19 de setembro de 2020

Cesto da Gávea

Ordem e desordem, verdade e mentira


Um dos livros deste século que mais me agradou ler e releio sempre com gosto, é “Geopolítica do caos” de Ignacio Ramonet, durante longos anos jornalista, diretor e editor do “Le Monde Diplomatique”, cuja edição espanhola ainda hoje dirige. O livro foi pela primeira vez publicado em francês em 1997, quando o século XX chegava ao fim, levantando desde logo um coro de críticas, umas favoráveis, outras nem tanto. Todavia, nada como o tempo para trazer ao de cima a razão dos visionários e foi o que aconteceu com esta obra de Ramonet, aliás uma de entre várias de qualidade que produziu. A singularidade advém-lhe de ter conseguido reunir em cerca de 150 páginas um raro conjunto de reflexões que, passados 23 anos, se revelam atuais e premonitórias. Ignacio Ramonet é galego de nascimento, doutorou-se em sociologia da comunicação na EHESS-Escola de Estudos Avançados de Ciências Sociais de Paris e lecionou em várias universidades, juntando a competência e o saber científicos a uma invulgar qualidade jornalística e de escritor. 
O capítulo do livro que se segue à introdução, intitula-se “Mutação do futuro” e é uma verdadeira pedra preciosa de pensamento sobre a então vigente ideia da nova ordem mundial. Não resisto a citar o segundo parágrafo: “Nas vésperas da entrada no terceiro milénio, cada um pode constatar que a incerteza se tornou na única certeza. E que uma espécie de sinistrose mundial se espalha num clima de insatisfação geral e desencantamento”. Quando passadas mais de 2 décadas, vemos o que vem acontecendo, percebemos que a vinda da pandemia que nos atingiu só veio agravar o previsível caos político, económico, social e ecológico que a globalização potenciou. Em 1997, quando o livro de Ramonet surgiu, os Estados Unidos eram o manda-chuva da geoestratégia planetária, a China dava sinais do que podia vir a ser, o mundo parecia organizar-se em blocos regionais (NAFTA, Mercosul, UMA-Magreb, SADEC da África Austral, a Ásia da APEC) seguindo o exemplo invejado da União Europeia. Olhando pelo retrovisor, tem-se hoje uma quase saudade desses tempos, por perturbados que tenham sido. Uma América trumpiana originou um arremedo da NAFTA, a Ásia assistiu à emergência da China, indubitavelmente a 2ª maior potência mundial do século XXI, enquanto a anglofilia declina, erodindo a coesão europeia e internacional, como demonstra o desprezo do governo britânico pelos acordos que ele próprio assinou com a Comissão Europeia. Não é nada de novo: em junho de 1014, o chanceler alemão Bethmann-Holweg considerou os tratados de paz  “chiffons de papier/pedaços de papel”, frase recuperada pelo ex-Presidente francês Giscard D’Estaing em 2013, para qualificar o que os eurocratas pensam do que assinam.
Sendo assim, só se poderia esperar de um mundo digitalizado em franca expansão uma caminhada para o domínio dos tecnologicamente mais fortes, igualmente possuidores dos esmagadores meios financeiros que lhes permitem o controlo das economias e, por essas vias, do poder político. A janela aberta pela Covid-19 permitiu uma visão nítida sobre a capacidade de apropriação das chaves da saúde por europeus, americanos, chineses e russos. Disputam a corrida às vacinas anti Sars-Cov-2 como uma competição internacional de Fórmula 1, mas infinitamente mais rentável em termos de lucros, inclusive políticos. Nesta luta vale tudo, usando-se a mentira como verdade – coisa comum nas redes sociais – e fazendo da desordem uma nova forma da ordem. A mentira como arma política é matéria corriqueira, ao ponto dos utilizadores das redes sociais a terem transformado em objeto de apatetadas discussões, extravasando bastas vezes a decência verbal e a mais elementar educação. Verdade seja que mentirosos e vigaristas políticos sempre existiram, mas o uso trivial, quase diria viciante, dos smartphones e da internet móvel pelos nativos digitais, transformou jovens e adultos em alvos fáceis da manipulação informativa. 
Atingido o patamar do suportável consumo de notícias falsas, notabilizadas pelo Presidente Trump no repetido uso da expressão “fake news”, os especialistas dedicaram mais atenção ao assunto, tratando de analisar a opinião pública dos cidadãos norte-americanos. Concluíram assim que a percentagem dos que acreditam na veracidade das notícias veiculadas pelas redes sociais era de 34%, contra 65% das originadas nos média tradicionais. Relativamente ao Facebook e You Tube, 89% acreditam que estes 2 meios são parcial ou maioritariamente responsáveis pelas ditas “fake news”. Na União Europeia, está em curso o Plano de Ação contra a Desinformação, tendo como Vice-Presidente Executiva Margrethe Vestager, uma dinamarquesa conhecida pela isenção e rigor. A bem da verdade, sugere-se que a Universidade dos Açores faça um estudo sobre o que pensam os açorianos sobre desinformação regional, seguindo a linha da Comissão Europeia. Caso contrário, continuaremos a viver na dúvida se verdade é mentira, ordem é desordem, ou vice-versa.

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Categorias: Opinião

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