23 de setembro de 2020

Juvenal Garcês: O seu grande sonho era ter um pequeno teatro na Madeira

Ele sabia quanto era importante
para a formação dos jovens a existência
de um pequeno teatro na Madeira, por isso
nunca deixou de sonhar.

Morre aos 59 anos com um olhar preso
na linha do horizonte que da sua casa,
na Ribeira Brava, contemplava todas as manhãs. 
Ali deixou o seu testamento de ator
e os segredos que nunca contou. 

Experimento agora a sensação de tê-lo sentado, à minha frente, no meu gabinete de trabalho; de ouvir a sua voz e o seu sorriso que lhe iluminava o rosto, que ganhava, por vezes, expressões diferentes, bem delineadas, adquiridas nos muitos anos de representação. Tratava-me sempre por você enquanto eu, sendo muito mais velho, dava-lhe o tratamento de tu. Os nossos encontros eram sempre agradáveis e divertidos. Por vezes caricaturávamos os nossos conhecidos. Fazíamos sempre com simpatia. Outras vezes lamentávamos os preconceitos de algumas pessoas, com responsabilidades, que com as suas formas de pensar fomentavam o atraso da sociedade madeirense. Falávamos do teatro, a sua maior paixão. Da grande importância que este tinha na formação da juventude. A necessidade de termos um pequeno espaço onde se pudesse apresentar espetáculos todos os dias. Um espaço livre das burocracias e das programações malcuidadas. Eram longas as minhas conversas com o Juvenal Garcês. Conhecia-o era ele ainda muito jovem. Frequentava o café do Teatro. Fazia parte do grupo de atores do Teatro Experimental do Funchal. Em 1980 estreia-se na peça Baal, de Bertott Brecht, encenada por João Lourenço. Aí demonstra já a sua vocação para o teatro, que viria a ser todo o seu percurso de vida. Uma carreira cheia de emoções, um percurso de lutas, de incompreensões e sucessos, vivida intensamente. Lutou sempre pelo teatro. Deixou o Funchal e rumou a Lisboa. Sempre que vinha à Madeira procurava-me. Tentei muitas vezes que realizasse o seu grande sonho: um pequeno espaço onde houvesse teatro permanentemente. Não necessitava de uma construção especial. Bastava um pavilhão ou uma garagem que facilmente se adaptaria para a realização de espetáculos. O mais importante era acontecer teatro, para que os jovens se entusiasmassem. Começamos a procurar locais. Encontramos alguns, mas a falta de meios financeiros fazia-nos desistir. Porém nele o sonho permanecia sempre. Uma ocasião falei-lhe de uma iniciativa inédita no país, na Europa, a apresentação do Auto de Gil Vicente “Todo o Mundo e Ninguém”, a bordo no “Lobo Marinho”, nas garagens transformadas em sala de espetáculos. Um acontecimento coroado de muito êxito. À medida que lhe explicava como tudo acontecera os seus olhos brilhavam e o seu entusiasmo era mais intenso. Vivia palavra por palavra com grande curiosidade:
- E o público como reagiu?
- O melhor possível. Obrigou-nos a fazermos mais espetáculos. Felizmente que o Armador, Dr. Luís Miguel de Sousa, com o seu espírito eclético apoiou a ideia desde o início. Deu todas as facilidades.

Até 1990 Juvenal Garcês foi ator em vários espetáculos, com destaque para três encenações de Xosé Blanco Gil: “Cardel”, “El Día Que Me Quieras”, “A Celestina”, “Que Saltinhos me dá o Coração” com textos de AntonTchekov. Foi dirigido por Filipe La Féria na Casa da Comédia, na “Marquesa de Sade”, de yukioMishima, e “Electra” de Margarite Yourceman. Mais tarde voltou a representar AntonTchekov, sob a direção de Mário Viegas no espetáculo “Deus os fez, Deus os juntou”. Dirigido por Carlos Avilez entrou na peça Jedermann, de Hugo VonHofmannsthal. Depois de ter protagonizado a comédia itinerante “O Regresso de Bucha e Estica” associou-se ao ator e encenador Mário Viegas para fundar, em 1990, a Companhia Teatral do Chiado.
Como ator destaca-se o seu grande talento e profissionalismo nas variadíssimas interpretações feitas no decurso da sua carreira: “A Birra do Morto”, “Nápoles Milionária”, “A Arte da Comédia” e “à espera de Godot”.
Em 1996 morre Mário Viegas e Juvenal Garcês assumiu a direção artística da Companhia Teatral do Chiado, passando a ser o seu encenador principal. Nestas funções revela grande sensibilidade e poder de interpretação, com preocupações de qualidade. Peças que fizessem pensar, educando o público. Pôs em cena uma série de peças entre elas “As Obras Completas de William Shakespeare em 97 minutos”, um êxito de público que permaneceu em cena desde 1996. Em 2009, adaptou e encenou “A Dama de Copase orei Cuba”, do dramaturgo brasileiro Wehbi. Em 2010 prestou uma homenagem a Mário Viegas com o espetáculo “Amor com Amor se paga (Um Acto Teatral para Mário Viegas)”.
Com a extinção da Companhia Teatral do Chiado o ator e encenador Juvenal Garcês, volta à sua terra natal. Exila-se praticamente na sua Ribeira Brava, onde todos os dias contemplava o mar e depositava na linha do horizonte os seus sonhos. Ali viajava no tempo e reconstruia a sua carreira de ator e de encenador. Mergulhado num mar de saudades...
A extinção da sua companhia de teatro deixou-o profundamente amargurado e, durante anos, lutou contra ventos e marés para mantê-la em pé. O teatro sempre foi tudo para o Juvenal Garcês. A ele se dedicou de alma e coração. Cada minuto da sua vida foi preenchido com interpretações, encenações de peças que o enriqueceram e humanizaram-no. Era um conversador admirável. Morreu inesperadamente aos 59 anos, quando sonhava ainda em apresentar no Centro Cultural de Belém a peça “Corações em Festa”. Morreu sem realizar o seu grande sonho de criar uma escola de teatro na Madeira, de ter um pequeno espaço onde permanentemente se apresentassem espetáculos. Muitas vezes interrogava-se que sendo a Madeira uma região autónoma porque não havia espetáculos teatrais.
Referindo-se ao país lamentava-se de que a cultura, fosse sempre secundarizada. Fosse uma cultura de compadrios e não aquela que educasse o povo, tornando-o mais enriquecido, dando-lhes outras perspetivas de vida e uma visão mais esclarecida sobre as coisas.
A sua morte deixa um vazio no teatro e um profundo pesar nos amigos.
 

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Categorias: Opinião

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