Gonçalo Borges divide paixão entre a poesia, as ciências da comunicação e o cinema

 Foi num bairro em muito semelhante aos típicos “subúrbios americanos” que nos chegam através dos media que Gonçalo Borges cresceu, em Ponta Delgada, relembrando os dias em que “tudo se fazia de bicicleta” e onde as brincadeiras de miúdos existiam entre primos e vizinhos.
Anos depois, entre “a melancolia dos Invernos com chuva, os festivais de Verão e as idas às barraquinhas do Senhor Santo Cristo”, fenómeno transversal a todas as gerações de micaelenses, adianta, viria a necessidade de sair da ilha e a curiosidade pelas cidades cosmopolitas, vindo então a mudar-se para Lisboa, onde hoje trabalha em comunicação digital e onde faz também o Mestrado em Ciência da Comunicação.
Apesar de a necessidade de “escapar à insularidade” ser uma constante na vida de Gonçalo Borges, o que acabaria por despertar a sua criatividade em diversas áreas, viver na ilha de São Miguel não é visto pelo jovem como algo que lhe tenha condicionado os desejos, mas sim como algo que “os alimentou”.
Isto é, o acordar diariamente perante a vista “do horizonte acompanhado do aeroporto” era para o próprio uma “provocação insular”, conforme descreve. Porém, viu esta como uma forma de transformar as limitações existentes em oportunidades, acabando assim por se envolver com projectos aos quais não teria acesso no resto do país, escreve.
Aos 16 anos, já farto da área de ciências e tecnologias, viria a participar no primeiro Poetry Slam PDL, um concurso de poesia de autor interpretada ao vivo, que acabaria por ganhar, e que mais tarde viria a dar lugar a O Colectivo, que para além de fazer performances e antologias, chegou inclusive a entrar na casa dos açorianos, através do programa da RTP/Açores intitulado “Os Poemas lá de Casa”.
Apesar de não se considerar “um criativo sempre em movimento”, uma vez que diz ser mais criativo quando sente a necessidade de “fugir à rotina, às obrigações e ao mundo real”, acredita que a sua veia poética foi herdada do avô paterno, com quem partilhava o gosto pelas palavras e, em certas ocasiões, pela sua melancolia.
“Não acho que a poesia me permita viver melhor, surge de uma necessidade de purga, é algo que penso ter herdado do meu avô paterno. Ele, como eu, escrevia com esta lógica e por isso um dia deitou ao lixo os poemas, por tomar consciência da sua melancolia. Nos últimos anos de vida, décadas depois, recitou-me alguns de memória, o que me comoveu. Penso que me entendia e tive o privilégio de partilhar com ele essa cumplicidade, até no último dia”, relembra o jovem.
No entanto, apesar do sucesso do projecto com o qual se envolveu, sair do arquipélago para prosseguir estudos foi sempre uma meta que desejou atingir, uma vez que “queria que fosse uma consequência natural do seu percurso curricular e profissional” tendo em conta as suas áreas de interesse, “ligadas a indústrias, todas elas bastante centralizadas no nosso país”.
Esta “inevitável” partida foi também marcada por uma grande “sede de cosmopolitismo” que apenas conseguia saciar quando ia até à capital portuguesa, inclusive para visitar amigos que já tinham também passado por esta transição, permitindo-lhe assim “tomar o pulso à cidade de forma mais íntima” e até conhecer o resto do mundo.
Porém, foi quando começou a conhecer melhor o resto do mundo que deu “o valor devido à terra onde nasceu”, tomando então consciência do “privilégio de ser açoriano” que, até ali, não reconhecia.
Num primeiro momento, a sua saída do arquipélago foi motivada pelo desejo de estudar cinema. Contudo, uma vez que classifica os seus interesses como “dispersos”, acabou por escolher uma licenciatura em Ciências da Comunicação, uma vez que esta é uma área que abrange também “o lado social, político e humano pelo qual sempre teve interesse” e que, de alguma forma, o permitiu ser “um especialista em generalidades”.
Logo no primeiro ano da licenciatura, decidiu integrar a redacção do “Espalha-Factos”, um jornal online composto por jovens que funciona com base no voluntariado, e que centra a difusão da sua informação nas áreas do cinema e da televisão, tornando-se editor na secção de cinema.
“Foi interessante entender em primeira mão as diferenças e os desafios do cinema em Portugal, que é bastante polarizado entre cinema comercial e cinema de autor. São pólos com diferentes públicos, circuitos e uma grande heterogeneidade num universo tão pequeno, o que cria uma paisagem na cultura nacional muito particular”, recorda o jovem.
Nesta sua primeira experiência enquanto jornalista, teve inclusive a oportunidade de fazer a cobertura dos prémios da Academia Portuguesa de Cinema, os prémios Sophia, importante pelo impacto que teve no seu percurso académico, conforme explica.
“No evento, entregaram um bloco do Instituto do Cinema e Audiovisual com as estatísticas sobre a indústria, o que me levou a optar por uma investigação sobre a Comunicação do Cinema Português, para o projecto de Seminário de final da Licenciatura. É uma problemática quase não explorada academicamente e penso que tem desafios estruturais e questões estratégias que podem e devem continuar a ser objecto de estudo, para o bem do cinema português”, reflecte.
