Barril d’América dá nova vida a peças de roupa enviadas por família de emigrantes açorianos

Depois de uma parte da família ter emigrado para os Estados Unidos da América e para o Canadá, a família de Lina Tavares Raposo, hoje com 32 anos de idade, começou a receber com alguma regularidade os chamados “barris d’América” que, no seu interior, continham roupas, tecidos, linhas e “candilhes”.
Para além de estes autênticos tesouros fazerem as delícias dos mais novos, consoante o que viesse no seu interior, esta era também uma forma de dar à família da advogada, sobretudo à mãe e à tia materna, ambas costureiras, matéria-prima com a qual pudessem trabalhar e com a qual pudessem também vestir a família.
Anos mais tarde, aproveitando todos os excedentes que se foram acumulando ao longo do tempo, Lina Tavares Raposo viria a desenvolver o seu próprio projecto, intitulado Barril d’América, cujo objectivo passa por vender algumas das peças que – apesar do tempo – se encontram em perfeitas condições.
Apesar de esta ser uma ideia que teve sempre presente, foi ao regressar de Bruxelas, depois de sete meses a viver naquela cidade europeia, corria o ano de 2016, que a advogada levou avante o conceito da loja Barril d’América, projecto que hoje desenvolve através da rede social Instagram.
Mesmo tendo a intenção de mostrar às pessoas que a roupa em segunda mão poderia ser encarada de forma diferente, a impulsionadora deste projecto adianta que foi a sua tia materna que, num primeiro momento, “achou mais graça” à ideia, uma vez que de início esta não foi uma ideia que agradou a mãe.
Então, inspirada pela cidade europeia onde existem muitas lojas de roupa em segunda mão, decidiu colocar a ideia do Barril d’América em prática, optando assim por falar com a empresária Catarina Ferreira para que, durante um fim-de-semana, no Andar de Cima, colocasse à venda as roupas que a sua família foi acumulando ao longo dos anos, vindas nos barris.
Num primeiro momento, recorda, ficou espantada com a quantidade de pessoas que ficaram interessadas no projecto, quer pelo seu conceito como pelas cores, pelos padrões das roupas, ou ainda pelas histórias de cada uma das peças de roupa.
Depois desta fase, salienta que algumas peças foram também colocadas à venda na loja La Bamba Bazar Store, a convite dos seus proprietários, sendo que actualmente é Rúben Monfort o responsável pela identidade do projecto, refere, que tem a sua própria página de Instagram.
Conforme conta, a ideia principal deste conceito era também a de “mostrar às pessoas algo que a minha mãe e a minha tia materna sempre nos disseram, não é preciso vestir roupa cara para vestir bem, qualquer peça que temos no armário e que já não usamos pode ser alterada, vendida em segunda mão ou trocada por outra de que gostamos mais”, explica.
No fundo, este projecto de Lina Tavares Raposo permite que outras pessoas consigam dar uma nova vida a uma peça de roupa com vários anos de existência, abrindo caminho para que seja possível reciclar peças de roupa, como sempre fez.
“No fundo é algo que sempre fiz, reciclar roupa. Acho que se todos tentarmos olhar para a nossa roupa e para o que consumimos de maneira diferente conseguimos que a indústria da moda e o mundo mude em consequência. Fico feliz se conseguir inspirar pelo menos uma pessoa”, diz ainda a advogada, a quem são ainda claras as memórias dos seus tempos de infância,  quando era comum fazerem-se passeios de família até ao porto de Ponta Delgada para recolher os volumosos barris que faziam as delícias de toda a família, uma vez que colmatavam também algumas das dificuldades que as famílias açorianas poderiam ter ao longo do ano.
“Tenho muito presente as idas ao Porto de Ponta Delgada, onde antigamente existia um armazém onde colocavam os barris para as famílias que os recebiam irem lá levantar. Lembro-me perfeitamente da alegria que era ir com as minhas irmãs e os meus primos, do lado materno, procurar o nosso “barril”, relembra, salientando que a felicidade maior era encontrar e comer “os chamados “candilhes” e ir para dentro do barril quando estava a chegar ao fim para tirar a roupa e os tecidos”.
Assim, depois de cada uma das viagens ao porto, descreve que “cada um escolhia o que gostava”, deixando para o fim aquilo que poderia ser guardado para um dia mais tarde ou aquilo que poderia vir a ser doado.
Com o passar dos anos, uma vez que as roupas não eram o que mais atraia as crianças para os barris, a advogada refere que foi “gostando cada vez mais de vasculhar a roupa do barril”, com o intuito de ver o que ainda poderia ser utilizado e o que poderia ser alterado com a ajuda da mãe, a costureira da família.
Na universidade, sobretudo, chegou a utilizar várias das peças alteradas pela mãe, uma vez que sempre que ia a casa “ia ver as roupas do barril e levava sempre qualquer coisa “nova” no regresso”, relembra, algo que chamava a atenção das amigas que perguntavam sempre onde tinha comprado as “novas peças”, respondendo sempre que tinha ido “ao Barril d’América”.
 

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