Jovem açoriano troca jornalismo pela música e prepara-se para lançar o primeiro álbum

A possibilidade de ter que sair dos Açores para prosseguir estudos sempre foi algo ponderado por Filipe Furtado, sobretudo quando em 2010 decidiu trocar o curso de Comunicação Social e Cultura da Universidade dos Açores, no qual entrara como primeira opção,– para passar a estudar jornalismo na Universidade de Coimbra.
Entre os motivos que pesaram na decisão deste jovem, nascido e criado em Ponta Delgada, estavam a necessidade de passar por outras oportunidades e experiências na área do jornalismo que não seriam possíveis na academia açoriana – chegando por isso a ter a oportunidade de fazer jornalismo universitário –, e também o facto de a empregabilidade na Região não ser “a mais atractiva” na área em questão.
De acordo com o jovem, se tivesse continuado os estudos na Universidade dos Açores, este “não teria espaço, nem oportunidade de trabalhar da forma que quereria no arquipélago”, sendo nessa mesma altura que – ao decidir que era o ramo da música que desejava prosseguir profissionalmente – “as limitações e dificuldades ficaram mais nítidas”, apesar de reconhecer que existem “boas excepções e projectos muito corajosos e interessantes” que surgem nos Açores.
Nessa altura, em Coimbra, depois de ter aprendido a tocar guitarra na adolescência, Filipe Furtado decidiu que estava na hora de apostar no seu futuro enquanto artista e entrar no curso de jazz da Tone Music School como guitarrista, altura esta em que procurou recuperar o tempo perdido e acompanhar os colegas de turma.
“Depois de alguns anos de estudo no jazz, estava um pouco perdido ainda à procura do rumo certo a seguir. Nessa altura, comecei a fazer as primeiras experiências, a escrever canções, a tentar musicar poemas e, mais difícil ainda, a permitir-me cantar em público”, diz.
Assim, foi no decorrer desta parte do seu percurso que sentiu a necessidade de dar o passo seguinte e de gravar o seu primeiro álbum, intitulado de “Prelúdio”, e que segundo o próprio estará “a breves dias de ver a luz do dia”, tendo o primeiro single sido gravado na Blue House Coimbra que, “para além de ser um estúdio e um ponto de encontro entre gerações de músicos”, é também a agência da qual faz orgulhosamente parte.
Como elemento chave que despoletou o desejo de gravar este seu primeiro trabalho está o facto de ter actuado no Tremor, festival de música que decorre anualmente na ilha de São Miguel, e no qual se orgulha igualmente de ter participado.
“O convite chegou-me por mensagem de Facebook. O Luís Banrezes Kitas contactou-me, depois de encontrar algumas gravações muito caseiras da minha conta do Soundcloud.  Fiquei eufórico! Eu já era fã do festival e, claro, sabia que era uma oportunidade única para mostrar as minhas primeiras experiências, as minhas primeiras canções. Na altura, estava ainda com muitas dificuldades em cantar. Foi um estímulo gigante”, relembra.
Depois de receber este convite na sua caixa de mensagens – e depois de o ter aceitado – Filipe Furtado viria a passar os próximos meses concentrado em melhorar as suas capacidades para “estar à altura do festival e do público que estaria presente”, ficando então claro depois do festival “que tinha que passar à próxima fase e gravar um disco”, processo este que embora tenha sido mais demorado do que o previsto se prepara agora para dar frutos.
De uma forma geral, adianta, muitas das canções que compõe “falam sobre pessoas ou locais muito específicos da ilha, que marcaram a sua vida ou a sua infância”, afirmando por isso que o imaginário das suas canções “reside nos Açores” e que são “essas cores que estão sempre presentes” quando está a compor.
Por esse motivo, mal pode esperar pela próxima oportunidade para voltar a tocar nos Açores e para “mostrar o resultado final do disco ao vivo”, algo que gostaria de fazer acompanhado pela sua banda, composta por “um trompetista e um baterista incríveis”.
Conforme recorda, para além do jornalismo e da música (um sonho “que sempre teve mais ou menos presente”), também o teatro foi encarado como uma opção no seu currículo académico, uma vez que esta foi uma das áreas pelas quais demonstrava interesse na altura de escolher um curso superior, opção essa que seria bem aceite pela família, conta.
“Bem, se dependesse apenas da minha mãe, talvez tivesse seguido esse caminho. Mas foi um processo gradual. Comecei a ter aulas de guitarra com 15 ou 16 anos. Parei com as aulas, mas continuei a tocar algumas coisas. Quando fui para Coimbra, embora estivesse muito entusiasmado e dedicado à prática do jornalismo universitário, percebi que queria estudar música a sério. No último ano da licenciatura já estava também matriculado na Tone Music School, no curso de jazz”, explica Filipe Furtado.
No que diz respeito ao tentar prosseguir uma carreira profissional como jornalista, o jovem radialista refere que a sua maior reserva foi o factor tempo, uma vez que sentia que necessitava de “muito tempo livre, horários e rotinas bem delineadas para recuperar os anos perdidos no estudo musical”, considerando assim que não seria possível lutar pelos seus objectivos a menos que “tivesse horas de começar e terminar o trabalho bem definidas, sem demasiados sobressaltos”, sobretudo num momento em que se encontrava também a conciliar esforços para completar um curso de jazz.
Para além disso, adianta o jovem micaelense, existe também a crise no sector informativo – conhecida há vários anos – que é também desanimadora, principalmente para os jornalistas mais novos e que se preparam para iniciar carreira.
“Há anos que se fala na crise do sector da informação, da necessidade de alternativas para o seu modelo de negócio ultrapassado. Comecemos por aqui: os jornalistas são muito mal pagos, têm péssimas condições de trabalho, vivem e trabalham, muitas vezes, em situação de precariedade. 
Até no canal do Estado há precários. Isto, obviamente, prejudica a qualidade do seu trabalho. Afecta ainda mais a capacidade de protestar e lutar por práticas profissionais mais exigentes. A internet e as redes sociais também dificultam esse processo. Não há tempo para rever ou verificar factos e fontes. A ideologia dos directos sem fim é extremamente difícil de compreender e, em muitos casos, roça na idiotice”, acrescenta ainda Filipe Furtado.
De qualquer das formas, e apesar de já se ter interessado em momentos diferentes da sua vida pelos vários meios de difusão de comunicação que existem, o jovem micaelense chegou por fim à conclusão de que o seu meio preferido é a rádio, sendo actualmente radialista na RUC (Rádio Universidade de Coimbra), onde tem um programa de música brasileira chamado “Elevador Copacabana”, escrevendo também algumas críticas musicais para o Jornal Universitário A Cabra.
Quanto a esta transição para a música, embora mantenha um emprego fixo na área do marketing digital, Filipe Furtado recorda apenas “um ou dois momentos em que ocorreram conversas mais sérias” sobre o assunto, “não no sentido de tentar restringir ou mudar a minha vontade, mas, sem dúvida, numa perspectiva de pais preocupados que não conhecem os contornos ou nuances dessa decisão e das suas consequentes implicações”. 
Porém, teve também que lidar com algumas opiniões de pessoas mais próximas que na altura consideraram esta uma “opção totalmente irrealista e impraticável”, mas que deve ser respeitada e vista como a opção de quem decide “dedicar o seu tempo à vida artística”, diz o jovem músico.
Os últimos meses foram, para Filipe Furtado, marcados por um regresso temporário à ilha de São Miguel, onde se encontra actualmente a trabalhar remotamente para a agência de marketing digital que representa, algo que no seu entender “sabe maravilhosamente bem”, uma vez que antes deste regresso já se encontrava longe da ilha há algum tempo.
Em retrospectiva, adianta, estes últimos meses de pandemia foram “incrivelmente árduos”, tendo em conta que a par da actividade musical, trabalhar a partir de casa naquele que é o seu trabalho regular chega a ser “extremamente cansativo”, salientando que apesar de tudo parece agora que o tempo tem passado “bem rápido”.
No entanto, tendo em conta que se vai dividindo entre a música e o seu emprego, descreve que no seu mundo perfeito “seria um músico suficientemente conhecido, com uma óptima agenda de concertos e sem outro género de ocupação profissional”, o que lhe permitiria ter flexibilidade para passar “largas temporadas nos Açores a compor, a criar projectos e, também, a aproveitar este paraíso com família e amigos”.
Por outro lado, apesar do “cenário idílico” que lhe proporciona o facto de ser açoriano, considera que não existem ainda condições no arquipélago para que a profissão de músico seja verdadeiramente valorizada, salientando que nos Açores há ainda “muitas limitações” que fazem com que um regresso definitivo “a casa” não seja possível por enquanto.

