27 de setembro de 2020

Crónica da Madeira

Quintas da Madeira: onde a natureza explode e o silêncio reina

Ele sabia quanto era importante
para a formação dos jovens a existência
de um pequeno teatro na Madeira, por isso
nunca deixou de sonhar.

Morre aos 59 anos com um olhar preso
na linha do horizonte que da sua casa,
na Ribeira Brava, contemplava todas as 
manhãs. 
Ali deixou o seu testamento de ator
e os segredos que nunca contou. 

Naquela tarde primaveril sugeri ao Mário Trindade que fossemos à Quinta Favila tomar chá e comer os deliciosos doces que ali serviam. Trabalhávamos juntos. Tínhamos tido uma tarde de trabalho exausta. Longe de mim imaginar que aquela tarde assumiria um significado especial na minha vida: o encontro com a grande personagem das letras portuguesas – Maria Lamas. Um nome e uma pessoa que tanto inquietava a polícia secreta de Salazar – a pide – pelas suas ideias, no dizer deles, revolucionárias. Eram ideias inteligentes por quanto corajosamente gritavam liberdade e justiça social; fraternidade e solidariedade. 
Maria Lamas simpatizou comigo e foi a propósito da Quinta onde nos encontrávamo-nos que me disse viver na Madeira é uma coisa. Viver numa Quinta da Madeira é outra coisa completamente diferente. Esta afirmação fez-me entrar na realidade: As quintas madeirenses são pequenas “ilhas” dentro da ilha. Elas estão praticamente isoladas, com uma vivência própria. São casas solarengas, rodeadas de jardins, com vegetação executante. Era, no passado, o tipo preferencial de residência para os ingleses que demandavam à ilha. Ali criavam um ambiente tipicamente inglês. Ofereciam as suas receções, à tarde, nos jardins ou nas ditas Casas de Prazer serviam o “fiveo`clokTea” e à noite realizavam as danças de salão.
Com o decorrer dos anos, nada é estático, as famílias sem possibilidades financeiras de manterem as suas Quintas, transformaram-nas em pequenos hotéis de charme. Decorados com bom gosto, com mobiliário de inspiração inglesa, quadros a óleo e gravuras antigas nas paredes. Mesas de jogos e confortáveis maples por cima de tapetes persas. O primeiro madeirense que transformou a sua Quinta em alojamento para turistas foi Miguel Santa Clara Gomes, casado com a Senhora D. Manuela Favila Vieira. Um verdadeiro gentleman, culto, dominando à perfeição a língua inglesa. Ele, com a sua forma de ser e estar na vida, fez da Quinta da Ribeira um “Universo de simpatia e promoção da Madeira”. Por ali passaram nobres, escritores, poetas, artistas e cientistas. Um dia gerou-se uma grande confusão que pôs os jornalistas em desassossego. Correu a notícia de que a famosa atriz Betty Davis chegara à Madeira e estava ali hospedada. Os telefonemas não paravam. Tudo não passou de um equívoco. Na realidade uma turista inglesa com grandes semelhanças com a Betty Davis, explorando esse facto, pôs a cabeça dos jornalistas às voltas.
O meu primeiro e único encontro com a notável poetisa Fernanda de Castro, Mulher de António Ferro, foi na Quinta da Ribeira. Personalidade apaixonante pela sabedoria e conversação que muito me sensibilizou. Quando entrei num dos salões da esplêndida Quinta, Fernanda de Castro, vestida com uma blusa branca e um casaco de seda preto estava sentada num dos maples forrado com tecido de cretone às flores. Por detrás na mesa inglesa com um grande e artístico arranjo de orquídeas à frente de um espelho. Surpreendida ela sorriu apertando-me a mão. Ela julgava que fosse muito mais velho o jornalista que a vinha para entrevista-la. O nosso diálogo correu naturalmente. Falámos de poesia, de escritores portugueses e estrangeiros. Referiu-se, com simpatia, a Virgínia Wolf. Perguntou-me se já tinha lido os Melhores Contos Ingleses, os Franceses e os Italianos. Disse-lhe que o meu pai tinha essas séries em casa e que conhecia apenas alguns dos contos. Recomendou-me que os lesse. Salientou quanto estava a gostar da Madeira e que a calorosa hospitalidade dos donos da casa muito a sensibilizara.
Viemos depois para o jardim e aí brindamos à saúde e à vida com cálice de Boal, oferecido pelo proprietário da Quinta.
A segunda Quinta a ser adaptada a alojamento turístico foi a Quinta da Faliva. Um casal muito especial. Ele com uma cultura invulgar. Estudou medicina em Louvaina, na Bélgica. Ela uma senhora, bonita, das mulheres mais elegantes da Madeira, com requintado gosto e um extraordinário poder de iniciativa. Criaram dentro do Funchal uma verdadeira ilha onde imperava o conforto e o sentido de estética numa decoração que agradava a todos. Aníbal Trindade e a Senhora D. Germain M.... Trindade eram os anfitriões que recebiam, como ninguém, os seus hóspedes. Muitos deles, dada a calorosa hospitalidade, regressavam à ilha.
A Quinta da Favila rapidamente tornou-se numa referência do turismo e um ponto de encontro de personalidades de vários países. Numa das suas estadias na Madeira ficou ali hospedada a escritora Maria Lamas, grande amiga da família Trindade, uma das destacadas personalidades das letras portuguesas. Senhora distinta. Uma conversadora admirável, possuidora de uma cultura extraordinária. Muitas vezes desfrutei da sua companhia, nos aprazíveis jardins da Quinta Favila.
Aníbal Trindade deu ao turismo da Madeira um grande contributo, com as suas iniciativas. A ele fica-se a dever a construção dos Hotéis “Mimosa”, “Buganvilia” e “Estrelícia”, proporcionando com estes hotéis a vinda para a Madeira do Turismo escandinavo, rompendo assim com a tradição da habitual corrente turística da Inglaterra. Criou outras possibilidades, abrindo a Madeira a outros mercados. Neste projeto, como nos demais, a sua mulher, Senhora D. Germaine, deu uma grande colaboração.
A terceira Quinta foi a Sarmento, situada na rua dos ilhéus e pertencente a uma tradicional família madeirense, aparentada com distinto historiador Coronel Sarmento. Como as outras duas Quintas, esta primou 
 

Print

Categorias: Opinião

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima