Histórias de sucesso de empreendedores portugueses inspiram açoriano a escrever segundo livro “Faz acontecer, Portugal”

André Leonardo é terceirense, tem 31 anos e é professor convidado no Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE – IUL), introdução esta que acaba por ser muito simplista para apresentar ao leitor quem, em 2016, foi considerado pela associação Pangea, com sede em Madrid, como “um dos sete jovens que estão a transformar o mundo”.
Para além da sua ligação ao mundo da gestão e do empreendedorismo, é também o proprietário da empresa “Faz Acontecer”, que anualmente realiza na ilha Terceira as “Faz Acontecer Talks”, e chegou também a dar a volta ao mundo, uma viagem da qual nasceu o seu primeiro livro, dando a conhecer histórias de sucesso de empresários de vários pontos do globo.
Recentemente, o “speaker” que exerce muito do seu trabalho em países do norte da Europa ou em África, lançou o seu segundo livro, intitulado “Faz acontecer, Portugal”, que à semelhança do primeiro livro procura dar a conhecer a história de dez exemplos de empreendedorismo, através das histórias de sucesso de dez empresários, dois deles açorianos.
Em breve, prepara-se também para abrir um hostel com vista para a “mágica” baía de Angra do Heroísmo, cujo nome será “Mid-Atlantic Hostel”, exemplos estes, tanto a publicação do segundo livro, como a abertura de mais um negócio, que provam que mesmo perante as adversidades, tal como a crise económica que se aproxima a galope, é possível encontrar soluções viáveis e empreendedoras.

(Correio dos Açores) Desde a sua última entrevista, no ano de 2018, o que mudou na sua vida? 
(André Leonardo) Toda a construção e remodelação do hostel, depois a escrita do segundo livro e aulas no ISCTE, e já foi muito! (risos) As viagens por Portugal terminaram em Fevereiro e a partir daí passei à escrita do livro, fechado em casa. A quarentena foi boa para conseguir escrever.

O que o motiva a escrever este segundo livro?
Este livro nasce por duas grandes razões, a primeira é que nas primeiras viagens por Portugal fui conhecendo pessoas inspiradoras. (…) Há gente muito inspiradora que nas suas aldeias, cidades e vilas emprega outras pessoas. É malta com fibra e isto também é Portugal. 
Portugal não é só a Web Summit, Portugal sempre teve estas pessoas inspiradoras e parece-me que têm ficado um bocadinho de lado. Como gosto muito de desafios, propus-me a ir a estas aldeias e vilas, a estes lugares que não são só Lisboa e Porto, e a dar a conhecer estas pessoas inspiradoras.
O primeiro livro da volta ao mundo nasce como consequência da crise económica que estávamos a viver e, na altura, queria inspirar as pessoas a irem em frente. Agora estamos perante uma nova crise de saúde que se está a tornar agora numa crise económica e achei, vendo isto um pouco mais à distância, que não só tinha que inspirar, mas que também tinha que – de alguma forma – dar ferramentas para que as pessoas possam lidar com esta crise que está mesmo a chegar.
Por isso o livro dá um conjunto de ferramentas para que qualquer pessoa, independentemente do seu tipo de formação ou do seu nível de conhecimento em gestão, possa fazer acontecer um negócio ou aquilo que entender.

O empreendedorismo torna-se num assunto tabu em momentos de crise?
Acredito, e pelos estudos que tenho feito (já ando a estudar estas temáticas há mais de dez anos e tenho vindo a falar com dezenas e centenas de empresários pelo mundo e em Portugal), todas as pessoas que fazem acontecer com sucesso são pessoas que olham para a crise como uma oportunidade.
Costumamos até dizer na academia que as crises são fontes de oportunidade. De facto, a vida desenvolvia-se de uma determinada forma, as pessoas tinham determinadas necessidades e as respostas eram dadas àquelas mesmas necessidades, veio uma crise e as necessidades das pessoas mudam, e como é óbvio, os empresários e as empresas também têm de se adequar a essas novas necessidades.
Há novas tendências e necessidades por parte do povo e por parte das pessoas, e nós empreendedores e empresários também temos que nos adaptar. (…) Tenho falado com muita, muita gente, e há malta que está até entusiasmada com isto porque é uma nova altura para se explorar, para se viver e para se procurar novas soluções, para se andar para a frente. 
Curiosamente, até tenho visto as coisas “pelo lado positivo”, porque se as coisas tal como as conhecíamos estão a terminar, por outro lado começam outras coisas. Tudo o que é saúde, limpeza, cremes e gel é um sector com um boom tremendo.

Como acha que se irá ressentir o turismo daqui em diante?
Ao longo dos próximos anos talvez não será provável que o sector do turismo de massa cresça tanto. Hotéis com 200 ou 300 quartos, provavelmente, terão algumas dificuldades. Mas, se calhar, regiões que tiveram poucos casos de Covid-19 e onde as pessoas podem estar na natureza, com muitos espaços abertos e com muitas casinhas nos serrados, talvez tenham mais sucesso. 
E nós estamos precisamente numa região com todas essas condições com uma oportunidade de ouro para agarrar o turismo ao longo dos próximos anos. Saibamos nós, e todos os agentes, fazer isso.

Acha que esta crise vai filtrar aqueles que são verdadeiramente empreendedores?
Acho que isto é uma prova na qual é preciso que nos saibamos adaptar. Há uma frase que diz que os mais fortes não são os que têm mais força, mas sim os que se adaptam melhor às mudanças, e é um bocadinho isso. Acredito que haja aqui uma filtragem, ou pelo menos uma adaptação, do tecido empreendedor e económico.

Que mitos há em relação ao empreendedorismo actualmente?
Para já, há uma ideia generalizada no público e que é errada porque as pessoas pensam que ser empreendedor é criar um negócio. Ser empreendedor não é criar empresas, ser empreendedor é fazer acontecer mas com inovação, correndo um risco, sendo proactivo e criando valor.
Até podemos ser empreendedores trabalhando para outros, e o nome disso é intra-empreendedorismo e é das coisas mais importantes porque qualquer empreendedor adora ter intra-empreendedores dentro da sua empresa.
Por exemplo, quando dei a volta ao mundo, cumpri todos os requisitos que definem um empreendedor e não criei um negócio. Por outro lado, nem toda a gente que tem negócios é empreendedora, porque se temos 10 negócios iguais numa rua e chegar alguém com o 11.º e muda o nome mas serve mais ou menos a mesma coisa, a pessoa não estará a ser inovadora, está apenas a abrir um negócio e a ser empresária.
Tenho também reparado que se tem apostado muito em ligar o empreendedorismo ao empreendedorismo tecnológico, e isso não é feito por uma razão estapafúrdia, tem lógica, de alguma forma.
Nos Açores estamos em ilhas, mas qualquer negócio que seja feito pela internet é escalável, pode chegar ao mundo inteiro e não é por estarmos nos Açores que não estamos em pé de igualdade.
Por outro lado, penso que não nos podemos esquecer dos micro, pequenos e médios empreendedores, e das pessoas, negócios e sectores que de alguma forma nos tornam especiais e únicos. Ir aos Açores é diferente de ir à Madeira ou a Creta. Então, há tremendas especificidades nos territórios, neste caso dos Açores, que podem e devem ser explorados, como a agricultura, o turismo ou o mar.
Por isso este livro, “Faz acontecer, Portugal”, reúne histórias de pessoas reais, em sectores não tecnológicos que acho que podem servir de inspiração para os sectores mais tradicionais de cara-a-cara e que não podem nunca deixar de existir e que têm muito, muito potencial.

Sem revelar demasiado o que está no livro, há alguma história nos Açores que o tenha marcado?
Faço sempre questão de levar os Açores comigo para todo o lado. Este livro começa no ponto em que termina o livro da volta ao mundo, ou seja, o livro tem uma primeira parte que fala no tempo desde que terminei a volta ao mundo e no que aconteceu, depois conta a história de dez empreendedores portugueses que são uma referência, pessoas que servem de exemplo, e depois tem uma parte composta por vários lemas e ferramentas que podem servir para “fazer acontecer”.
Em São Miguel falo no exemplo do João Rocha, que diria que inovou num sector onde na altura era impossível inovar, nas barbearias. Ele começa na ilha Terceira, trabalhou numa casa mortuária, teve um negócio de venda de motas que durante a crise da Troika começou a correr muito mal e teve que fechar o negócio.
O João esteve um pouco perdido sem saber o que haveria de fazer, e de repente surge-lhe a ideia de ser barbeiro. Decide fazer o curso e abriu uma pequena barbearia na freguesia das Lajes, na ilha Terceira, provavelmente o “último lugar” para abrir uma barbearia na Terceira. Teve muito sucesso, apostou nas redes sociais e hoje em dia é o barbeiro da moda e todos os jogadores de futebol cortam com ele.
(…) Tem agora uma barbearia em São Miguel, outra na Terceira, dá formações, ganha prémios pelo mundo inteiro e é alguém que muito faz acontecer e que inovou num sector altamente tradicional, e isto também é empreendedorismo e é Portugal.

Prepara-se para abrir o seu primeiro hostel. É esta a sua forma de dar o exemplo de que em momentos menos bons há ideias que podem funcionar?
Esta é a minha segunda empresa. A primeira é a Faz Acontecer, criada há cerca de três anos, temos sede nos Açores e fazemos formações e palestras um bocadinho por todo o lado.
Trabalhamos pouco nos Açores porque exportamos todos os serviços que fazemos e trabalhamos com muitas empresas em Portugal, multinacionais, prestamos trabalhos no norte da Europa mas também em África, e apesar de ser uma empresa relativamente pequena já vai além fronteiras.
Agora tenho o hostel que nasceu porque quando estava a fazer a volta ao mundo, com recursos estupidamente baixos, onde dormia em casas de pessoas, e na altura pensava que quando pudesse adorava ter um espaço na minha terra, nos meus Açores, para poder também receber pessoas e mostrar a minha terra que eu sei que é muito bonita.
Quando cheguei da volta ao mundo acabei por juntar os recursos que precisava, procurar “o lugar” perfeito e então temos uma localização absolutamente mágica, com uma vista espectacular para a Baía de Angra do Heroísmo.
Passei por todo o processo das obras, das especificações, e apesar de muitas vezes se promover o empreendedorismo, aquilo que a gente precisa não é de um prémio de 1.500 euros, aquilo que a gente precisa mesmo é de tirar burocracia às coisas, porque queremos investir e fazer e depois ficamos presos durante meses nas burocracias.
O hostel está pronto, estou só a aguardar as licenças para poder abrir. Tenho a certeza de que vai correr bem e estou muito contente por abrir este “Mid-Atlantic Hostel”, o hostel no meio do atlântico, (…) e temos também muito merchandising pronto para seguir para as lojas.
Tenho a certeza de que isto que nos está a acontecer agora no turismo tenha um lado muito mau, mas assim que isto passar eu acredito que os viajantes e os solitários que andam pelo mundo de mochila às costas tenham muita vontade de sair e acredito que regiões como a nossa vão ser as primeiras a ser visitadas porque, de alguma forma, tivemos um comportamento exemplar quando à Covid-19. É essa a imagem que passa para o exterior, pelo menos.

Vai gerir este projecto à distância?
Na verdade, eu vivo nos Açores, na ilha Terceira. O que acontece é que sempre que tenho aulas, palestras, formações ou algum cliente que precisa de mim, desloco-me a Lisboa ou ao Porto, mas é na Terceira que tenho a minha base.
Vou gerir o negócio à distância, mas hoje em dia já existem muitos modelos de gestão e tenho pessoas nas quais tenho plena confiança que também vão estar à frente do negócio e que também me vão apoiar na gestão diária do hostel. Formei uma equipa para as coisas funcionarem, até porque sozinho ninguém faz nada.
 
No que diz respeito aos eventos do “Faz Acontecer Talks”, optou por não realizar nenhum evento online. Porquê?
Este é um evento mesmo muito especial e o que se vive ali, não acredito que consiga replicar online. É um evento especial, que acontece de forma presencial e para quem está no público, fazemos sempre coisas muito diferentes, com oradores muito bons e é uma energia que não conseguiria passar online da forma que eu gostaria.

Em 2016 foi eleito como “um dos sete jovens que estão a transformar o mundo” pela associação Pangea. Considera que toda a sua acção ajuda a mudar o mundo?
Quando recebi este prémio fiquei a achar que era um amigo meu a brincar comigo. Quando percebi que era verdade parei para pensar e, no fundo, o que sinto não é que estou a mudar o mundo mas sim que estou a fazer coisas que gosto muito de fazer, que não custa fazer mais do que seria normal.
E se isso tem impacto positivo nas pessoas, tanto melhor. Então, se calhar, não é preciso fazer muito para mudar o mundo, é só fazermos o que nos apaixona, colocar o coração e a alma nas coisas, trabalhar muito, esperar pela “estrelinha” (da sorte) para que apareça nos momentos certos e, se calhar, isto é mudar o mundo.
Estas coisas servem para olharmos para trás e vermos o caminho que fizemos, e olhando para trás, é giro ver um miúdo com 19 ou 20 anos que organizava conferências e que estava apaixonado por fazer esta mensagem chegar às pessoas e à sua comunidade.

A Faz Acontecer trabalha muito com empresas de Portugal e fora de Portugal. Nos Açores trabalha pouco, considera-se pouco valorizado na Região?
Nós, no fundo, trabalhamos no estímulo ao empreendedorismo. O Governo Regional tem optado por outras soluções, por outras empresas e formatos. Já fizemos coisas em conjunto, incluindo as “Faz Acontecer Talks” que têm sempre algum apoio, mas temo-nos focado noutro tipo de iniciativas que têm acontecido fora, noutros mercados e de outra maneira.
Pelo que vejo, as coisas nos Açores estão a correr de alguma forma bem, existe o programa Educação Empreendedora há muito tempo, onde também já trabalhei, mas não vejo isso como falta de reconhecimento, as coisas são como são.

 

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