Face a Face...! com a empresária Sónia Borges de Sousa

“Espero que não haja maiores absolutas nas próximas eleições legislativas regionais”

Correio dos Açores - Descreva os dados que o identificam perante os leitores! 
Sónia Borges de Sousa (empresária) - Presentemente julgo que a maioria dos leitores me identificará como o rosto da Associação de Revendedores de Combustível Açores, que, ao longo dos últimos 6 anos, tem por todas as formas exigido, quer transparência na composição e componentes do preço máximo de venda ao público, quer no fim dos impostos ilegais cobrados. Estive também envolvida nalguns projectos de solidariedade social. 

Fale-nos do seu percurso de vida no campo académico, profissional e social? 
Frequentei na Universidade dos Açores o curso de Gestão de Empresas e desde o terceiro ano do mesmo que comecei a leccionar as disciplinas de Economia, Contabilidade e Matemática. Nos últimos dois anos fui aluna, professora e mãe. A minha vida profissional começou aos 18 anos como balconista no Armazém Canadá, passando por uma curta experiência numa empresa do sector marítimo e no ensino, até ingressar no A.C.Cymbron, empresa familiar. Estive largos anos na Direcção da Câmara do Comércio e Indústria de Ponta Delgada, fiz um mandato como vereadora da Câmara Municipal de Ponta Delgada. 

Como se define a nível profissional? Julgo que justa, exigente e organizada. 

 Quais as suas responsabilidades? 
Hoje sou gestora e administradora do grupo empresarial. 

Que impactos tem o desaparecimento da família tradicional numa sociedade insular como a açoriana? 
O impacto é reduzido, o ser humano adapta-se com alguma facilidade às circunstâncias e os jovens são muito mais sábios a lidar com as “diferenças” do que as gerações anteriores. 

Como descreve a família de hoje e que espaço lhe reserva? 
A minha família materna não se enquadra no modelo de família tradicional já que os meus avós tiveram vários casamentos. Aprendi que as famílias se alargam não se reduzem. A minha família é o meu ninho, o meu colo, a minha prioridade.

A relação entre pais e filhos é, quase sempre, foco de tensões. Que abordagens, em sua opinião, devem ser feitas? 
Não há receitas para gerir relações entre pais e filhos. Hoje ouço os conselhos dos pais, incentivo os meus filhos a realizarem os seus sonhos, trato e exijo respeito pelo que são e desejam. 

Que importância tem os amigos na sua vida? 
Os meus amigos são os meus companheiros de lutas, projectos de percursos, nalguns casos irmãos que já não tenho.

Reformada, mas nem tanto? Que actividades gostas de desenvolver no seu dia-a-dia? 
Ler, reflectir, aprender, cozinhar, por vezes pintar. Tenho diversos animais e passo grandes momentos de prazer a brincar com eles. 

Vê televisão? Quais os canais que mais o atraem? 
Vejo pouca televisão, confesso. Contudo, ligo-a no programa mais tolo quando me deito e passados 10 minutos adormeço. 

Que sonhos alimentou em criança? 
Ainda na escola primária disse que gostaria de trabalhar com o meu pai, e na realidade gestão e economia foram a minha vocação. O sonho realizou-se. 

Qual o seu clube de futebol? É um adepta ferrenha?
Por ordem Académica de Coimbra, Santa Clara, Benfica. Gosto de um bom jogo mas não sou “doente”. 

O que mais o incomoda nos outros? 
A falsidade, mentira e maldade nomeadamente se dirigida a crianças, idosos, indefesos. 

Que características mais admira no sexo oposto? 
Em qualquer sexo a generosidade, a verdade e a lealdade 

Gosta de ler? Diga o nome de um livro de eleição? 
Gosto muito de ler: referencio três que me marcaram em períodos diferentes,” Meu pé de laranja lima”, “O profeta” e “Small is beautiful”. 

Como se relaciona com o manancial de informação que inunda as redes sociais? 
Seleciono, debato quando me interessa, ignoro quando o debate é estéril. 

Costuma ler jornais? 
Sim, logo de manha, quer regionais quer nacionais. 

Se desempenhasse um cargo governativo descreva uma das medidas que tomaria? 
Reduzir o peso do Governo na economia, terminar com a proliferação de empresas públicas, os subsídios a empresas falidas. Por contrapartida, promoveria o ensino, a investigação e voltaria à formação profissional de técnicos nas diversas áreas. 

Gosta de viajar? Que viagem mais gostou de fazer? 
Gosto de viajar com peso e medida. Patagónia ficou como a viagem de sonho. 

Quais são os seus gostos gastronómicos? E qual é o seu prato preferido?
 Adoro peixe, mas o prato favorito é arroz de pato da mãe, peixe thermidore e bolo real do Algarve. 

Que notícia gostaria de encontrar amanhã no jornal? 
Extinção da pobreza. 

Qual a máxima que o/a inspira?
Tente sempre ser e fazer melhor. 

Em que Época histórica gostaria de ter vivido? 
Na actual. 

O que pensa da política?
 A política é um conjunto de interesse pessoais ou restritos a sobreporem-se ao colectivo, ao invés de ser o inverso. 

Que opinião tem sobre os políticos? 
Actualmente não reconheço políticos de craveira. Talvez Angela Merkel, como estadista, ou, em termos nacionais, Laborinho Lúcio (ainda que hoje esteja afastado dos holofotes). Vivemos tempos em que se sobrepõem o populismo. Um político deve ser filósofo, sociólogo, pautar-se pela ética, verdade e verticalidade. 

A abstenção preocupa-a? 
Muito, assim como aumento dos votos brancos. Sou apologista que o peso dos votos brancos e abstenção deveriam levar a uma redução de deputados. 

Que perspectiva faz das próximas eleições legislativas regionais? 
Espero que não haja maiorias absolutas, creio que os tempos que se avizinham necessitam de ser geridos com muita cautela, com muita transparência, apostando na diversificação e em indústrias de ponta. 

Em sua opinião, estamos a caminhar para uma crise económica e social sem precedentes devido à Covid-19? Quem vai sentir mais esta crise? Porquê? 
Haverá uma grave crise económica e a população com menor grau de habilitações será a mais penalizada. Se houver fortes limitações à liberdade certamente surgirão fortes contestações e fragmentação da população. 

Que impacto teve e está a ter a pandemia na actividade do grupo empresarial que lidera? 
Tivemos quebras substanciais nalgumas áreas nomeadamente nas ligadas ao turismo atingindo os 70%, e nos combustíveis cerca de 25%. 

Houve uma redução no consumo de combustíveis nos últimos meses? E, nestas circunstâncias, os ganhos das gasolineiras baixaram até que níveis? 
As nossas margens são fixas, logo quanto menor as vendas menor os rendimentos de escala. As limitações impostas aos postos de abastecimento só pioraram o quadro. Após o período em que se terão que manter o nível de emprego face aos apoios recebidos, muitos irão reduzir os horários e quadro de pessoal. 

Este período de pandemia travou o turismo e está a levar as empresas proprietárias de unidades hoteleiras, de agências de viagens, renta-car e de animação turística a situações económicas insustentáveis. Devia-se ter pensado mais na volatilidade do turismo? Quer comentar? 
Medidas avulso, com regras a serem alteradas quinzenalmente, falta de divulgação e atropelos à lei não permitiram que houvesse grande retoma. O turismo interno não sustenta as empresas ligadas ao turismo. Os apoios obrigando a manterem um quadro de pessoal por 9 meses teria sido suficiente caso os efeitos da pandemia se resumissem a 3 meses. Temo que em Janeiro haja falências sucessivas. Não foi possível amealhar no Verão para mitigar o Inverno e uma segunda fase da pandemia. 

O impacto da actividade humana no ambiente é uma preocupação crescente. E este impacto aumentou com os fluxos turísticos para os Açores. Preocupava-a a tendência de crescimento do turismo nos Açores antes da pandemia com a projecção de mais e mais hotéis e mais e mais alojamentos locais? 
Não me preocupa, pois, aprendi na minha viagem à Patagónia que o turismo e a preservação do meio ambiente são perfeitamente compatíveis. Percorri toda a floresta, não existia lixo, não se comia, os locais para beber água estavam identificados, não se fumava. Quanto ao excesso de alojamentos locais sou mais critica pois descaracterizam os centros das vilas, as vivências e qualidade vida dos locais no seu dia-a-dia. 

Quer acrescentar algo que considere importante e interessante no âmbito desta entrevista? 
Gostaria de salientar que, quando os números de casos activos Covid aumentam, que mais importante do que criticar será precaver-se. Adopte as medidas obrigatórias e necessárias para se proteger e à sua família. Eu evito comer em restaurantes, mas tal não implica que os outros não o façam. Relembro ainda que sem economia não há saúde.
                                     

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Autor: João Paz

Categorias: Regional

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