26 de setembro de 2020

Como se deve jogar a extremo no futebol

Cheguei ao Santa Clara com 15 anos, vindo do Liceu Antero de Quental, onde me habituara a fintar e a entrar com a bola pela baliza adentro e onde não havia posições definidas no campo; cada um jogava onde lhe apetecia e a táctica a isso se resumia.
O Santa Clara era campeão de juniores de S. Miguel e era difícil entrar um novato na equipa. Henrique Ben-David colocou-me em campo no meu primeiro jogo contra o Oliveirenses e marquei logo dois golos de rajada; a seguir veio o Micaelense e marquei-lhes à minha conta cinco golos. Acontece que Ben-David se debatia com um problema sério na equipa principal sénior, a saber:
Fernando Costa Pedro tinha sido mobilizado para ir para o Ultramar cumprir serviço militar e ele era o avançado de centro e principal goleador da equipa.
Sem soluções para o substituir, Ben-David resolve promover-me à equipa principal e pôs-me a jogar a avançado de centro, de modo que passei a jogar ao sábado nos juniores, e ao domingo na primeira categoria. Claro que eu medindo metro e sessenta e seis de altura e jogando quase sempre de costas para a baliza, com as bolas vindas pelo ar, experimentei serias dificuldades em adaptar-me aquela posição. Safei-me, todavia, porque, sendo muito rápido, antecipava-me aos defesas no jogo rasteiro e com rápidas rotações alvejava a baliza adversária, muitas vezes com êxito.
Do meio-campo para a frente jogava em qualquer posição.
Quando o Costa Pedro voltou são e salvo da guerra colonial, retomou o seu lugar no centro do ataque e Ben-David encostou-me à linha, como extremo-esquerdo.
Acho que fez bem, porque me parece ser a posição que melhor se adapta as minhas características futebolísticas naturais.
Um extremo como deve ser tem de reunir as seguintes características:
Velocidade: um extremo lento é um facto contra natura. Tem de ter bom controle de bola em velocidade. Tem de saber centrar com conta peso e medida. Tem de levantar a cabeça antes de efectuar os cruzamentos. Tem de ser imprevisivel: isso só se consegue se for capaz tanto de ir a linha como de fletir para dentro e rematar de surpresa.
Só pode recuar até ao meio campo, senão vai colidir com as tarefas defensivas que competem ao lateral do seu lado. Quando a defesa contrária joga com cinco defesas ou mais, tem que baixar no terreno e não deixar-se ficar parado na frente de ataque, à espera de ser servido pelos colegas; nesse caso tem que apostar mais na posse e troca de bola com os seus médios, a fim de abrir brecha na muralha defensiva adversária, ou seja, recua temporariamente para poder depois arrancar de repente para o espaço aberto na defesa contrária.
Claro que tudo isso só é possível se o extremo tiver bons médios atrás dele; sem bons médios, isto é, jogadores com boa leitura do jogo e com capacidade de passa a longa distância, o extremo morre à míngua, à espera que a bola lhe chegue.
O que eu acabo de escrever é muito mais fácil de escrever do que fazer, mas falo com o saber da experiência de trinta anos no futebol a jogar na posição de extremo-esquerdo.
Depois duas épocas a jogar ao sábado nos juniores, e aos domingos nas primeiras, fui para Coimbra estudar Direito, ainda com idade de júnior, mas com o desejo de ingressar na Académica de Coimbra.
Em parte, a sorte esteve do meu lado, pois o meu colega de liceu, Mamede Cruz, conseguiu arranjar-me aposentos na Rua da Saragoça, número dois, onde estavam hospedados vários jogadores da Académica, como o Hélder, o Serrano, o Festas, etc.
Sabendo que eu jogava futebol nos Açores, falaram com os dirigentes da Académica e com o treinador dos juniores de então, o famoso ex-extremo direito Crispim, e levaram-me ao treino de terça-feira, onde jogavam os juniores contra os seniores. O meu amigo Carlos Alberto Maia da Silva Machado, da Ribeira Seca,  jurista e também dotado de bons dotes futebolísticos, foi assistir à  aventura no Estádio Municipal de Coimbra.
Durante longos minutos nem sequer toquei na bola, para além da dificuldade óbvia de não ter combinação com os colegas; a maioria deles optou pela via de queimar o debutante.
No futebol há muita coisa boa, mas associado a essas coisas há muita coisa ruim; existe uma coisa abominável que se denomina “queimar o jogador”.
Como é que isso se faz? Muito facilmente: não se lhe passa a bola quando estiver em boa posição para recebê-la; é claro sem bola, o avançado não pode mostrar as suas qualidades e não as podendo mostrar tudo se passa como se não tivesse as qualidades que eventualmente tenha.
Quem me valeu na altura foi o meu amigo, hoje médico, Serrano, então estudante de Medicina e defesa direito da Académica, que residia na mesma casa que eu e que falara aos dirigentes da Académica em mim, pois disse-me ao ouvido “recua um bocado no terreno, eu não vou marcar-te e quando apanhares a bola finta o que puderes, não passes mostra a tua habilidade com a bola nos pés.”
E assim foi: apanhei uma bola atrás da linha do meio-campo e arranquei por ali fora driblando todos os jogadores que me apareceram pela frente até rematar para uma grande defesa do guarda-redes Hélder.
No final do treino o treinador Crispim veio ter comigo e disse-me “açoriano, fizeste um túnel ao Vala. Estás aprovado, pede a tua carta de desvinculação ao Santa Clara que nós queremos que jogues connosco.”
Escrevi de Coimbra à Direcção do Clube Santa Clara, para me enviarem a carta de desvinculação; naquele tempo os clubes eram donos dos jogadores; foi preciso ser aprovada a Lei Bosman para que isso acabasse; hoje em dia, só através das cláusulas de rescisão inscritas nos seus contratos profissionais os clubes conseguem ter algum poder sobre os jogadores; fora disso o jogador é livre de jogar onde quiser.
Ora, no meu caso o Santa Clara não só não me enviou a carta de desvinculação, como nem sequer me respondeu, logo a mim, que tinha jogado sempre de graça no clube, que até para os treinos no Jácome Correia ia a pé, e que aos domingos para os jogos era meu pai que me levava no seu carro.
O Crispim vendo a demora disse-me logo “açoriano, eles querem que seja a Direcção da Académica a pedir a tua carta para exigirem dinheiro”.
A coisa resolveu-se por si porque, no entretanto, o Vasco Gonçalves vedou em 1975 o acesso à Universidade e sem matrícula na universidade na altura, não era possível, de acordo com os estatutos da Associação Académica de Coimbra, jogar na Académica.
Mas voltando aos extremos, hoje são chamados alas, destaco o inglês Stanley MattWes, o húngaro Ferenc Puskas, o inglês Kevin Keegan, e especialmente os portugueses Rogério Pippi (Rogério lentres de carvalho), Fernando Chalana e Paulo Futre, e um que a nova geração talvez nem tenha ouvido falar, de seu nome Antonio Bentes, que jogou sempre na Académica.
Bentes era do meu tamanho e depois do futebol foi professor primário, e foi para mim, a par de Rogerio Pippi, do Benfica, o melhor extremo esquerdo de sempre do futebol português.
Pela Académica passaram alguns dos maiores vultos de sempre do futebol português (Artur Jorge, Toni, Mario Campos, Vítor Campos, Rui Rodrigues, Gervásio, Manuel Antonio, Vala, Maló (o único guarda-redes a defender um penálti marcado pelo Eusébio). A maioria deles formaram-se em Medicina e Direito; Bentes foi professor primário.
O que é que Antonio Bentes tinha que os outros não tinham? A magia, a fantasia, a imaginação, a centelha do génio.
Era um repentista e deram-lhe a alcunha de “Rato Atómico”, porque Bentes tinha em grau máximo as tais características que eu atrás referi, que um extremo deve ter; a velocidade , o drible curto e sempre em progressão para a baliza, o remate portentoso e certeiro com o pé esquerdo, o partir se medo para cima do defesa, saindo do drible sempre com a bola colada aos pés.
