Depois de quebras na pandemia Queijaria das Flores recuperou durante o período de Verão

Conte-nos a história da Queijaria Pico Redondo. Como e por que razão foi criada?
Resolvemos em 2005, fazer obras, realizar um projecto e abrir a queijaria. Em Janeiro de 2006 abrimos as portas. Já fazia queijo antes, mas fazia aquele tipo barra para os amigos. Depois foi preciso começar a cumprir regras, com o leite pasteurizado. Como gostava de fazer o queijo e em vez de fechar, resolvemos ir para a frente. O Governo e a Câmara Municipal ajudaram muito na parte da construção. A autarquia ofereceu o projecto e depois o Governo deu uma parte e fomos para a frente.  
 
Quantas pessoas trabalham agora na queijaria?
Trabalho eu e uma funcionária.

A nível de produção, qual a capacidade de leite que conseguem trabalhar?
Nesta altura estamos com 230 litros. Às vezes vai até 260 ou 270 litros. Quando chega aquela época mais no fim do Inverno, caí para cerca de 190 litros. Este leite é apenas da minha produção e não tenho fornecedores. Por vezes, no Inverno, já cheguei a comprar à fábrica, mas só mesmo para aguentar os clientes.

Traduzindo esses litros de leite em queijo, quantos consegue produzir por dia?
Dos 230 litros, faço em queijo curado cerca de 28 por dia. Faço 20 queijos de 800 gramas e o resto de 1 quilo e 200 gramas. Não o faço todos os dias porque também temos o queijo fresco, aqui para os clientes da ilha. Esse tipo de queijo é distribuído duas vezes por semana, sendo que em cada distribuição levo uma média de 80 queijos. Vendemos também o queijo fresco aqui na nossa fábrica. A nível de queijo fresco fabrico cerca de 200 queijos por semana. 

Quais são os principais mercados do seu queijo curado?
Na altura da Covid não conseguimos exportar o queijo e fiquei com muita quantidade armazenada na câmara frigorífica. Só o pessoal da ilha é que o comprava e não dava rendimento para tudo. Até cheguei a oferecer caixas pelos centros de saúde, bombeiros e PSP. Reabrimos a queijaria em Julho e a partir daí comecei de novo a vender. Neste Verão têm estado muitos turistas cá e fiquei com muito pouco queijo em stock. Só a partir de Julho é que comecei a mandar para a Graciosa, São Jorge, Faial e Pico, sítios para onde nunca tinha mandado antes. Envio também para a Terceira e para São Miguel, para o Rei dos Queijos e Príncipe dos Queijos. 

O seu grande mercado é aqui na região. Não exporta para fora dos Açores?
Nunca mandei apesar de já ter tido hipótese disso. Não consigo. De vez em quando mando para os Estados Unidos da América por intermédio de um senhor de São Miguel. Não é muita quantidade e por exemplo no mês de Julho, enviei 10 caixas e só vou voltar a exportar no próximo mês. 

No período da pandemia de quanto foram as suas quebras?
Estive sempre a produzir normalmente, mas depois chegou a uma altura em que já não tinha onde armazená-lo. Dava muito trabalho aguentá-lo na câmara frigorífica e era preciso lavá-lo muitas vezes. No mês de Junho, falei com o presidente da fábrica de lacticínios e optei por vender o leite da manhã a eles. Perdi um bocado de negócio, porque até fui obrigada a vender o queijo em promoção. Fui a sítios onde não era habitual ir, aqui na outra parte da ilha, a Ponta Delgada, levar queijos a clientes a quem vendi mais barato do que antes.

Nessa época ficou apenas com clientes das Flores?
Sim, nesse período foram apenas os clientes das Flores. Não conseguia exportar porque quem me comprava os queijos nas outras ilhas dos Açores, também não o podia vender. 

O grande entrave para a exportação são os transportes?
Exporto o queijo por avião porque se fosse de barco não conseguia. Mas pelo avião pago muito pelo transporte, apesar de ter um subsídio a que tenho direito e onde recebo apoio de uma grande parte. Já é uma boa ajuda, mas dá muito trabalho. Tem muita burocracia, facturas, recibos, cartas de transporte e tem de ser tudo carregado num programa. 

A nível de apoios, considera que as queijarias estão a ser devidamente apoiadas, em especial a sua?
Penso que através das candidaturas que fazemos dão-nos uma ajuda, mas penso que em sítios pequenos, como este, os apoios deveriam ser sempre superiores e as coisas serem mais facilitadas. Para pedir um apoio é preciso mexer com muito papel. Tive aqui coisas paradas em que perdi dinheiro, porque não se conseguia resolver tudo dentro do prazo. Éramos apoiados se tivéssemos quebras de 40% mas no meu caso foram 30% e já não tinha direito. Penso que o Governo devia incentivar e dar mais oportunidades aos jovens do que dá agora. 

Tem algum projecto pensado para o futuro aí na sua queijaria?
Não tenho. Só tenho o meu leite e não dá para fazer muito mais. Tenho pessoas que me incentivam a fazer, por exemplo, o queijo de alho e salsa mas isso não me compensa. Precisava de mais leite, mas como as Flores são uma ilha tão pequena, se o tivesse tinha de tirar leite ao produtor da fábrica e custa-me fazer isso porque a própria fábrica também não tem muito. Há dois anos atrás fiz um anexo e comprei uma câmara frigorífica e, por agora, serve para a produção que tenho.                      

Luís Lobão

Print
Autor: CA

Categorias: Regional

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima