Filipe Rocha, sócio-fundador da Azores Wine Company

“O público que consome vinho nos Açores não desapareceu e o nosso desafio é chegar até eles”

Qual a quantidade de uvas que receberam este ano?
Anda à volta das 100 a 120 toneladas.

Traduzindo isso em garrafas quanto é que dá?
Mais ou menos 100 mil garrafas.  
   
A vindima deste ano foi inferior à do ano passado?
Sim. Houve alguma quebra de produção generalizada na ilha. Uma quebra de produtividade por hectare embora haja mais vinhas em produção e por outro lado nós estamos a fazer uma transferência para as nossas vinhas próprias, por isso, esta redução face a anos anteriores. 

Essa redução foi de quanto?
É significativa. Nós em média nos últimos anos, estávamos a produzir cerca de 150 a 180 toneladas. Mais ou menos 25%.

Que tipos de vinhos vão produzir este ano?
O habitual. Nós temos brancos, rosé, tintos, temos espumantes a envelhecer e também licorosos. Temos vários destes vinhos na nossa gama e por isso é manter e tentar fazer algumas coisas novas. Todos os anos tentamos fazer alguns vinhos novos ou pelo menos experiências com castas antigas que estamos a recuperar.

Quantos produtores vos fornecem neste momento?
A Azores Wine Company tem vinhas próprias e explora também outras vinhas, que apesar de não serem nossas, somos nós que as exploramos. Desde o início do projecto quando plantamos as nossas vinhas sabíamos que íamos fazer esta transferência de compra de uvas para vinhas próprias. É o que está a acontecer neste momento mas ainda assim, compramos uvas a cerca de 25 produtores. 

Quantos hectares próprios têm a vossa companhia?
Actualmente em produção temos cerca de 50 hectares.

Relativamente ao preço pago pela uva, houve algum ajustamento este ano?
Houve um ligeiro ajuste nos preços. Esses preços andam à volta dos 3 euros o quilo. O mais importante é perceber o percurso feito até aqui. As uvas do Pico são, de longe, as mais bem pagas de Portugal. Naturalmente que a nossa viticultura é a mais cara e sem paralelo, do País e a nossa produtividade é também a mais baixa do pais. Todas estas condicionantes existem mas, recorde-se que quando começamos, em 2014, o preço da uva era 1 euros e 20 cêntimos. O esforço feito por todos os produtores de vinho da ilha para melhorar as condições financeiras pagas aos viticultores foi enorme nos últimos anos e penso que é para esta média que temos de olhar. Naturalmente que num momento de pandemia tem de haver ajuste para toda a gente mas é importante perceber que o sector sobreviverá se o preço dos vinhos for caro e se os preços da uva também. Caso contrário voltamos ao ciclo da pobreza e ao abandono. Vinhos baratos e uva barata já não interessam produzir neste contexto de dificuldades, que é produzir vinhos nesta ilha. O importante agora é que os produtores se aguentem neste período

Um assunto muito recorrente quando se fala das vinhas tem a ver com a falta de mão de obra para as vindimas. Sentiram esse problema?
Não. Nós temos uma equipa própria, permanente durante todo o ano e com cerca de 25 pessoas na vinha. Não temos uma equipa especial para as vindimas. Aliás, a Azores Wine Company emprega ao todo 33 pessoas. Temos muita vinha e por isso temos trabalho todo o ano para a nossa equipa. 

Durante o período inicial da pandemia tiveram muitas quebras ao nível das vendas? 
Naturalmente. A quebra este ano foi de 40% face ao ano passado, sobretudo no mercado Portugal, o que para nós teve mais impacto. 

Nos meses de Verão sentiram alguma melhoria?
Não. Este foi um Verão muito fraco e não deu para recuperar. Naturalmente que houve um impacto inicial da pandemia, houve alguma animação em termos de dinâmica mas foi muito curto. Temos de ver o que o futuro nos reserva e é difícil neste momento ter uma perspectiva.