Logo aqui está uma característica que não enumerei atrás, que é a imprevisibilidade; Bentes, como todos os grandes extremos, ponha a cabeça dos defesas em água porque ele nunca fazia duas vezes seguidas a mesma jogada durante um jogo; os adversários nunca sabiam se ele ia arrancar para a linha, se fletir para dentro e rematar, se ia driblar ou passar, enfim era a imprevisibilidade pura
O futebol não é um jogo de corrrerias; o futebol é um jogo de inteligência com ou sem bola.
Hoje vê-se jogadores que correm, correm e o resultado é zero; a bola é que corre, não o jogador; o jogador tem que correr, mas correr para o sítio que o jogo manda; o jogo em si é que dita se, quando e para onde o jogador deve correr; isso implica a chamada visão de jogo; mas o que é a visão?
É a inteligência em movimento; o jogador move-se dentro do campo pela inteligência.
Um extremo que está sempre em correrias loucas à meia-hora de jogo rebenta fisicamente.
Quando chequei ao Santa Clara, menino e moço,  a equipa jogava um futebol direto; o defesa apanhava a bola e chutava-a para a frente para os avançados correrem.
Ora o jogador português é tecnicista, e por isso a equipa tem de jogar de acordo com as suas características técnicas, habilidade, passe curto, remate e não força no pontapé longo e remate, e isto porque no pontapé para a frente a força ganha à técnica; no futebol apoiado a técnica ganha à força.
Quem a meu ver melhor interpretou esta filosofia do futebol que aqui preconizo foi o saudoso mestre Cândido de Oliveira, fundador do jornal A Bola e que foi treinador da Académica, e com a sua filosofia de futebol aplicada dava lições de futebol ao Benfica, ao Sporting e ao Porto, quando iam  a Coimbra jogar.
Uma coisa que me esqueci de dizer quanto ao modo de jogar do extremo é que ele não deve ficar o jogo todo amarrado à linha lateral, quando a sua equipa faz a agora chamada transição ofensiva, ou seja, quando ataca, o extremo abre, encosta mais a linha para dar mais largura ao jogo, largura ao jogo dá mais soluções de passe ao portador da bola.
Quando a equipa defende, o extremo recua e fecha por dentro, sabendo que tem o defesa lateral do seu lado a fechar por fora, pela ala, sendo um primeiro obstáculo ao contra golpe da equipa adversária. 
Foram muitos anos neste negócio do futebol, mas sei que, na sua essência, futebol não se aprende, futebol nasce; depois pode apurar-se com muito treino mas, na essência, futebol não se aprende.
O homem que joga, na expressão feliz do professor Manuel Sergio, se não tem a essência deste jogo mágico no sangue, nunca poderá ser um craque. Um craque joga até de poltrona ou de olhos fechados, porque se você é craque, a gente vê logo pela maneira como trata a bola.
Se o jogador a trata com carinho e suavidade ela devolve-lhe esse amor em dobrado; se você a trata como se estivesse chutando uma pedra, ela vai retribuir-lhe da mesma maneira, afasta-se de você, não lhe obedece nunca.
Devo dizer que penei muito com o meu primeiro treinador, Henrique Ben-David, cabo-verdiano que foi internacional por Portugal no tempo dos cinco violinos, onde tinha a concorrer ao seu lugar nada menos do que Fernando Peyroteio e Rui Cunha, da Académica.
Eu era o jogador com quem ele mais brigava nos treinos. Porquê? Hoje sei, mas na altura não entendia: era porque me agarrava muito à bola.
Vendo hoje as coisas a esta distância, julgo que ele tinha razão, mas não toda.
Eu segurava às vezes um pouco mais e fazia uma finta a mais, em parte por egoísmo, para brilhar, mas porque me sentia capaz de desequilibrar as defesas coisa que não acontecia se a entregasse a algum colega. Bons tempos.
Com este texto encerro por agora a escrita sobre futebol. Espero não ter enfastiado os amáveis leitores com excessivos pormenores ou repetições.
Mas a verdade é que senti a obrigação de dar ao futebol através da escrita aquilo que ele me deu a mim dentro do campo ou seja, mais alegrias do que tristezas. Ao contrário da vida, que no geral, é  mais pródiga em tristezas do que em alegrias.

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Categorias: Opinião

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