Projecto de requalificação do Mercado da Graça

Durante dez meses o mercado municipal vai passar para o parque de estacionamento contíguo

É uma obra que já vem sendo reivindicada há algum tempo, principalmente pelos comerciantes, e que agora já tem projecto para avançar, tudo leva a crer, no final do primeiro trimestre do próximo ano. A requalificação do Mercado da Graça vai custar cerca de 1,4 milhões de euros e terá um prazo de execução de 10 meses. 
A principal mudança tem a ver com a cobertura que, por ser uma estrutura semi-aberta, deixa entrar chuva e vento no espaço de venda e circulação dos clientes. Este foi o principal ponto a ter em atenção pela Câmara Municipal de Ponta Delgada quando começou a delinear o projecto, em 2018, e ouviu comerciantes, clientes e não clientes. “A solução semi-aberta já tem mais de 20 anos, foi uma obra muito significativa na década de 90, e serviu muito bem o propósito da requalificação que se pretendeu na altura”, começa por explicar a vereadora Alexandra Viveiros, responsável pelo mercado municipal. Mas os tempos mudaram e as pessoas querem, sobretudo, conforto para realizar as suas compras. E apesar de reconhecerem a qualidade e frescura dos produtos ali comercializados “acabam por optar por outros locais, por uma questão de conforto”. É esse entrave que a Câmara Municipal de Ponta Delgada quer ultrapassar para que “as pessoas que retomaram o gosto de ir ao mercado o façam nas melhores condições, que todos se sintam bem. Por isso vamos passar de uma fase com cobertura semi-aberta, para uma cobertura maior na zona central do mercado. Será uma mais-valia, a vários níveis, até de vivência social e de atracção turística”, tornando o Mercado da Graça não apenas local de comércio, mas também de lazer e de visita. 
Alexandra Viveiros indica que esse também foi o mote para esta requalificação, sendo o mercado municipal um dos principais pontos de atracção turística do centro da cidade e “é interessante que o visitante perceba melhor o espaço”, para isso foi também criada uma nova imagem do Mercado da Graça “indo buscar a própria história do mercado, que é ainda desconhecida ou talvez esteja esquecida”. Por isso a intervenção vai evidenciar a história do espaço, do antigo Convento de Nossa Senhora da Graça, “não o descontextualizando e agarrando a sua existência anterior”. Conceptualmente, o espaço interior “foi pensado com esta bagagem cultural e histórica que já tem. Vamos tentar evidenciar um pouco isso no espaço, modernizá-lo sem perder a sua existência”.

Modernidade para quem compra

Essa modernização também se vai estender aos comerciantes e aos clientes do Mercado da Graça. Neste sentido, o interior do mercado vai ser reorganizado para maior comodidade não só para quem compra mas também para quem vende. “Não queremos transformar o mercado naquilo que ele não é. Pretendemos tornar o momento da compra também agradável e para isso constatamos que há espaço para uma melhoria significativa, quer ao nível dos expositores, quer do zonamento do espaço”, explica a vereadora. Para isso vão ser criados corredores comerciais “que actualmente são um pouco confusos, procurando que os produtos, a sua apresentação e todo o material sejam mais qualificados e atraentes”. Tudo para tornar a tarefa de compra e venda mais aprazível mas também mais funcional.
Esse era um “ponto consensual” entre os comerciantes, que foram ouvidos antes de se avançar com o projecto de requalificação. “O que foi consensual é que o mercado não tinha todas as condições que os comerciantes desejavam que tivesse. Sobretudo ao nível das condições térmicas e de conforto”, acrescenta a vereadora que refere que os clientes e não clientes foram ouvidos para perceber o que devia ser melhorado. “Ficámos munidos de um conjunto de informações indo ao encontro de todas as necessidades e solicitações, e sugestões que fomos recolhendo”, acrescenta Alexandra Viveiros, indicando que agora o projecto também vai estar em exposição no próprio Mercado para receber contributos da população em geral. 
Depois desta fase, em que ainda podem ser corrigidos alguns pormenores do projecto de acordo com sugestões da população, segue-se a elaboração do caderno de encargos e o concurso público internacional, que deverá estar concluído no final do primeiro trimestre do próximo ano, avançando-se depois para as obras. 
Entretanto, quando as obras avançarem, “e porque não queremos que o mercado deixe de funcionar, isso não é sequer equacionável”, a Câmara Municipal de Ponta Delgada já encontrou uma solução alternativa. 
O parque de estacionamento das antigas instalações da RTP-Açores, contíguo ao Mercado da Graça e que é propriedade da autarquia, vai servir para albergar o essencial do mercado. “Adquirimos uma tenda de grandes dimensões que será ali montada”, e durante os 10 meses em que vão decorrer previsivelmente as obras será ali que comerciantes e clientes farão as suas trocas comerciais. “Com alguns constrangimentos necessários, e que não há forma de ultrapassar, mas que serão minimizados ao máximo”, garante a vereadora Alexandra Viveiros.
De acordo com o projecto, foram identificados vários pontos a requalificar, nomeadamente a cobertura que já foi por algumas vezes intervencionada mas que continuar a deixar que chova dentro do mercado. A cobertura, com pouca capacidade térmica, identifica o projecto, torna o espaço muito frio de Inverno e muito quente no Verão. 
Além da cobertura, também a fachada principal do Mercado é “demasiado aberta/permeável, sem protecção”, deixando vendedores e clientes sujeitos às condições atmosféricas e ambientais exteriores, como a passagem de carros na vida.
O projecto para a requalificação do Mercado da Graça, assinala ainda que as bancadas de venda e expositores amovíveis não são individualizadas nem têm espaço comercial associado, sendo que as bancadas e expositores não podem ser fechados e estão desactualizados, e porque não têm iluminação individual “induz muitas vezes o cliente em erro e tenta efectuar o pagamento em outros vendedores”.
Esse facto agrava-se pelo facto de não haver delimitação espacial de cada espaço, não havendo separação clara entre espaços comerciais, nem entre eles e as zonas de circulação dos utilizadores, “com prejuízos evidentes para vendedores e compradores e para a aprazibilidade comercial do Mercado”.
O projecto identifica ainda como equipamentos a requalificar as instalações eléctricas obsoletas; a insuficiente existência de pontos de água; e também a insuficiente sinalética informativa e comercial no interior do Mercado.

As soluções

Perante os problemas apresentados, o projecto de requalificação do Mercado da Graça que está patente no próprio espaço e espera contribuições dos utentes, vai implicar a demolição de toda a cobertura existente a construção de uma nova cobertura, com respectiva estrutura metálica de suporte a quem foi dada “especial atenção na sua concepção arquitectónica por forma a assegurar um perfeito enquadramento com a pré existência, ao nível arquitectónico e histórico, sem esquecer toda a envolvente”. 
A nova cobertura, em painel sandwich com acabamento exterior tipo telha regional e lacado branco no interior, será assente em estruturas metálicas, sendo que sobre a alameda central do mercado a cobertura será translúcida, permitindo maior luminosidade. Os pilares metálicos existentes no interior do Mercado vão manter-se, excepto a linha de pilares na alameda central do mercado que vão ser eliminados, uma vez que aquela passa a ser uma zona de acessos e distribuição de pessoas a toda a área comercial “ficando mais liberta e sendo um eixo referencial de circulação”.
Também as fachadas vão ser requalificadas, com nova volumetria e com “melhores condições estéticas, térmicas, acústicas, e de impermeabilidade”, pode ler-se no projecto. 
A fachada principal, a Norte, vai ser alvo de “especial cuidado” e por isso vai ser “recuada” face ao alinhamento do muro que separa aquele espaço comercial da rua e da vedação actual. Para isso será introduzida uma pala horizontal de grande expressão até à altura máxima da nova fachada principal, “reduzindo eventuais impactos visuais na zona, bem como reduzir a entrada de água da chuva no interior da área comercial”. A pala terá um cumprimento de 55 metros e 13 metros de largura, com revestimento a painéis de “Viroc” (compósito constituído por uma mistura de partículas de madeira e cimento) na sua cor natural. Acima haverá uma grelha, em reguado de madeira de criptomérica tratada entre a pala e a cobertura, que servirá para ventilação natural, reforçada pelas asnas metálicas de suporte da cobertura. As fachadas nascente e poente, vão ser alinhadas pelos actuais alpendres existentes (nomeadamente na zona dos talhos, das lojas de artesanato e dos silos de batata), e serão revestidas a painéis tipo sandwich de chapa com isolamento térmico e acústico, onde estão previstos vãos de iluminação e ventilação naturais.
Com esta intervenção no Mercado da Graça continua a ser necessário assegurar que o vento e chuva não entrem no local de circulação, principalmente na fachada principal já que esta vai continuar aberta até à referida pala. Para isso o projecto prevê que sejam colocados vãos envidraçados para iluminação e ventilação natural nas fachadas nascente e poente, debaixo da referida pala e num alinhamento entre o actual muro e a vedação do mercado e a primeira linha de pilares metálicos. 
Quanto à rede de drenagem de águas pluviais, vai ser actualizada tendo em conta agora a área impermeabilizada da nova cobertura. 
Também a rede eléctrica existente, em particular de iluminação, vai ser requalificada com novas luminárias ambiental e energeticamente mais eficientes.

Conferir modernidade

Além das alterações à estrutura do mercado, este projecto de requalificação do Mercado da Graça também pretende dar-lhe um toque de modernidade e de atractividade, criando uma identidade visual do espaço. Como o mercado é cada vez mais um ponto de atracção turística, ao nível da imagem, a inspiração recaiu sobre a História daquele espaço que antes era pertença do Convento de Nossa Senhora da Graça. 
E é essa nova imagem, com a recriação de uma das portas de entrada da Igreja de Nossa Senhora da Graça, que passa a ser a imagem de marca do Mercado inspirada em elementos da ilha, nomeadamente o azul do mar, as flores e a cerâmica, e o preto da pedra vulcânica.
Com esta nova imagem vai ser possível delinear uma estratégia de marketing e de promoção de vendas, sendo possível utilizá-las em todos os materiais a usar pelos comerciantes e até criar novos materiais promocionais como por exemplo sacos reutilizáveis, com pequenas curiosidades sobre o Convento ou até dedicados aos produtos locais.               

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Autor: Carla Dias

Categorias: Regional

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