Empresas e emprego no Nordeste ‘seguros pelos apoios e programas’ que quando acabarem podem deixar o concelho com ‘graves problemas sociais’ em Janeiro

Com o arranque do novo ano lectivo fecha-se também um ciclo no fluxo turístico, entrando numa fase de época baixa, num contexto diferente devido à continuada existência de casos de Covid-19 nos Açores, em Portugal continental e no mundo. Para uns, será talvez cedo para se fazer um balanço deste sector, um dos mais afectados pela limitação de mobilidade que o novo coronavírus impõe às pessoas, mas é tempo de se perceber o que se passa nos concelhos de São Miguel e que leitura fazem os autarcas do movimento turístico existente na época estival, quer interno quer externo, do cumprimento, ou não, das regras de saúde pública, e que perspectivas para a próxima etapa de Outono/Inverno.
No caso do Nordeste, um dos concelhos onde a natureza é o principal encanto e cativa quem visita, com o aumento do turismo para os Açores, o investimento empresarial no concelho também acompanhou a tendência. O número de camas disponíveis no concelho ultrapassou as três centenas, tendo o alojamento local e o turismo em espaço rural duplicado nos últimos anos. A pandemia gorou as expectativas de quem investiu.
António Miguel Soares, Presidente da Câmara Municipal, confirma a queda do turismo no concelho face ao ano anterior, como era de esperar.
“Notou-se um movimento de turismo interno mas também algum externo, só que, como é natural, muito menor do que em anos anteriores”. Contudo, apesar da contingência e das limitações que existem devido à imposição de distanciamento social, o autarca faz questão de sublinhar que “todos os empresários do concelho ligados ao turismo, nas diferentes áreas, estão de parabéns.
Os nossos empresários prepararam-se para receber os turistas de cá de dentro e de fora da ilha, cumprindo rigorosamente as orientações da Direcção Regional de Saúde. Verificamos que todos os estabelecimentos têm desinfectante à entrada e todos os funcionários usam máscara. Ou seja, cumprem todas as regras”.
Claro que os números do turismo no concelho não são os mais animadores, à semelhança do que se passa noutros concelhos da ilha e da Região. 
“Houve uma diminuição significativa de turistas no Nordeste, como aconteceu em vários lugares, e isso é para continuar, pois, como sabemos, ainda não há cura. Aguardamos ansiosamente por uma vacina, mas isso não acontece de um momento para o outro, leva o seu tempo, embora queiramos voltar com pressa à normalidade”. 
É certo, como diz o autarca nordestense, que depois do confinamento, houve uma tendência a normalizar, “com uns sectores melhores do que outros, embora se esperasse que fosse bem pior”, o suficiente para que os empresários tenham uma almofada financeira capaz de aguentar os próximos tempos de dificuldades devido ao novo coronavírus.

“Próximos meses não vão ser fáceis”

Mas se o balanço do Verão não foi tão negro como se esperava,  António Miguel Soares também não se manifesta muito optimista quanto ao que se vai passar no Inverno e antevê que os próximos meses não vão ser fáceis para o tecido económico nordestense, já de si com algumas especificidades e fragilidades. 
 O emprego é o que mais o preocupa. Não há emprego assegurado no concelho em diversos sectores e muitas pessoas estão integradas em programas promovidos pelo Executivo açoriano.
 “É devido às ajudas do Governo Regional, através do lay off e dos apoios à retoma económica, que as empresas vão continuando o seu trabalho e as pessoas mantendo o seu trabalho. Só que quando que estes apoios  terminarem, os números do desemprego vão disparar.” Mesmo sem as dificuldades impostas pela Covid-19, o concelho do Nordeste, rural na sua essência, tem muito desemprego, “o que não se nota muito agora porque os empresários estão a servir-se dos apoios que os governo regional e nacional têm dado às empresas. No entanto, a nossa preocupação centra-se no depois de acabarem essas medidas. Suspeito que assim que as mesmas terminarem, as poucas empresas que temos, muitas delas familiares, vão ter dificuldades. Os proprietários estão a fazer tudo por tudo para defender os postos de trabalho, mas sem clientes a situação pode vir a complicar”, regista o autarca.
A previsão do Presidente da Câmara do Nordeste é que a partir de Janeiro de 2021 se comece a notar as fragilidades e o início da queda dos números do emprego no concelho, cujos números não são conhecidos, pois o Serviço regional de Estatística só os divulga por ilha. O próprio autarca não tem números precisos e opina que “isso é uma lacuna”. 
“Os dados do emprego são divulgados ao nível de ilha e gostaríamos de saber o que se passa por concelho, e neste caso no nosso concelho. No entanto, pela experiência e pelo conhecimento que tenho do concelho, não acho que o emprego tenha diminuído. Tem havido uma maior apoio do Governo Regional – e ainda bem – no que respeita à aprovação de programas sociais e são esses programas que vão auxiliando a população nordestense e que vai resolvendo situações de várias pessoas.” É bom que assim seja, diz o autarca, “mas não se fala de criação de emprego mas de ocupação para o trabalhador.” 
Os números não são piores, como refere António Miguel Soares, porque mesmo no tempo da pandemia, a construção civil continuou activa no concelho do Nordeste, e, por isso, “não se nota uma diminuição no investimento, quer particular, quer público. As nossas empresas da construção civil têm feito um grande esforço para abraçar alguma da mão-de-obra disponível”, evitando assim que os números do desemprego sejam mais elevados”. Contudo, o autarca manifesta preocupação porque o emprego no Nordeste não é consistente, isto é, não há oferta empresarial, uma vez que a base económica está ligada à agricultura e pecuária e construção civil.
Recorde-se também que o Nordeste viveu dias difíceis, depois de terem sido detectados casos positivos de Covid-19 no lar de idosos da Santa Casa da Misericórdia, de onde vieram a falecer 12 utentes. No concelho, no total foram infectadas 54 pessoas. Neste momento, o concelho não tem nenhum caso e o autarca garante que  todos têm cumprido as regras, que tem sido feito um esforço de dotar todas as infra-estruras de material desinfectante e que ninguém esqueceu o que se passou nem ninguém quer voltar a viver um cenário do género. 
O autarca nordestense assume que concentra todas as preocupações nas pessoas e na necessidade de promover a criação de emprego para o bem-estar das famílias e do desenvolvimento económico do concelho, mas sabe também das dificuldades das empresas e das pessoas.
      
 

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