21 de setembro de 2020

Atlântico Expresso

Mas que chatice!

Miserável título para tão gloriosa, sábia e brilhante prosa como a que pretendo debitar e a seguir se verá. Mas que chatice! Por acaso, não haverá nada de melhor, de mais digno e respeitável, dirá o amável leitor. Na verdade, caríssimos, não encontro em todo o dicionário da língua portuguesa e arredores melhor palavrinha para celebrar a famigerada des)união entre todos os açorinos d’aquém e d’além mar. Defeito meu, com toda a certeza! Se não, vejamos: 
- Chateiam-se os filhos com o país porque sim e os pais com os filhos porque não; o marido com a esposa porque tem amantes e vice-versa; por sua vez, o patrão chateia-se com o empregado porque este não faz o que ele quer e o empregado com o patrão mais ou menos pelo mesmo motivo. Até de ilha para ilha as pessoas chateiam-se umas às outras por dá-cá-aquela-palha. Enfim! seria longa a lista de “chatices”. 
Além de ser uma expressão familiar e comum de Santa Maria ao Corvo e, por isso mesmo, significativa da união que deveria existir entre os ilhéus; traduz, ainda, muito bem o estado de espírito dos que militam na equipa da desunião. Digam-me lá, então, se a tal palavrinha não é mesmo o traço de união entre todas as ilhas.
Não quero ser deselegante e muito menos desejo acusar quem quer que seja de divisionismo, mas é deplorável que volta e meia apareça alguém a achar que “os S. Miguéis” são uma “corja de interesseiros” que tudo puxam para a sua ilha em detrimento das restantes. Enfim! As opiniões variam consoante os ventos e as marés. Até a pobre da autonomia, nascida há pouco mais de quarenta anos não escapa a esta triste sina, pois, na opinião de doutos e ilustrados escribas, algumas ilhas parecem ser mais autónomas do que outras e, segundo eles, há mesmo quem tenha a mania de ser “o dono disto tudo”.
Esperava-se que ao fim de todo este tempo estivéssemos perante uma autonomia adulta, vigorosa, bem cuidada, capaz de ombrear e de fazer frente a qualquer outro poder, com coragem e valentia. Em vez disto, o que temos? Uma autonomiazinha raquítica esmifrada e a precisar de um bom tónico que a revigore. Basta ver o que aconteceu à célebre comissão de revisão, a CEVERA:   levaram quatro anos a estudar, pediu-se esmola a Lisboa, gastou-se uma “pipa de massa” e, no fim, “aos costumes disseram nada”.
Bem se esforçam vários escribas da nossa praça por amenizar as coisas, contrariando a corrente da desunião. A título de exemplo deixo aqui um excerto do editorial do Atlântico Expresso de sete de novembro que merce ser lido, dito e redito. A propósito da famigerada CEVERA, Santos Narciso diz o seguinte: “o resultado está à vista. De cada vez que se pretende legislar e agir, encontramos barreiras intransponíveis, na Constituição, nas Leis-Gerais e na eterna indefinição daquilo que é “interesse específico” dos Açores. E sabemos que num estado de direito assim é. Mas também se sabe que quando as leis não servem o desiderato do desenvolvimento e do bem-estar das pessoas, mudam-se. E é aqui que se vê a diferença entre políticos de garra, estadistas sem medo e de políticos conformados, medrosos, sempre prontos a governar à vista”.
Continuando na senda da amenização, para evitar males maiores, sugiro a quem de direito a construção noutra ilha, que se julgue menos afortunada ou prejudicada por qualquer força maléfica, de uma nova Ferraria com água termal e tudo, à semelhança da que existe em Miguel e, para completar o ramalhete, construa-se, também, uma espécie de “Poça da D. Beija” acompanhada dos “mamarrachos” da Calheta de Pêro de Teive que, estou em crer, serão a nova coqueluche do turismo regional como símbolo máximo da inoperância de governantes e de servilismo ao  poder do vil metal que faz cantar cegos, dançar prostitutas e até encanta políticos e senhores da alta finança.
Recentemente, alguém com poder para tal em vez de mandar um buldózer arrasar aquilo tudo, mandou   ao tal Fundo sem rosto nem fundo uma carta solicitando mais um papel – um cronograma, ou coisa que o valha – dando para a resposta um prazo de dez dias. Mas será possível levar isto a sério?!...O tal papel irá pelo mesmo caminho de todas os outros, incluída a solene proclamação feita há anos de levar o assunto a Bruxelas, naturalmente feita numa folha de couve … de Bruxelas; deve ter sido isto! 

José Manuel Carvalho

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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