habita.

Print

Categorias: Opinião

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima