26 de setembro de 2020

Recordações da quarentena desse génio chamado Rafael Bordalo Pinheiro

Reedição mais oportuna não podia haver. O Museu Rafael Bordalo Pinheiro com a EGEAC acabam de editar No Lazareto, de mestre Bordalo. Porquê a oportunidade, os editores explicam-se: “Em 1879, após quatro anos no Brasil, Rafael Bordalo Pinheiro regressa de paquete a Portugal. Quando chega a Lisboa, ao fim de vinte dias de viagem, é obrigado a ficar em quarentena no Lazareto, um edifício em Porto Brandão, na margem sul do Tejo, que era isolado e se destinava a acolher e a desinfetar pessoas e objetos vindos de lugares ameaçados por epidemias ou doenças contagiosas. Durante o período em que ali permaneceu devido ao perigo de propagação da febre-amarela, tomou estes ‘apontamentos’, publicados em 1881 sob o título No Lazareto de Lisboa. Profusamente ilustrado com os seus desenhos, o opúsculo evoca peripécias vividas no Brasil, a viagem de barco, a sua Lisboa, e regista, com humor, os dias de penitência no edifício do Lazareto”.
Este é o escopo da obra, aquele que terá sido o maior artista plástico do século XIX passa em revista a experiência brasileira e não é sem hilaridade chegamos à casa da desinfeção onde o convivial Bordalo sonha por se divertir com a política e políticos, patuscar em tertúlias e divertir-se à grande. Na edição original de 1881, mestre Bordalo diz porque demorou um ano a publicar os seus extraordinários desenhos de humor que abarcam cenas brasileiras, episódios do Lazareto e o retorno à folia lisboeta: “Em primeiro lugar, quis ver se alguma impressão mais picante que, porventura, me tivesse ficado do trato sanitário dos zeladores da saúde nacional se desfazia; em segundo lugar, quis experimentar se, porventura, desfazendo-se esta impressão, o Lazareto se desfazia ao mesmo tempo. Não sucedeu, porém, assim. O estabelecimento e a recordação continuam intactos e por este motivo o folheto tem o seu lugar e a sua razão de ser. De resto, como libelo e como obra-de-arte, ele é, ao que me parece, inofensivo nos intuitos e na forma. O lápis correu às vezes galhofeiro, mas nos seus traços funambulescos não vem a intenção de melindrar a terra onde nem sequer morri de febre-amarela”.
Desenhos surpreendentes do mundo brasileiro, com sabiás, violões, coqueiros, roubalheiras e aquela portentosa Rua do Ouvidor de que alguém escreveu ser “a mais passeada e concorrida, e mais leviana, indiscreta, bisbilhoteira, esbanjadora, fútil, noveleira, poliglota e enciclopédica de todas as ruas da cidade do Rio de Janeiro, fala, ocupa-se de tudo”.
Segue-se a partida, esquiços admiráveis de quem vem a bordo, a alegria de mestre Bordalo quando avista o Bugio, e de supetão é metido no Lazareto, a qualidade do desenho impressiona, critica-se a comida e a incomodidade, e vêm as saudades, só pensa em pôr-se à porta da Casa Havaneza, faz desfilar uma galeria de personagens que marcam a genialidade dos seus trabalhos, o soldado e a criada, os atores, a pândega, o custo de vida, ele até pensa em escrever a Sua Majestade dizendo-lhe que regressou do Brasil sem joanetes, sem brilhantes, mas com alguns macaquinhos no sótão, trazendo, em vez de contos, muitas histórias para contar, e não resiste a chalacear: “Ouso pedir a Vossa Majestade me seja dada a comenda da Conceição da Vila Viçosa a fim de me poder apresentar dignamente na Casa Havaneza”. Despede-se dizendo que o Lazareto vai mudando de figurão mas não deixa de continuar a ser uma penitenciária que prende tudo, menos a febre-amarela.
Em boa hora chegaram estes desenhos propiciadores, ímpares da mão do mestre, haja galhofa de quem na quarentena não deixou cair a pena nem arrefecer a subtileza e a indomável alegria de viver.
 

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Categorias: Opinião

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