Hélder Marques da Silva, no Dia Mundial do Turismo

“Temos de retroceder no turismo”

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Helder Marques da Silva - Nasci e cresci em Lisboa, há 63 anos, onde me licenciei em Biologia, ramo de especialização científica, tendo, em termos profissionais, passado pelo Museu do Mar (Cascais); leccionei no secundário no período 1979-1981; leccionei como assistente no Instituto Superior de Psicologia Aplicada e fui consultor na área da aquacultura na Fundação Friedrich Ebert que, na altura, (final dos anos 70, início dos anos 80) promoveu e apoiou o desenvolvimento desta actividade e da agricultura em Portugal. 
Vim para os Açores em 1982 tendo iniciado a carreira de investigador no Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores.
Para além disso dizer que sou divorciado, pai de 4 filhos, as mais velhas têm 36 e 30 e os dois mais novos 10 e 8 anos. Uma das minhas filhas é empresária em Lisboa e a outra segui-me as pisadas (e da mãe que é minha colega) e é investigadora em Londres.

Como se define a nível profissional?
Tive uma vida de trabalho bastante intenso, sujeita a inúmeras responsabilidades e momentos de alguma tensão, sobretudo ao longo dos cerca de 14 anos que passei na política, mas também dos anos em que assumi cargos de responsabilidade na Universidade dos Açores. Nos últimos meses, depois de deixar esses cargos, tenho mantido uma vida mais tranquila, centrada um pouco na leccionação e alguma investigação.

Que importância têm os amigos na sua vida?
Têm muita importância, mas devo dizer que privilegio cada vez mais a qualidade das amizades em detrimento da quantidade.

 Que sonhos alimentou em criança?
Em criança não me lembro de ter grandes sonhos. Vivia mais os pequenos objectivos do dia a dia, estudar, fazer os trabalhos, brincar. Agora, com o despontar da juventude, sim. Mas nessa altura 14- 15 anos eram sonhos muito pouco materialistas e mais sonhos e até utopias de transformação social. Vivíamos na altura o fascismo em Portugal e lembro-me que acompanhava e tinha como referência as social-democracias sueca de Olof Palm e alemã de Willie Brandt. Mas acompanhei também com interesse a revolução cultural em Cuba e essas outras revoluções que se deram em França e nos Estados Unidos (lembro-me de ver o Woodstock no cinema, já no início dos anos 70). Sonhava que um dia pudéssemos atingir esse nível de desenvolvimento e liberdade em Portugal. O 25 de Abril aconteceria pouco depois e os sonhos, nuns casos foram-se tornando realidade, mas noutros, mantiveram-se utopias por falta de concretização ao nível desejado. Refiro-me sobretudo ao desenvolvimento de Portugal que, não obstante avanços claros, teima em deixar-nos na cauda da Europa. Mas, sobretudo, entristece-me perceber o elevado nível de corrupção que existe em Portugal. Preferiria que fossemos pobres, mas honrados

Qual o seu clube de futebol?  
Sou do Benfica, sempre fui, mas confesso que a minha relação com o futebol é muito pouco emotiva. Talvez isso não seja uma grande qualidade e possa até ser entendido como um grande defeito, mas a verdade é que sou mais um homem de razões do que propriamente de emoções. Como alguns terão talvez percebido durante a minha passagem pela política.

O que mais o incomoda nos outros?
A competição excessiva. Não a competitividade dentro de limites razoáveis, mas aquela que atropela tudo e todos, a daqueles que para atingirem um qualquer objetivo são capazes de tudo. A nossa sociedade é cada vez mais guiada, desde a mais tenra idade, com o objetivo de se ser o melhor, o maior. Necessariamente estamos a alimentar uma sociedade frustrada. Uma coisa é pretendermos ser bons, no nosso trabalho, no desporto, ser bem-sucedidos na vida, outra diferente é pretender ser o melhor porque passa por passarmos a vida a olhar para o lado, para o vizinho, para o amigo, para o colega.

Como se relaciona com o manancial de informação que inunda as redes sociais?
Acompanho, até porque considero que se trata de algo fortemente impactante daquilo que é hoje a percepção da realidade, mas procuro manter o espírito crítico. Sei que a realidade das redes sociais é bastante distorcida. Utilizo sobretudo para partilhar umas fotos com os meus amigos, raramente de carácter pessoal. Por vezes também para passar uma mensagem que considero mais relevante. Fi-lo duas ou três vezes, a propósito da pandemia.
Gosta de viajar? Que viagem mais gostou de fazer?
Gosto, em lazer. Viajei bastante em trabalho, mas não é a mesma coisa. A viagem mais interessante foi, talvez, à América do Sul em 2005.
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Os seus gostos gastronómicos? E qual é o seu prato preferido?
Sou bastante eclético. Tanto gosto de um bom peixe fresco como de um bife, um cozido, um bacalhau. Neste momento, tenho feijão preto de molho para fazer uma feijoada à brasileira. Gosto, sobretudo no Verão de fazer uns gralhados na brasa. Adoro uma boa sardinhada.

Que notícia gostaria de encontrar amanhã no jornal?
A criação de um Governo Mundial. Acho que nunca precisámos tanto como agora de um nível de governação supranacional. Só assim conseguiremos resolver inúmeros problemas ambientais, doenças como a Covid-19, mas muitas outras aguardam avanços, algumas há décadas: o problema das migrações, o terrorismo, a fome, inúmeras guerras e tensões que crescem pelo mundo, a regulação da globalização excessiva a que temos assistido. Enfim, são inúmeros os problemas que se vão agudizando pelo mundo fora e que não vejo que possam ser resolvidos num quadro de governação apenas nacional, inclusive os independentismos que atravessam continentes julgo que teriam melhores soluções a nível supranacional. 

Qual a máxima que o/a inspira?
Acho que não sou muito dado a máximas.

Em que Época histórica gostaria de ter vivido?
Considero que, não obstante os problemas que temos acumulado, tenho vivido uma época das mais interessantes que a humanidade atravessou, embora, se pudesse, reescreveria a história destas duas últimas décadas. Acho que foi um período de enorme retrocesso.

Que impactos tem o desaparecimento da família tradicional numa sociedade insular como a açoriana?
Não sei. Penso que sabemos muito pouco sobre o impacto das enormes e rápidas transformações a que temos assistido na nossa sociedade, a todos os níveis, cultural, social, familiar, económico, ambiental … Esse é talvez um dos nossos grandes problemas, como vamos percebendo por exemplo ao nível ambiental e até ao nível da medicina, visível agora com esta pandemia. A acumulação de conhecimento é muito mais lenta do que as nossas próprias transformações. Em resultado, transformamos e manipulamos tudo à nossa volta e só mais tarde compreendemos os reais impactos da nossa ação. Dito isto devo reconhecer também que a organização familiar teve de se adaptar a todas essas transformações. A mulher hoje trabalha, ocupando em muitos casos lugares de destaque na nossa sociedade e o homem, crescentemente, partilha responsabilidades ao nível da gestão familiar. Penso que essas transformações, em si, são positivas, mas acabam por conduzir a transformações sociais e familiares profundas. Como as elevadas taxas de divórcio conduzem necessariamente também para uma organização familiar distinta. 

A relação entre pais e filhos é, quase sempre, foco de tensões. Que abordagens, em sua opinião, devem ser feitas?
Também não tenho, sinceramente, grande contributo que possa dar. Dirá, então, tem quatro filhos e não vislumbra uma solução para as tensões intergeracionais? Na verdade, penso que tenho tido muita sorte como pai, e sublinho sorte, porque, na verdade, fui um pai bastante ausente, fruto de diversas circunstâncias. Não recordo momentos de grande tensão com as minhas filhas mais velhas. Com os mais novos também não, mas reconheço que as idades mais problemáticas ainda não chegaram

O que pensa da política?
Tenho muita consideração pela política. Acho que é das actividades mais nobres que podemos desempenhar, de um enorme altruísmo.

