19 de setembro de 2020

O que é que o amor tem?

Todas as historias de amor são potenciais historias de dor. Se não no princípio, depois.
Se não para um, para o outro.
Às vezes para ambos.
Então, porque aspiramos continuamente a amar? Porque o amor é o ponto onde se encontram a verdade e a magia.
A verdade como na fotografia; a magia como no balonismo.
Estas palavras foram escritas por Julian Barnes, escritor inglês na introdução do seu magnifico livro intitulado OS NÍVEIS DA VIDA.
O autor referido perdeu a esposa que amava profundamente, mas perdeu-a para a morte, não para a vida.
Amou-a durante a vida e continuou a amá-la depois da morte.
Mais tarde ou mais cedo, um deles é levado. E aquilo que é levado é maior do que a soma daquilo que lá estava.
O amor dá-nos um sentimento de invencibilidade; mas há sempre o golpe súbito da lança no pescoço.
Quando saía do hospital todas as noites, onde a esposa esteve internada, Barnes escreve que dava por si a olhar ressentida e fixamente as pessoas nos autocarros ou que simplesmente se pergunta a si mesmo: como podem elas sentar-se tão ociosas e inconscientes, exibir perfis indiferentes, quando o mundo está prestes a transformar-se?
Dói muito a indiferença da vida, que continua simplesmente, até que simplesmente acaba.
A grande poetisa PORTUGUESA SOFIA DE MELLO BREYNER tem um magnífico poema que exprime  indiferença da vida perante a ausência da pessoa, mas que é demasiado longo para estar aqui a reproduzi-lo.
Alguns amigos ajudam a superar a perda mas pouco; têm, depois da perda, um ou outro encontro breve connosco, mas normalmente, depois fogem de nós para a sombra dos seus abrigos.
Quando não conseguem lidar de frente com a dor alheia as pessoas fogem, à espera que o tempo passe e que tudo entre na normalidade e tudo passe a ser como era dantes.
Só que nada é com dantes; a pessoa antes de sofrer uma grande perda é uma, depois de a sofrer é outra muito diferente.
A vida continua é certo mas torna-se muito mais sombria; deixa de ser aquele céu aberto, de onde brota a luz abençoada do amor que dá claridade ao mundo.
O sentimento daquela ausência está sempre presente e não há nada, mesmo nada que nos devolva essa presença ao nosso lado no mundo.
A perda de um amor é também uma perda de sentido existencial, o sentido vai-se amada e fica um vazio imenso no nosso coração.
Porque o amor é, como disse Barnes,.. “o ponto onde se encontram a verdade e a magia.”
 

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Categorias: Opinião

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