Empresário denuncia “falta de acção” das entidades competentes

Agências de viagens obrigadas a descarregar turistas e bagagens nos parques de estacionamento do aeroporto

Foi com surpresa e com desagrado que Evaristo Melo se apercebeu de algumas das mais recentes alterações de trânsito no exterior do Aeroporto João Paulo II, que impedem agora que as agências de viagens estacionem as suas viaturas perto da porta das partidas.
Em vez disso, as viaturas destas empresas ligadas ao sector do turismo, conforme relatou o sócio-gerente da agência de viagens Triângulo de Fogo, têm sido obrigadas a parar as suas carrinhas em pleno parque de estacionamento, obrigando a que os turistas façam toda a travessia até à porta das partidas a pé, carregados com toda a sua bagagem, incluindo nos dias de chuva.
De acordo com o empresário, este é um cenário que dura há perto de uma semana e que, para além de marcar a opinião que os passageiros podem criar do arquipélago e da forma de receber dos açorianos, potencia também o crescimento do sentimento de concorrência desleal, tendo em conta que, adianta, há táxis que estão associados a empresas de animação turística e que ali estacionam sem problemas.
Num primeiro momento, assim que se deparou com esta situação, Evaristo Melo conta que optou por contactar em primeiro lugar a ATA (Associação de Turismo dos Açores), no sentido de perceber se havia conhecimento destas alterações e do que poderia ser feito, não obtendo no entanto uma resposta favorável.
“Primeiramente, como sou associado da ATA, quando fui ao aeroporto e me deparei com esta situação, a primeira coisa que fiz foi ligar para o gabinete do associado onde me disseram que não tinham qualquer informação sobre essa mudança, e que a ATA, a associação que promove o turismo nos Açores, não tinha sido informada nem pelo Governo, nem pelo aeroporto”, diz o sócio-gerente da agência de viagens.
Contudo, apesar de – ao que tudo indica – a ATA não ter conhecimento destas alterações, Evaristo Melo considera que esta é uma associação que “deve ter do total interesse que quem visite os Açores saia com uma boa imagem, que seja fidelizado ao nosso mercado, às nossas ilhas e que volte cá”, reforça, não entendendo por isso “de que forma pode contribuir para isso deixarmos as pessoas abandonadas no aeroporto, no parque de estacionamento”.
Questionado se este é um problema que está a afectar os demais colegas de profissão, o sócio-gerente que denunciou esta situação ao “Correio dos Açores” admite que não colocou esta questão a mais ninguém, uma vez que entende que contactou “o organismo que reúne todas as pessoas associadas ao sector do turismo”, independentemente do sector, e que por esse motivo “ao saberem de uma coisa destas, deveriam ter o impulso de querer saber exactamente o que se está a passar”.
Não satisfeito, depois da colocação de um sinal de trânsito no Aeroporto João Paulo II que impede que as viaturas de empresas como a sua estacionem perto da zona das partidas, este empresário terá ainda recorrido a uma reunião com o director do aeroporto.
“Fui falar com o director do aeroporto, que me recebeu muito bem, e o que me disse foi que da parte do Governo tem havido a ocupação de várias áreas (…) e que o espaço do aeroporto tem sido um bocado delapidado devido aos testes da Covid-19.
Isto é, havia uma tenda montada, da tenda passámos a ter uns contentores e esse espaço ocupa uma área de parqueamento que era dos táxis e das viaturas que se deslocam ao aeroporto para ir levar ou buscar passageiros.
Então o parente pobre do turismo nos Açores passou a ser as agências de viagens, que deixaram de ter a possibilidade de levar condignamente as pessoas ao aeroporto”, diz Evaristo Melo, tendo também o “Correio dos Açores” contactado o Director do Aeroporto João Paulo II, não tendo no entanto obtido resposta até ao fecho desta edição.
Tendo em conta estas respostas pouco conclusivas que o empresário adianta ter recebido, entrou em seguida em contacto com o Governo Regional, com o objectivo de que o assunto chegasse até ao conhecimento de Vasco Cordeiro.
Foi então redireccionado para a Direcção Regional do Turismo e para a Direcção Regional dos Transportes, constatando-se que este será um problema que está “fora da alçada” regional, e que seria, portanto, um assunto a resolver com o Governo da República.
“A Directora Regional do Turismo disse-me que tinha tido conhecimento desta situação naquele próprio dia porque tinha ido para o Faial, mas acho que já que estamos a investir milhões de euros no turismo e a dizer em várias entrevistas que recebemos bem as pessoas, vamos servir as pessoas desta forma?
Isto tem passado uma imagem péssima. Ainda recentemente, às 07h30 da manhã fui deixar uma família de norte-americanos que se foi embora e que ficou à chuva com as malas e com uma criança de quatro ou cinco anos”, reforça Evaristo Melo.
Em acréscimo, também a situação por que passam as agências de viagens quando se dirigem para o aeroporto para recolher turistas é problemática, uma vez que também nessa circunstância têm que pagar para usufruir do parque de estacionamento enquanto esperam pelos clientes, o que devido à situação actual demora mais tempo do que antes.
“Nas chegadas o que se passa é pior. É uma decisão que está tomada há muito tempo. Nós pagamos para ir buscar as pessoas e enquanto os táxis – sendo que alguns operam como animação turística – estão lá estacionados sem pagar, cada vez que nós lá vamos estamos lá a pagar o parque durante uma hora, duas ou mais, e pior agora depois dos testes à Covid e do que tem que ser feito para verificar se as pessoas têm os testes ou não. (…) Não bastava à chegada, agora também temos isto nas partidas”.
Tendo todos estes cenários em conta, o sócio-gerente da agência de Viagens Triângulo de Fogo afirma não entender “nem o desconhecimento da parte do Governo, nem a falta de interesse em ser uma parte desta solução”, encontrando-se de momento à espera do parecer da Autoridade Nacional para a Concorrência e estando disposto a ir mais além até ver este problema resolvido de uma forma mais equalitária, permitindo assim que as agências de viagens “deixem as pessoas no aeroporto de forma condigna”.
No seu negócio, de uma forma geral, Evaristo Melo adianta que se encontra a ter quebras entre os 80% e os 90%, mas que não é apenas o sector do turismo que perde com esta nova crise.
“Conseguimos passar alguns grupos que íamos receber em Maio e Abril para finais de Setembro e Outubro, mas na expectativa de que nada feche. Mas, como se sabe, o continente português tem sofrido bastante, o número de casos tem vindo a aumentar e dependemos sempre do mercado exterior, e o que dá um ‘boost’ à nossa economia é recebermos pessoas de fora”, conclui.

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