Ninguém sabe muito bem o que irá acontecer…
É muito difícil prever o que acontecerá. Sabemos que o nosso é um posicionamento premium. Sabemos que trabalhamos mais de 20 mercados de exportação para alta restauração e garrafeiras de referência por toda a Europa, Estados Unidos, Canadá, Brasil, Taiwan, Singapura ou Macau e, por isso, estamos em muitos mercados e tivemos o objectivo de abrir vários distribuidores em vários mercados. Foi, no fundo, uma forma de compensar as perdas e é o que continuamos a fazer, mas o público que consome vinho não desapareceu e o desafio é chegar até eles, uma vez que há uma diminuição significativa na restauração que é o nosso principal cliente.

Durante este período tiveram de abandonar algum projecto ou ideia que tinham em vista?
Nós estamos a concluir a obra da nossa nova adega que naturalmente teve um atraso porque, com tudo fechado, isso foi inevitável. Obviamente que também a redução de vendas está a obrigar a refazer os prazos de abertura total da unidade. Temos algum atraso mas estamos a fazer o que queríamos fazer e a planear.

Falando no panorama regional, como analisa o sector do vinho nos Açores?
Eu acho que os últimos 10 anos foram uma revolução, em particular os últimos cinco, no sector dos vinhos nos Açores. Acho que se fez muito, principalmente ao nível da qualidade do vinho e da notoriedade nacional e internacional. Por outro lado, há uma grande recuperação da área de vinha, particularmente na ilha do Pico, e isso também foi muito relevante e por isso é óptimo existirem muito novos produtores de uva e muita gente a recuperar vinhas. Isso criou uma dinâmica muito interessante no sector. Vejo é com alguma preocupação que existem poucos projectos de novos produtores de vinho. Há alguns novos, pequenos, mas perspectiva-se para os próximos anos algum desequilíbrio entre produção de uvas e produção de vinho. Estas vinhas todas quando começarem a produzir, a produção de uva será muito maior daquela que são, neste momento, a capacidade de produção de vinho. Os dois maiores players são claramente a Cooperativa e a Azores Wine Company e, nem um nem outro podem acomodar a produção toda da ilha do Pico por isso é essencial que aparecem novos projectos de vinhos. O desafio não é apenas produzir vinho, é também comercial. Não se pode pôr uma região nos ombros de 2 ou 3 players, por isso, apesar de irem aparecendo novos projectos, é preciso que surjam mais. 

Na sua opinião os apoios financeiros para o sector estão bem direccionados? Está satisfeito com o que está disponível?
É um sector apoiado, tal como são muitos outros sectores agrícolas, (bananas, ananás ou sector leiteiro,) por isso não há nenhum particular apoio ao sector que não exista para outros. Só nos últimos anos é que este sector passou a ter alguma relevância e passou a merecer uma aposta maior por parte do Governo que, pelo menos nesta primeira fase, foi rápido a agir com novas medidas de apoio a quem transforma. É importante que os produtores de vinho aguentem este embate. Sabemos que o vinho tem uma grande vantagem que é não se estragar e por isso é um bem que, até nos Açores e nos vinhos brancos que são a nossa maior produção, ganha com o tempo em garrafa. É preciso aguentar este embate e ter capacidade para aguentar os stocks e ter mais da nova vindima em casa. O Governo tem novos apoios à armazenagem e à comercialização que são essenciais para o sector. É natural que as medidas vão surgindo conforme o impacto da pandemia e desta crise vão acontecendo. Não há dúvida que o Governo tem estado atento e tem procurado envolver os produtores.

Há alguma medida que ainda não foi  implementada e que considere importante?
Penso que a medida estruturante mais importante para o futuro é eventualmente ter apoios específicos para a instalação de novos produtores de vinho. Insisto que esse é o único caminho possível para sustentar o crescimento do sector. Penso que esse é o desafio para o próximo quadro comunitário de apoio.                              

Luís Lobão

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Autor: CA

Categorias: Regional

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