Que opinião tem sobre os políticos?
Genericamente má, reconhecendo embora que existe muita gente boa e capaz. Tenho muita dificuldade em catalogar genericamente os políticos, acho que isso é um exercício espúrio, pouco sério. Mas as principais lideranças a nível mundial parecem-me francamente más. Estados Unidos, Brasil, Rússia, Inglaterra, Itália são, no meu entendimento, más lideranças. Isto para me ficar pelos países que nos são mais próximos, passando por cima de países como a Venezuela, Coreia do Norte, Filipinas, Síria e tantos outros. Em relação a Portugal vivemos tempos confusos, mas acho que temos a sorte de ter um bom Primeiro-ministro, embora rodeado de alguns fracos ministros. Temos algumas lideranças que, partidarites à parte, são ou capazes ou pelo menos aparentemente sérias, refiro-me concretamente ao PSD, BE, PCP, PAN. É o que nos vale nos tempos que atravessamos, mas tenho algumas dúvidas que nos valha por muito mais tempo. Sobre os políticos regionais prefiro, nesta altura e em proximidade de eleições, não me pronunciar.

A abstenção em eleições preocupa-o? Em que medida?
Sim, é um sinal de claro descrédito nos políticos. Penso que em grande parte as pessoas consideram que os políticos governam pouco, no sentido mais nobre do termo, e andam sobretudo ao sabor de lóbis e interesses instalados. Agravado pelos inúmeros processos judiciais envolvendo políticos. Isto até pode não ser totalmente assim mas é a perceção das pessoas.

Enquanto governante regional dedicou-se com paixão à pasta do Ambiente. O impacto da actividade humana no ambiente é uma preocupação crescente. E este impacto aumentou com os fluxos turísticos para os Açores. Preocupava-o a tendência de crescimento do turismo nos Açores antes da pandemia com a projecção de mais e mais hotéis e mais e mais alojamentos locais? Porquê? 
Sim, preocupava-me já e sobretudo por ver a Região ficar crescentemente nas mãos de um sector que, não obstante o aporte económico que tem trazido, é altamente volátil e muito suscetível às flutuações e crises económicas. É verdade que ninguém podia adivinhar esta pandemia, mas agora facilmente adivinhamos a próxima. Basta olhar para trás e ver a sucessão de epidemias que se observaram nas últimas décadas para perceber claramente que isto se pode repetir. Mas bastaria andar uns anos para trás para perceber a crise que vivemos de 2008 a 2013, sobretudo e o impacto desta no turismo. Menor, porque menor era a oferta. E isto é ainda mais preocupante porquanto este é um sector altamente subsidiado, a diversos níveis, que vão das infraestruturas e restauração, até ao transporte aéreo. Eu tenho sérias dúvidas sobre qual o balanço de tudo isto!

Este período de pandemia travou o turismo e está a levar as empresas proprietárias de unidades hoteleiras, de agências de viagens e de animação turística a situações económicas insustentáveis...  
Penso que sim e penso mais, acho que teremos de retroceder. Não teremos capacidade de manter tudo aberto à espera de melhores dias. Uma coisa é a resposta social, que deve ser garantida a quem perde o seu posto de trabalho, outra é esta intenção de manter tudo aberto até tudo voltar ao normal. Não sou um especialista económico, menos em turismo, nem tão pouco um epidemiologista, embora as bases de conhecimento que tenho da dinâmica de populações me permitam perceber o crescimento do vírus na população, mas considero que a normalidade que nos aguarda daqui por um, dois, três anos, será um novo normal, longe daquilo a que nos habituámos.
                             

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Autor: João Paz

Categorias: Regional

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