20 de setembro de 2020

Críticas da Ryanair à TAP e à SATA: olhem só quem fala!...

Em texto anterior referi-me ao facto de o poder político ceder frequentemente à tentação de gerir os processos concretos das empresas que tutela, em vez de se limitar à garantia dos meios, ou seja, ao financiamento da atividade e à nomeação de gestores capazes. Nem devia ser preciso acentuar isto, mas, sublinhe-se, é no pressuposto de que os gestores escolhidos sempre teriam que elaborar um plano para o submeter a aprovação e, naturalmente, prestar contas da utilização dos recursos financeiros disponibilizados. Os governantes prestam contas nos atos eleitorais e não têm que dominar tecnicamente os assuntos específicos, mas devem pedir responsabilidades aos técnicos que nomeiam, quer para o  seu                                                                                                                             aconselhamento no governo, quer para o desempenho de missões concretas como a de gerir um departamento, uma organização ou uma empresa de serviços públicos.
Referia-me na altura, em concreto, aos exemplos da TAP e da SATA. Constata-se que, na TAP, o arrastar da indefinição quanto à equipa que a deve gerir ameaça prejudicar seriamente a utilização equilibrada do acesso ao crédito com aval do Estado consentido pela Comissão Europeia. E, na SATA, decorrerem meses, a caminho de um ano, sem que seja divulgado um plano estratégico, introduz, mesmo invocando-se os imprevistos da crise pandémica, compreensíveis suspeitas de conveniências eleitoralistas que em nada ajudam a credibilizar as justificações para acesso ao financiamento. Tanto na TAP como na SATA, porém, há um fator condicionante desse financiamento que tende a ser passado para a zona de sombra: não é só a pandemia a dificultar a retoma da atividade destas empresas para os padrões da normalidade. Mesmo sabendo-se que a dita normalidade não será atingida antes de decorridos uns três anos, é preciso, de vez em quando, fazer soar uma espécie de campainha de alarme: tanto a TAP como a SATA já tinham problemas antes daCovid-19 e, por isso, qualquer reestruturação, reorganização ou replaneamento pode ser para enfrentar os efeitos da pandemia, sim, mas tem de visar também a correção do que estava a correr mal antes de março deste ano. 
Acontece, porém, que a Ryanair irá ter aqui, à conta dos Açores  ,mais dois milhões  de euros - que não são para enfrentar a pandemia. Precisamos, por isso, de livrar-nos dos complexos de pobrezinhos em que tendemos a cair, empurrados pelas críticas fáceis ou populistas que surgem nos gabinetes e na opinião pública expressa. Os milhões de empréstimo a que a TAP e a SATA se candidataram são milhões, é verdade, mas são empréstimos, não se justifica a mão estendida e o os olhos baixos, normalmente associados à pobreza envergonhada. O que é indispensável é ter determinação para salvar as empresas e isso só se mostra com uma equipa autónoma e com um plano estratégico adequado.
Por outro lado, alguns dos que nos andam a acusar de pedintes e a criticar que nos seja concedido acesso ao financiamento, são na verdade parte interessada e sem moral, digamos assim por delicadeza: concorrentes, como a Ryanair, a quem bem se podia aplicar o velho ditado “fala o nu do mal vestido”. É que, esta mesma Ryanair, que, como outras chamadas lowcost, sempre teve artes de obter lucros, recebendo ao mesmo tempo subsídios em todos as regiões onde opera - incluindo, no caso da Ryanair, aqui nos Açores - não negligencia beneficiar dos fundos europeus, organizados para fazer face à pandemia. 
Nos últimos cinco anos, esta companhia irlandesa acumulou - não é boato, está nas contas - perto de seis mil milhões de euros de lucros. Mesmo assim, e para além da subsidiação que vai assegurando com o argumento de contribuir para os desenvolvimentos regionais, essa mesma Ryanair beneficiou agora, para enfrentar a pandemiaCovid-19, de um financiamento de 600 milhões de libras de fundos criados pelo Reino Unido (do mesmo tipo dos que, criados na União Europeia, apoiarão os casos da TAP ou da SATA, ainda que sob as críticas  de quem, como a Ryanair, já recebeu). Crédito idêntico foi concedida também à EasyJet e, metade disso,300 milhões, à Wizzair, subsidiária húngara da British, pelos mesmos fundos. Ora, se é possível, a uma organização como estas ditas lowcost, encontrar argumentos para pedir apoio aos governos e consentimento àUnião Europeia, ao mesmo tempo que acumula os seus lucros, não têm os governos português e dos Açores que ficar como que condicionados, inibidos pelas críticas desses mesmos campeões do subsídio, quanto à atribuição de créditos às nossas companhias tradicionais para que se recomponham. O facto de o Presidente da Ryanair ter criticado publicamente a cobertura governamental para que a Comissão Europeia consinta na candidatura destas empresas, só demonstra como lhe é transmitida a ideia de impunidade: tem, tudo o indica, uma larga margem de terreno para ensaiar os processos de chantagem, sem que nada aconteça. É ver as ameaças que faz de descontinuar rotas e reduzir postos de trabalho.
A demonstrar porquê os governantes não resistem a protagonizar a divulgação pública dos planos de exploração ou das novas rotas das empresas tuteladas, em vez de deixarem que sejam os respetivos gestores a gerir a informação, somos agora surpreendidos por ser o próprio Governo Regional a divulgar a decisão da Ryanair de manter a sua atividade na escala da Terceira. Naturalmente, só se pode concluir que foi o próprio Governo dos Açores a assegurar, diretamente ou de forma enviesada, os “incentivos” à lowcost irlandesa. O tais dois milhões que seriam “ilegais” se fossem para a SATA.
É altura de se parar com este tipo de manobras nebulosas, é tempo de os dois governos, nos Açores e em Lisboa, concertarem esforços para que a TAP e a SATA estabeleçam parcerias que, com transparência, melhorem os resultados de ambas, em benefício das populações que servem. Ambas são fundamentais no contributo que dão à economia nacional e regional, designadamente no desenvolvimento turístico e na criação de emprego direto e indireto. Se a dita lowcost invoca o crescimento que a sua presença provoca nas atividades económicas regionais, por maioria de razões idêntica invocação pode ser assumida pelas nossas companhias aéreas.
Acontece, porém, que, no caso da TAP, tal contributo só foi pacífico quando a sua Administração esteve confiada a equipas com conhecimentos e autonomia de gestão adequados. É altura de ser retomada essa política, solução cuja chegada está a arrastar-se com visível penosidade. 
Algo idêntico se dirá em relação à SATA: a empresa só ganha se os seus gestores sacudirem de vez em quando os governantes para que estes deixem de se intrometer constantemente.

José Adriano Ávila

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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