27 de setembro de 2020

Companhias de aviação têm que rever os meios de que dispõem

Com a retoma das atividades escolares na ordem do dia, é natural que muitas pessoas comecem a verbalizar um certo pensamento automático no sentido de estarmos a encaminhar-nos para um regresso à vida normal, mais ou menos nos termos em que decorria no início do corrente ano. Com efeito, quase toda a gente tem relações familiares ativas e, nessa rede, é visível a energia investida na reabertura das escolas: trata-se, afinal, de ocupar os nossos adolescentes e jovens, tanto na sua assimilação de conhecimento como no cultivar da sua malha de afetos, sendo certo que essas duas vertentes – saber e amizades – marcarão decididamente o rumo da vida de cada um dos nossos familiares que agora começa ou regressa às aulas.
Pois bem, essa ilusão de que está tudo a encaminhar-se para o regresso à normalidade, é isso mesmo, ilusória, precisamos que alguém nos vá dando, de vez em quando,um “puxão na manga” para o lembrar. Esta pandemia tem arrastado o mundo em que vivemos para as proximidades do abismo: a paragem, ou mesmo só a travagem, nos processos correntes de intercâmbios e trocas entre as populações, entre os países, ou entre as zonas económicas, levou as empresas e organizações a constatar, em pouco tempo, que estão a manter-se com dimensões e custos fixos que não têm correspondência na saída do seu produto, isto é, na sua aquisição e utilização por clientes que deixem, como contrapartida, outros valores de troca, designadamente de tesouraria, que permitam alimentar a continuidade do ciclo do intercâmbio, a que todos nós, em sociedade, fomos chamando negócios. Ou seja, dito de modo mais direto: há uma grande parte da economia que abrandou nestes meses. 
Quem tem responsabilidades de decisão, têm estado naturalmente a aguentar, a ver se surge algum impulso económico, ou alguma determinação política, que acelerem a retorno à normalidade. Mas, mesmo simplificando, convém lembrar que temos de olhar para os custos que as organizações vêm aguentando. E, entre eles, nem sempre o mais pesado é o relativo a pessoal, esse em que logo nos fixamos por ser muito perturbador como fator que mexe na estabilidade do emprego. Rapidamente se conclui que os bens das empresas que mais reclamam a atenção, por necessitarem de ver reduzidos os respetivos custos, são equipamentos subutilizados e sem perspetivas de ocupação significativa.
Olhando para as companhias de aviação portuguesas, é relativamente óbvio que, tanto a TAP como a SATA, por muito justificadas que tenham as suas missões e por muito que estejam a construir planos alternativos, estão há já algum tempo a repensar os seus planos de ativos, incluindo, naturalmente, pessoal que está subocupado, mas cujo custo não tem peso comparável com o de manter ou encomendar aeronaves. Não é agradável de verbalizar, mas não há como fechar os olhos: há “leasings”, seguros, estacionamentos e planos de manutenção a pesar muito nas contas das companhias de aviação, sem a contrapartida que lhes devia corresponder, ou seja, sem produção de receita. 
O mais preocupante é que existem estudos a concluir que as empresas devem olhar mais para a frente e interiorizar que, mesmo voltando-se a uma relativa normalidade, o negócio não vai ser como era há um ano, ou então, para sermos mais otimistas, vai levar muito tempo até se encaminhar para algum modelo que se possa comparar ao do ano passado. 
Não parece haver grandes alternativas: para se poder manter os postos de trabalho, mesmo com redução da sua produtividade, é indispensável analisar os ativos que cada empresa tem contratados e planear a sua redução através de devolução ao respetivo proprietário (lessor), admitindo que se trata de aviões ou outros equipamentos em sistema de renda (leasing). Os negócios que se mantiverem no período pós-pandemia, em especial os relacionados com o turismo, vão precisar de tempo para ir recuperando. E, por muito que se compreenda, se defenda e se justifiquem os apoios dos Estados às companhias de aviação, quase esmagadas pelo peso dos seus ativos e sem contrapartida nas receitas que a redução da atividade operacional minimiza, afigura-se inevitável que esses apoios sejam enquadrados em planos de adaptação dos meios disponíveis bem como das respetivas redes de negócios. Não estou a sugerir soluções, elas já foram pensadas certamente, falo para o leitor comum, para ajudar a divulgar que, por ora, não se prevê crescimento.
A atividade do transporte aéreo tem diversas implicações económicas e sociais que só ganham em ser ponderadas e discutidas nos vários fóruns na nossa vida comum. E para que as soluções saiam mais equilibradas, não bastam conversas generalistas nem mesmo acrescentadas por um facilitar do acesso ao crédito. São precisos planos e estratégias.
Mesmo as transportadoras que estavam a operar com lucros estão em vias de reavaliar a sua capacidade de oferta, uma vez que não é sustentável prolongar o trecho de tempo em que andam com baixa ocupação. Ora, muito mais se dirá das que, como a TAP ou a SATA, já vinham a precisar de rever um modelo que originava prejuízos significativos. Não há modo de adoçar a receita de alguns consultores que divulgam as suas “orientações” para ajudar as empresas de transporte aéreo a sobreviver aos efeitos da crise pandémica: não basta uma boa equipa de gestão, é indispensável uma revisão da capacidade de oferta.

José Adriano Ávila

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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