Jorge Pereira, Presidente da Cooperativa Leite Montanha

“É verdade que recebemos apoios e se não fossem esses apoios já teríamos fechado a porta”

Correio dos Açores: Conte-nos um pouco da história da Cooperativa?   
Jorge Pereira: O Pico tem um a história longínqua nos produtos lácteos que se inicia praticamente com o povoamento da nossa ilha, onde singraram pequenas indústrias de âmbito familiar que levaram á criação do queijo do Pico DOP, produto que representa um dos mais típicos sabores do Pico e dos Açores. Relembro que a par do Queijo de São Jorge DOP, estes dois são os únicos em Portugal que são fabricados a partir de leite de vaca cru.
Mas também faz parte desta história a criação de indústrias de maior dimensão, responsáveis pela criação de vários postos de trabalho e por uma produção de queijo de formas mais industrializada, caso por exemplo da antiga Martins e Rebelo.
Infelizmente o sector leiteiro no Pico tem vivido momentos de crise de forma cíclica, que tem contribuído para a desistência de inúmeros produtores de leite no Pico.
Com a falência da Martins e Rebelo, surge a necessidade dos produtores encontrarem alternativas para o escoamento do seu leite, tendo surgido então a cooperativa LactoPico que adquire o património da antiga Martins e Rebelo e inicia a produção por conta própria.
Infelizmente, as condições da indústria não eram as melhores, as vendas não cobriam os custos de produção, para não falar nalguns valores que ficaram por receber e que grande transtorno causaram nas contas desta cooperativa, levando a que os produtores estivessem com pagamentos em atraso superiores a um ano. 
Surge então por volta dos anos de 1996/97 uma solução que esperávamos que tivesse sido o garante de estabilidade do sector no Pico. É criada uma sociedade entre a LactoPico e a Lacticínios de Azeméis, a que se chamou de PicoLaze, ficando a LactoPico responsável pela recolha do Leite e a Picolaze, cuja gestão pertencia á Lacticínios de Azeméis pois era o sócio maioritário, responsável pela gestão da unidade fabril.
No âmbito deste processo, é construída esta unidade industrial em que nos encontramos. No entanto, esta solução mais uma vez não termina bem. Temos uma fábrica nova, mas que funciona como fabrica satélite da fábrica de Oliveira de Azeméis. Não foram criadas condições para acabar o produto nesta unidade. O objectivo era colocar o leite em queijo e terminar o produto em Oliveira de Azeméis.
Neste período as quantidades de leite que se pretendiam não são atingidas, o valor pago por litro de leite não era encorajador, resultando no abandono de vários produtores e consequentemente à desistência da Lacticínios de Azeméis do negócio no Pico.
Mais uma vez a LactoPico tem de se chegar á frente, adquire a parte correspondente á lacticínios de Azeméis, assume a responsabilidade total da produção e inicia o caminho pelos seus próprios pés.
Nesta fase conclui-se o projecto da fábrica, nomeadamente o posto de recolha de leite junto a esta unidade, passam a fazer parte da Lactaçores, União de Cooperativas dos Açores, com responsabilidade de comercialização dos seus produtos, faz-se uma forte aposta nos produtores com o objectivo de aumentar produções, permitindo assim a viabilização da unidade, mas infelizmente a estrutura física desta unidade industrial não tinha as condições necessárias para a produção de queijo nas devidas condições, sendo o produto produzido de baixa qualidade e valor e resultando muitas vezes em perdas de produto.
Neste cenário, apesar do esforço de todos os seus dirigentes e funcionários, as perdas financeiras foram avultadas e a situação mais uma vez tornou-se insustentável.
É aqui há cerca de 7, quase 8 anos atrás, que se inicia o nosso capítulo. 
Quando assumo a Presidência desta instituição acompanhado dos meus colegas, o cenário que tinhamos pela frente era muito complexo, com os poucos produtores que resistiam a terem cerca de 10 meses de leite por receber.
Nesta fábrica, as câmaras de frio não estavam em condições, a caldeira muito menos, as linhas de fabrico necessitavam de manutenção, entre outras coisas.
Vivemos momentos de desespero mas a vontade e necessidade de dar a volta têm sido maiores.
Recorremos ao tribunal, pedimos um processo especial de revitalização e escapamos ao processo de insolvência por uma unha negra.
Num acordo que juntou a LactoPico, o Governo Regional do Açores, a Lactaçores e que contou com a concordância do nosso maior credor, traçamos um rumo e definimos objectivo, que nos levou ao dia de hoje.
Passamos a ter uma gestão mais profissional, o apoio do governo na elaboração e concretização do investimento necessário para a melhoria das instalações e a concordância dos nossos maiores credores neste plano de recuperação.
Faltava uma coisa, faltava romper com o passado, e por isso criamos a Cooperativa Leite Montanha, nome inspirada nesta nossa montanha que é uma das 7 maravilhas de Portugal.
Após o término das obras iniciamos um novo capitulo, trabalhando bem os nossos produtos, fazendo-os com qualidade, promovendo as características dos queijos típicos do Pico, inovando e apresentando novos produtos tendo sempre em conta a sustentabilidade financeira da nossa cooperativa e trabalhando com a meta de fazer aumentar valorização do leite dos nossos produtores.

De que forma a Leite Montanha está a viver esta época de pandemia? Consegue quantificar as perdas registadas durante a pandemia? Houve algum tipo de reestruturação ou de adaptação?
Não consigo precisar as perdas devido á pandemia, pois actualmente, até Agosto, aumentamos as receitas em mais de 20% e mantivemos o meu mesmo valor de despesa apesar de termos recebido mais 8% de leite quando comparado com o ano anterior.
No entanto, a pandemia obrigou-nos a atrasar o lançamento dos novos queijos, o Ilha dos Mistérios e o Mistério com nova receita e imagem, tal como a abertura da loja na Madalena. Houve um mês em que, devido à pandemia, praticamente só produzimos queijo barra e manteiga, ou seja, senão fosse a pandemia, estaríamos a falar certamente de um aumento de receitas muito superior, pois ter-nos-ia permitido lançar estes novos produtos em mais mercados e teríamos tido muito mais turismo, que nos teria permitido vender muito mais.

Quantos funcionários trabalham actualmente na Cooperativa?
Actualmente cerca de 25, no entanto a continuarmos neste ritmo teremos de ir reforçando a equipa, pois com a produção destes queijos novos, que valem quase o triplo do queijo barra, necessitamos de pessoas que os cuidem durante o período de cura, que também é mais extenso que o do queijo barra.

Com quantos produtores trabalha a Cooperativa?
Neste momento contamos com 30 produtores.

Falemos um pouco da vossa capacidade de produção. Quantos queijos produzem por dia e quantos litros de leite recebem para essa produção?
Nós concentramos a produção em 3 dias por semana e trabalhamos em duas linhas diferentes. A linha automática com cuba fechada onde produzimos o queijo barra e o queijo prato, e a linha artesanal onde trabalhamos em cuba aberta. Neste momento recebemos 12 mil litros por dia, na época alta chegamos aos 16 mil, temos capacidade de trabalhar mais leite dependendo do produto final pois podemos ter limitações nas câmaras de cura. O número de queijos varia muito de acordo com o produto que se está a fazer. 

Quantos tipos de queijo produzem? Qual o mais procurado?
Nós produzimos o queijo barra, que é o que produzimos em maior quantidade, mas sendo um produto de baixo valor, estamos procurando diminuir a sua produção, situação que temos conseguido nos últimos dois meses.
Depois produzimos o Queijo Ponta da Ilha, o Rainha do Pico, o Mistério e, mais recentemente, o Ilha dos Mistérios que tem sido um sucesso em termos de vendas e que tem recebido críticas extremamente positivas. Produzimos ainda o queijo fresco e a famosa manteiga Rainha do Pico, uma manteiga que os melhores chefs de Portugal não dispensam de ter na sua cozinha!
Mas já estamos também aprovados para produzir o Queijo do Pico DOP, já conseguimos produzir e obter produções certificadas, mas ainda estamos a afinar o processo de produção deste queijo, além de termos outros em desenvolvimento.

Quais são os vossos principais mercados de exportação? Pensam ir mais longe? Aonde?
O principal mercado é os Açores e o continente português, mas já foi produto nosso para os EUA, mercado que pretendemos explorar pois temos tido contactos de diferentes zonas. Também temos desenvolvido contactos no centro da Europa, mas logo se vê o que pode acontecer pois em termos de logística são sempre operações complexas.

Em entrevistas recentes que fizemos, algumas queijarias artesanais do Pico e do Faial acusaram as cooperativas (Leite Montanha, nomeadamente) de “concorrência desleal” e de “falta de solidariedade”. Como reage a estas acusações e qual a vossa relação com as queijarias artesanais já que ‘disputam’ a mesma matéria-prima? Há espaço para todos? Quer explicar este ultimo ponto?
Continuo a considerar que não há necessidade disso, ambos os conceitos são importantes e necessários, no entanto têm e vivem realidades diferentes. Relembro que se trata sempre em ambos os casos de sustentabilidade de famílias, seja nas cooperativas seja nas queijarias. Todos nós enfrentamos desafios, a pandemia foi um grande desafio, felizmente nós neste caso tivemos capacidade de absorver todo o leite, no passado as queijarias conseguiram fruto do seu trabalho oferecer mais garantias de estabilidade aos produtores, tendo por isso recebido alguns produtores que eram nossos.
Os negócios são mesmo assim, uns puxam pelos outros, a competitividade, desde que seja feita com ética, contribui para a melhoraria do nosso desempenho! Vivemos numa região com muitas potencialidades, atractiva em termos turísticos, com uma imagem muito forte em termos ambientais, de bem-estar animal, etc. que é uma mais valia para todos e que permite haver espaço para todos, desde que trabalhemos bem.
Sim é verdade que recebemos apoios, e se não fossem esses apoios já teríamos fechado a porta, teríamos menos produtores de leite, teríamos menos pessoas empregadas, teríamos menos exportações a partir do Pico, logo uma economia mais pobre. 
Se fico contente por recebermos apoios? Não! No entanto acreditamos que se continuarmos este caminho que traçamos em conjunto com as entidades referidas, produzindo com qualidade, inovando, e fazendo os investimentos corretos e ponderados, teremos capacidade de viver sem apoios, remunerar bem os nossos produtores e funcionários, contribuindo activamente para a economia do Pico e dos Açores.

Projectando o futuro pós-pandemia, a Leite Montanha tem alguns projectos para serem lançados nos próximos tempos? Quais são os vossos grandes objectivos?
Não temos um futuro pós pandemia, temos só o futuro, ou seja, não estamos há espera que a pandemia passe! Temos uma nova realidade, temos de viver com ela e continuar. Estamos neste momento preocupados em estabilizar a produção destes novos produtos em termos de qualidade e potenciar o aumento das suas vendas, estamos a trabalhar em novos produtos, a olhar para os actuais e procurando perceber o que podemos melhorar em termos de imagem, de abordagem de mercado, tendo como grandes objectivos a estabilização financeira da cooperativa, dos seus cooperantes e dos seus funcionários.
                

Luís Lobão

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Autor: CA

Categorias: Regional

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