Durante o tempo em que participou no Espalha-Factos, acompanhou também duas edições da Web Summit, em Lisboa, nomeadamente na sua primeira e segunda edição. Conforme relata, fez parte de uma equipa multidisciplinar que ficou responsável por fazer comentários ao vivo, por incluir informação nas redes sociais e por escrever artigos diferentes diariamente.
Nessa altura, recorda, tinha saído de São Miguel há apenas um ano, por isso esta foi uma experiência que fez com que Gonçalo Borges se sentisse privilegiado por ter “acesso a políticos, génios de Silicon Valley, personalidades mediáticas” e, pasme-se, robôs!
Apesar de este ter sido um grande choque, deu-lhe também a possibilidade de perceber que “todas as personalidades, corporações e empresas são resultado de uma construção feita por um aparato mediático, do qual estava a fazer parte”.
Entre os momentos mais engraçados, está aquele em que ao correr entre palcos esbarrou contra alguém, percebendo apenas depois, “ao olhar para cima”, que a pessoa com quem tinha chocado era Caitlyn Jenner, acompanhada pelos seus seguranças. Esta foi uma experiência que considerou “bizzara, mas didática”.
Porém, não satisfeito, seguir-se-ia um estágio um estágio feito na área de Relações Públicas que, embora breve, foi uma experiência “enriquecedora” por se ter efectuado na área da comunicação digital, tendo então a oportunidade de, através da Jerónimo Martins, aprender muito sobre “a forma como os franchisings lançam produtos à escala nacional a nível mediático e a articulação com campanhas que envolvem influenciadores digitais”.
Depois deste estágio, integrou também a revista VEXO, uma publicação bianual que se dedica a explorar temas relacionados com moda, independente e de pequena circulação, e acabou também por estar ligado ao Cinema IndieLisboa 2020, entre os meses de Fevereiro a Julho, sendo que antes desta experiência – que considera um desafio – era já um espectador assíduo, conta.
“Foi um desafio porque além de ser a primeira vez que integrava a equipa do IndieLisboa, a situação pandémica levou ao adiamento do evento a um mês de acontecer. Com a nova data, o Indie foi o primeiro festival de cinema do país a acontecer após a quarentena. Os resultados foram positivos e acabaram por revelar o empenho de toda a equipa e, também, do público. Foi comovente ver a sala Manoel de Oliveira esgotada na sessão de abertura”, recorda.
Em relação a este tipo de alterações que tiveram que ocorrer para que os eventos culturais decorram, Gonçalo Borges é da opinião de que a pandemia veio “catalisar um processo de digitalização que já estava a acontecer”, tendo em conta factores como “a dificuldade de mobilização das pessoas e a contracção do consumo devido aos efeitos económicos” que trouxe a pandemia.
“Associando isto às adaptações que os eventos culturais têm de fazer, torna-se difícil sustentar a cultura numa área já por si precária. Estou solidário com os profissionais da área da cultura, que dedicam a sua vida a uma área profundamente negligenciada e com um financiamento deficiente quando comparado com os outros países da União Europeia. São estas pessoas que estão activamente a contribuir para o nosso tecido cultural e identitário, não nos podemos esquecer que um país sem cultura não existe. Por isso temos um dever moral enquanto espectadores e enquanto cidadãos de zelar pela dignidade que a área da cultura e os seus profissionais merecem”, defende ainda o jovem.
De momento, encontra-se a desenvolver uma tese de Mestrado que se debruça sobre a “exposição selectiva” a que cada utilizador da internet e dos novos media é exposto e os efeitos que daí podem surgir, uma vez que “as redes sociais têm uma arquitectura que adapta o conteúdo ao perfil de cada utilizador em tempo real, havendo falta de regulação e falta de literacia digital”.
“Ora isto não é um problema do futuro, é do presente, e se continuarmos a viver com paisagens digitais distintas, a nossa percepção do mundo real não será partilhada, o que torna qualquer democracia insustentável. Em Portugal, os primeiros efeitos deste desgaste já se começam a observar com a ascensão de discurso extremista e teorias da conspiração. É dentro destas temáticas que me pretendo focar, sem querer revelar muito”, adianta ainda.
Depois de concluída a tese de Mestrado, os planos para o futuro são ainda incertos. Porém, admite que “cada ano distante (dos Açores) é mais duro”, não colocando de parta a hipótese de um regresso eventual, podendo assim voltar a reunir-se com a família e em especial com o irmão, Afonso, que não vê desde Fevereiro.
Ao pensar na ilha onde nasceu, Gonçalo Borges pensa também em todos os “cafés” e “chás” que foram adiados por conta da pandemia, especialmente aquele que foi combinado com uma professora muito especial, que terá sido fundamental na sua formação e nas conquistas, nesta reportagem enumeradas.