Que sonhos alimentou em criança?
Muita coisa, mas já lá estava a vontade de um dia ser músico.

O que mais o incomoda nos outros? E o que mais admira?
Não me chateio com muita coisa em geral, mas irritam-me profundamente todos os fascistas e racistas que andam por aí. Já nas coisas que admiro nos outros são precisamente a capacidade de aprendermos colectivamente uns com os outros, a empatia, a curiosidade em geral.

Que coisas gostaria de fazer antes de morrer?
Ter tempo para ler milhares de livros.

Diga o nome de um livro de eleição.
Qualquer um de José Saramago. É difícil escolher.

Como se relaciona com a informação que inunda as redes sociais?
Quanto baste. Já passo muitas horas nas redes sociais em contexto profissional. Quando quero ler notícias, compro o jornal. 

Conseguia viver hoje sem telemóvel e internet?
Penso que sim. Tenho sempre esse desejo de ir passar uma temporada no campo, sem qualquer distracção, só a ler, ouvir música e a compor.

Gosta de viajar? Que viagem mais gostou de fazer?
Não tenho tido muito tempo para viajar, mas vou mencionar a minha estadia em Toronto, quando tinha 16 anos. Fui visitar o meu melhor amigo de infância. Era tempos maravilhosos e despreocupados. E a neve também ajuda.  

Quais os seus gostos gastronómicos?
Como de tudo, não sou esquisito. Tinha muitas saudades da comida da minha mãe e da minha avó. Ultimamente, como divido apartamento com um amigo da Índia, provo maravilhosas iguarias culinárias todas as semanas.

Que notícia gostaria de encontrar amanhã no jornal?
Que a pandemia terminou.

Qual a máxima que o/a inspira?
Trabalhar pelos nossos sonhos e objectivos. 

Em que época histórica gostaria de ter vivido? Porquê?
Acho que estou bem neste período temporal. Nunca sonhei com outros tempos históricos.
               

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