16 de setembro de 2020

Nordeste rima com celeste

A vingança não podia ser maior: o único concelho da ilha de São Miguel sem vista para uma grande lagoa é a maior varanda sobre o infinito azul do Atlântico. É no concelho do Nordeste que o Sol emerge do sal e é nas pontas da Madrugada e do Sossego que a sua luz invade o Lombo Gordo, lentamente, vagarosa como as viagens do sal e da cal que, há anos, trepavam do Portinho do Arnel até à Nazaré, no lombo musculado das bestas e dos homens.
Os menos resistentes devem abster-se de provar o mar na Ponta do Arnel ou, até, de visitar o farol mais antigo e mais fotografado dos Açores, a meio de uma íngreme ladeira, imprópria para cardíacos. Mas, para quem não é de trilhos, o carro pode levar-nos ao miradouro da Vista dos Barcos, que também nos dilata o coração, sem fazermos qualquer esforço.
Se o desejo obrigar a banhos, convém descer à praia do Lombo Gordo para subir ao patamar onde a água nunca arrefece, invariavelmente fresca. Refresca-nos o regresso outro banho de verde, degrau a degrau pela encosta de algas, em contemplação, que o Nordeste não é para pressas. Não dá para visitas de médico.
Quem tiver menos tempo pode usar o automóvel para descer à Boca da Ribeira ou preferir molhar-se com os salpicos da Ribeira dos Caldeirões. E, mesmo nestes locais acessíveis, a beleza do Nordeste não deixa de ser agreste. É a (sua) natureza.
Desfrutar da vista a partir do ponto mais alto da ilha não é uma escolha; é um momento, oferecido pelo clima. O Pico da Vara é um privilégio para poucos, mas que tem um rival à altura na Serra da Tronqueira. Vale a pena esventrar o leste da ilha para ouvir o silêncio da alma, deixar de pairar nas nuvens porque o pio do milhafre nos acorda, espreitar o voo furtivo dos priolos, descobrindo um enorme feto nas profundezas do sereno vale.
Também altaneiro, mas mais fácil de alcançar do que o Pico da Vara, o Salto do Cavalo desvenda-nos quase toda a ilha a poente, como uma península de esmeraldas a dividir o oceano e revelando alguns dos melhores atributos dos vizinhos concelhos de Povoação e Ribeira Grande.
E que ninguém conteste: a leste, a ilha é outra. É outra ilha, mas não é noutra ilha. Não é preciso barco nem avião para lá chegar. Mais rápida e comodamente do que nunca, podemos ir pela SCUT. Respeitando sempre as normas de segurança rodoviária, claro. Ou, melhor ainda, serpenteando a estrada antiga, para rever, de perto, a ribeira do Despe-te Que Suas e apreciar, ao longe, a imponência dos viadutos. A modernidade e a criação humana também cativam, ainda que a sua beleza seja incomparável à da natureza virgem do Nordeste.
Quem apenas passa pelo Nordeste não aproveita nada dele. O Nordeste não é para pressas. Deve ser vivido, de preferência a pé. E do campismo às quatro estrelas de um hotel, passando por alojamento rural e local, são bastantes as opções para impedir o toca-e-foge de uma “volta à ilha”. A oferta de restauração, com sabores a entrar em desuso, também satisfaz, sendo muito aconselhável fazer reserva, além de reservar tempo. O Nordeste não é para ser comido; é para ser lambido.
No Nordeste, não há nada que nos moleste. O Nordeste é uma veste. De luz, paz, sossego e harmonia. Tudo grátis. O Nordeste é uma veste que embeleza. Apetece chegar ao Nordeste e pedir tudo isto para nós, sem favor e sem receio: ateste!
O Nordeste rima com celeste. Eu imagino o Céu assim.

Luís Óscar*

* Autor do livro «São coisas: A vida de João Pacheco Pimentel»
 

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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