“Gostava de conseguir viver sem internet...”

Que sonhos alimentou em criança?
Todos os possíveis, eu era muito aéreo e sonhador. Na primária convenci-me de que ia construir um esconderijo debaixo da minha sala de aula, acessível por alçapão. Fui um dia apanhado a serrar o sobrado com uma tesoura, a pôr o plano em acção.

O que mais o incomoda nos outros? E o que mais admira?
Admiro pessoas que são conscientes da sua ignorância, penso que as personalidades mais inteligentes têm essa característica em comum. O que mais me incomoda talvez seja o oposto, a soberba, normalmente é reveladora de estupidez.

Que coisas gostaria de fazer antes de morrer?
Prefiro manter em segredo.

Gosta de ler? Diga o nome de um livro de eleição.
Sim, mas não sou apologista de livros ou filmes de eleição, por isso vou sugerir o que estou a ler agora: o “Minotauro Global”, do Yanis Varoufakis. Explica de forma clara o problema da financeirização da economia global, é um tema de leitura obrigatória.

Como se relaciona com a informação que inunda as redes sociais?
Com medo, porque a informação que inunda o meu feed é diferente da do feed de outra pessoa. Corremos o risco de cada um de nós estar a operar com uma janela diferente para a realidade.

Conseguia viver hoje sem telemóvel e internet?
Não, mas gostava. Consumo demasiada informação diariamente: acordo e ponho vídeos documentais a dar, consumo notícias nos transportes, vou a twitter durante o dia para estar informado e antes de ir dormir leio alguns artigos. É um vício.

Gosta de viajar? Que viagem mais gostou de fazer?
Gosto, mas só comecei a viajar depois de sair dos Açores, a aproveitar low-cost e casas de amigos que estavam a estudar no estrangeiro. Adoro Londres, acho uma cidade que tem uma energia avassaladora.

Quais são os seus gostos gastronómicos?
Ultimamente ando a cozinhar comida asiática, presumo que seja porque tenho saudades da experiência de ir as restaurantes chineses clandestinos do Martim Moniz: baratos, ilegais e saborosos.

Que notícia gostaria de encontrar amanhã no jornal?
Portugal voltou a ter um excedente orçamental pela segunda vez em democracia.

Qual a máxima que o/a inspira?
Deixa para amanhã o que podes fazer hoje.

Em que época histórica gostaria de ter vivido? Porquê?
Em nenhuma outra. Nasci com 7 meses, prematuro, por isso não era capaz de viver no passado. O meu amor pela contemporaneidade é incondicional.
 

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