26 de setembro de 2020

Cesto da Gávea

Andorinhões e bicos de prego

Thomas Joseph Maher era um amigo e colega irlandês que partilhou comigo algumas das iniciativas pioneiras que, nos primeiros anos da nossa adesão à CEE, tiveram lugar na Comissão de Agricultura do Parlamento Europeu. TJ (tee-jay) Maher, quando foi eleito eurodeputado pela Irlanda, trouxe consigo um acervo de qualidade, experiência, veterania e sabedoria que ganhou imediatamente a minha confiança e amizade. Membro do GLDR-Grupo Liberal, Democrático e Reformista do Parlamento Europeu desde 1984, conheci-o em 1986, quando o PSD integrou esse grupo político. TJ vinha da presidência da Irish Farmer’s Association, a poderosa associação irlandesa de agricultores que dirigiu com firmeza e competência durante muitos anos. Entre várias missões que fizemos juntos, trouxe-o aos Açores, para conhecer a nossa realidade. E, das muitas histórias que vivemos lado a lado, recordo a do andorinhão irlandês, contada por TJ num almoço com dirigentes micaelenses da lavoura e das pescas.

No fimdo repasto, passadas algumas estórias manifestamente exageradas que alguns dos presentes contaram, TJ contou a do andorinhão. Quando os mais velhos do bando avisaram que era tempo de voar do norte irlandês para o sul, porque o inverno estava a chegar, o andorinhão valentão deixou-os ir, para ficar com as moscas e os insetos só para ele. Era forte, pensava o pássaro; depois ia ter com os outros. Quando esfriou e choveu, voou para sul. Mas a chuva aumentou, começou a nevar – e a salvação foi acolher-se àquele estábulo, onde uma providencial defecação de vaca o aqueceu de novo para a vida. Tanto recuperou que piou alto, despertando aquele gatarrão agachado numa barrica,que de um salto, papou o pássaro. Concluiu TJ Maher que “nem todos os que te colocam na bosta são teus inimigos, nem todos os que te tiram dela são teus amigos, e quando estás nela, o melhor é ficar de bico calado”. Lembrei-me de TJ e desta estória ao ouvir algumas das perorações com que nos inundam certos políticos de meia tijela, convencidos que o que aprenderam nos berçários das jotas partidárias substitui o saber adquirido nos institutos e universidades. Então, ostentam nos currículos a bandeira da formação política, obtida frequentando “universidades” partidárias, ignorando o ridículo em que um dia cairão, quando se fizer luz sobre a sua incompetência maliciosa. Temos abundantes exemplos pelo mundo fora, nem sendo preciso sair de Portugal e das nossas ilhas para encontrar uns quantos.
Uma das caraterísticas desta fauna de aviário é a capacidade para “virar o bico ao prego”, vilipendiando o mensageiro e descartando a mensagem. Pouco lhes importa se o que dizem ou fazem é certo ou errado, desde que lhes sirva o objetivo e salvaguarde o ego. A mostra mais evidente vem da execrável dupla Trump/Jonhson, mas não só, porque pelas nossas bandas, proliferam idênticos paranóicos dessa natureza. Felizmente que também existem exceções em sentido contrário, quer nos governantes, nos q2uadros superiores da Administração Pública ou das empresas privadas. Contudo, numa Região Autónoma insular e dispersa como os Açores (ou mesmo num país pequeno como Portugal) é visível o surgimento de compadrios entre os vários setores, nomeadamente no binário política/economia, com manifesta complacência do eixo banca/finança. A técnica mais vulgarizada por líderes como Trump ou Johnson é a do atrás citado “virar o bico ao prego”, demonstrada pelo americano quando afirma que, se perder a reeleição, não aceitará o resultado ( mas se ganhar, nem o discutirá!) ou pelo inglês, quando renega o que assinou com a União Europeia e exige o uso das máscaras e confinamentos, que anteriormente desprezava. Boris Johnson e Donald Trump são espalhafatosos quanto baste, malabaristas que não temem mentir ou vigarizar seja quem for, desde que isso dê votos. 

Há quem julgue que a moda já pegou por cá, ao que se vê pelo número de litígios judiciais envolvendo altas figuras da política, da economia e até da Justiça. Com o aproximar das eleições regionais açorianas, a que se seguem as presidenciais nacionais, o clima político aquece e os pareceres de especialistas são discretamente ignorados perante a conveniência pessoal ou partidária. Martin Moore, catedrático do King’s College de Londres, no seu livro “Democracia manipulada”, desenvolveu com ousada clareza as diversas formas de constrangimento da opinião pública, agora tão facilitadas pelas redes sociais. As campanhas eleitorais terão suportes e orientações diferentes – e mal irá o governo ou partido que não dê prioridade ao digital e ao ambiente, os 2 eixos que, com a saúde, constituem preocupações máximas da Comissão Europeia. Aqui nos Açores, teremos uma oportunidade única para usar criteriosamente os fundos europeus previstos, considerando o mérito dos executantes e a produtividade dos investimentos como objetivos a cumprir, dispensando-se andorinhões e viradores do bico ao prego.
 

Print

Categorias: Opinião

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima