Bandas Filarmónicas da Ilha de São Miguel

Filarmónica Estrela D’Alva aposta na motivação dos músicos e Lira das Sete Cidades vai planeando concerto para o Natal

Criada em 1887, na freguesia de Santa Cruz, concelho da Lagoa, a Sociedade Filarmónica Estrela D’Alva teve como seu primeiro Presidente o padre João José Tavares, que para além dessa importante função, foi igualmente o autor do hino a Nossa Senhora da Estrela, padroeira da freguesia.
No seu currículo, a Estrela D’Alva conta com actuações a várias ilhas dos Açores e deslocações ao continente português e, naturalmente, aos Estados Unidos da América. 
Deixando para trás o passado, a banda conta actualmente, segundo o seu Presidente, Ricardo Tavares, “com 42 elementos, dos 8 aos 54 anos”. Na escola de música estão inscritos 8 alunos, sendo que alguns deles “já começaram a sair com a banda”.
Como todas as outras instituições deste género, também a Filarmónica de Santa Cruz, está a atravessar por um marco histórico com o encerramento da actividade devido à pandemia de Covid-19, apesar de os ensaios já terem sido retomados no passado mês de Junho.
“Estivemos fechados até ao mês de Junho, quando começamos com a escola de música tendo como principal objectivo de incentivar os miúdos a continuarem e a não desanimarem. Temos feitos uns ensaios por naipes, porque também não temos uma sede muito grande e temos tomado medidas para continuar o nosso trabalho”, assume Ricardo Tavares.
O Presidente da Sociedade Filarmónica Estrela D’Alva explica como foram passados os meses de confinamento entre os músicos da banda.
“Depois de encerramento, em Março, continuamos com ensaios em casa já que os músicos levaram os seus instrumentos. O maestro esteve via Internet em contacto com os músicos e, na época do Espírito Santo, cada um gravou o hino em sua casa. A intenção era nunca parar e, a verdade é que não é bom que os instrumentos estejam parados muito tempo. Foi principalmente para motivar os miúdos porque, estando eles fechados em casa 3 meses, sempre iam tendo a música”, afirma.
Depois da retoma, Ricardo Tavares conta que já foram realizados algumas iniciativas, apesar de, ainda não serem em igual número ao que se fazia antes. 
“Temos ido tocar no lugar dos Remédios e freguesia de Santa Cruz. A nossa Senhora saiu numa viatura e estivemos lá a tocar o hino. Ainda há 2 semanas fomos ao Livramento, onde assistimos à missa campal e depois tocamos o hino. Estamos a fazer já algumas actividades, seguindo as recomendações da Autoridade de Saúde e vamos seguindo o caminho que é possível. Já se sabe que gostaríamos de estar a fazer mais coisas, mas sabemos que não é possível. O único serviço que fizemos este ano foi em Fevereiro, por altura do nosso aniversário”, refere, antes de explicar que, devido à pandemia, alguns projectos e planos da banda tiveram de ser cancelados.
“Tínhamos no nosso plano de actividade fazer uma viagem à Graciosa e fazer um intercâmbio com uma banda de lá. Para além disso, já tínhamos também alguns serviços marcados e com bons privilégios, como por exemplo o São João da Vila. Esperemos que seja para o ano”, refere, esperançoso.
Para o Presidente da Estrela D’Alva, as filarmónicas constituem-se, para além da sua vertente cultural e musical, como instituições que contribuem para a integração social dos jovens.
“O importante que não desistamos das filarmónicas que são um bem essencial para os Açores. Estas são instituições que chamam muitos jovens. Quando estão cá, não frequentam caminhos onde não deviam estar. Não somos só uma filarmónica que toca música e sai pela rua, somos também um a escola de vida”, destaca.
Relativamente à componente financeira, Ricardo Tavares assegura que as contas estão equilibradas apesar das dificuldades que se vão vivendo em consequência da falta de serviços.
“A nossa banda não está em situação de ruptura, mas não é fácil gerir isto. Continuamos a pagar luz, água e alguma outra despesa que temos, como conserto de instrumentos, por exemplo. Demos mais importância aos instrumentos e às condições para os músicos tocarem. Estão equilibradas, com uma dificuldade ou outra, mas até 2021, a Estrela D’Alva está salva”, garante, afirmando ainda que “se para o ano as coisas continuarem assim, vai ser complicadíssimos mas nós, enquanto direcção, cá estaremos para tentar arranjar soluções”.
Para que a Sociedade Filarmónica Estrela D’Alva se mantenha ‘à tona de água’, o Presidente considera que os apoios camarários são imprescindíveis, apesar de lamentar que no seu caso, a verba não seja tão elevado como noutros concelhos da ilha.
“Todos os anos recebemos um apoio da Câmara e da Junta. Este ano esse apoio foi igual e não se alterou. A Câmara tinha um protocolo em que o apoio iria ser pago em três vezes, mas depois de ter começado esta crise, foi decidido pagar tudo de uma vez para ajudar as bandas. Infelizmente há outros concelhos que deram mais, mas neste momento o que temos é isto e quando for necessário mais havemos de ir conversar”, explica.
Ricardo Tavares comentou também o recente anúncio de que o Governo Regional vai apoiar todas as bandas num montante de 2500 euros.  
“Claro que queríamos sempre mais (risos). Nesta associação, temos gasto e vamos sempre dizer que é pouco. Mas 2500 euros já é uma boa ajuda e já podemos investir em conserto de instrumentos e em todo o material que precisamos. Costumo dizer na brincadeira, se vierem 500 é bom, se forem 1000 é melhor”, afirma o Presidente da Sociedade Filarmónica Estrela D’Alva.  

Banda Filarmónica 
Lira das Sete Cidades
Criada a partir de um sonho do padre José Cabral Lindo, que queria criar uma escola de música e um grupo para animar as festas da freguesia, a Lira das Sete Cidades foi fundada a 11 de Abril de 1948 e teve a sua primeira saída nas Domingas do Espírito Santo, com apenas 10 músicos. Em 1955, a banda teve de encerrar devido a algumas dificuldades, tendo sido reaberta em 1976 e desde essa época, mantem a sua actividade de forma ininterrupta. No seu historial, a Lira Sete Cidades conta, para além de deslocações a outras ilhas do arquipélago, com “duas viagens ao continente. Uma a Pinhal Novo, em 1999 e outra a Rio Maior, no ano de 2001”, enumera o secretário da Banda, Rodrigo Oliveira.
Actualmente, a Lira Sete Cidade tem “40 elementos, contando com pessoal da Direcção e bandeiras. Os músicos estão a rondar os 30”, explicita Rodrigo Oliveira, antes de referir que a escola de música tem 10 alunos. O facto de ser “uma banda ligeiramente pequena, numa freguesia também pequena”, é uma das grandes preocupações do secretário da banda, que garante mesmo assim, que tudo está a ser feito “para cativarmos mais jovens”.
“Não tem sido fácil, mas penso que isso é um problema universal em todas as filarmónicas. É cada vez mais difícil cativar os mais novos. Mesmo assim, todos os anos entram 2 ou 3 crianças para a banda o que já não é mau”, destaca.
Tema incontornável nos nossos dias é a pandemia de Covid-19 que obrigou ao cancelamento de todas as actividades programadas pela filarmónica. A banda já retomou os ensaios e vai agora planeando o futuro.
“Voltamos agora em Setembro e, no passado dia 19, houve uma missa nova de um jovem que foi ordenado padre, onde fomos autorizados a participar nesta celebração. Vamos continuar os ensaios e vamos tentar fazer um concerto de Natal”, projecta,
O objectivo de realizar um concerto na próxima época natalícia é agora um dos principais focos da filarmónica que pretende, com essa iniciativa, motivar os músicos que se encontram inactivos há vários meses.
“Houve músicos que ficaram muito desanimados e houve quem não tivesse tocado durante esse período. Estamos num momento de retoma e de reaprendizagem e a ideia de tentar realizar um concerto em Dezembro é para que os músicos não percam o gosto. Já estão habituados a ficar em casa por causa da quarentena e quem nos garante que para o ano não acontece a mesma coisa. Temos feito um esforço para manter o pessoal todo e penso que até agora não tivemos qualquer desistência”, explica.
O secretário, da Direcção que tomou posse no início do ano de 2020, afirma que a contabilidade da banda se encontra “mais ou menos equilibrada” e enumera alguns dos motivos que sustentam essa estabilidade.
“A banda não possui sede própria. Desenvolvemos a nossa actividade na Junta, que cede o espaço de forma gratuita à filarmónica. A única despesa fixa que temos é relativamente ao telefone, por isso a despesa não tem sido muita. Temos a felicidade do maestro ser da freguesia e executante da banda, não levando qualquer honorário por isso. Agora, com a reabertura da escola de música passamos a ter despesa com 1 ou 2 professores que vêm ensinar as crianças”.
Numa fase tão complicada para a vida destas instituições, Rodrigo Oliveira comentou o apoio concedido pela autarquia às bandas, adiantando que, após reunião realizada entre representantes das filarmónicas e da Câmara, há a perspectiva de a verba, inicialmente anunciada, poder vir a ser aumentada.
“A Câmara prometeu um apoio de 2000 euros às actividades culturais do concelho. Já houve uma reunião com o Executivo e foi-nos prometido a duplicação desse valor só que isso ainda não está confirmado”, esclarece.
O secretário da Filarmónica sedeada nas Sete Cidades mostra-se satisfeito com os apoios disponibilizados, apesar de admitir que ainda não está definido a forma como os montantes anunciados serão disponibilizados às bandas.
“Estamos satisfeitos com os apoios. Tendo em conta as despesas da filarmónica é suficiente, mas acredito que existam outras que não pensem assim. Cada caso é um caso. Também é importante perceber como o dinheiro vai ser disponibilizado. Se for a fundo perdido aí já nos satisfaz mais, mas se for mediante apresentação de despesas, que no nosso caso são poucas, não vamos atingir os 2000 euros da Câmara Municipal”, refere. 
Perspectivando o futuro, Rodrigo Oliveira aponta ao objectivo de ter uma sede própria como sendo uma prioridade. Refere ainda alguns dos principais problemas pelos quais a banda passará, mas apesar dessas dificuldades, acredita na continuidade e no futuro da filarmónica.
“O principal problema que enfrentamos tem a ver com falta de músicos, mas o pessoal que temos na banda é muito motivado e tudo fará para segurar esta instituição. A pandemia não veio alterar muito a situação porque passávamos antes. Tirando a parte económica, que nos fragilizou um pouco, penso que não será por aí que a Banda poderá fechar. Só mesmo pela falta de músicos”, acredita Rodrigo Oliveira.   
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Luís Lobão

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Autor: CA

Categorias: Regional

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