29 de setembro de 2020

Milhões

As consequências da crise do covid-19 irão perdurar por muito tempo. Para as enfrentar virão alguns “milhões” da União Europeia para os Açores, que urge cuidar e gerir com eficácia. Seria avisado entregar o seu controlo e monitorização a uma entidade independente, nomeada pelo Parlamento Açoriano, de entre os cidadãos com provas dadas de honestidade, competência e de experiência vivida e bom senso cultivado. 
A comunicação social, irá ter um papel crucial no escrutínio e mediação entre os vários “poderes” em presença e o comum dos cidadãos, que desejarão saber como irão ser aplicados os 3250 milhões de euros de financiamento comunitário.
O actual momento pré-eleitoral indicia que alguns irão procurar capitalizar como trunfo de campanha a “avalanche de dinheiro” que aí vem. Manda o bom senso que se diga que tal posicionamento não vem augurar nada de bom. Para começo, e a confirmar-se, seria um mau sinal.
Os dinheiros públicos deverão ser aplicados com rigorosos critérios de modo a resolver problemas da sociedade no seu todo. O passado recente ensina que nem sempre foi este o caminho.  Obras “de regime” ou de afirmação de “poder pessoal” são de todo dispensáveis.
 Faz sentido o sábio aforismo popular, mais vale prevenir do que remediar, quando estamos a tratar de muito dinheiro. Ter presente, igualmente, a habitual frase que “ não há almoços grátis”. A factura a cobrar “segue dentro de momentos”, razão para aplicá-lo com critério e racionalidade.
Tal como em 1974, em 2020 os Açores voltam a reencontrar a história, com desafiantes opções que têm de ser ponderadas, nomeadamente qual o melhor sistema no quadro dum Estado de Direito Democrático e Social, que melhor serve os Açores e o seu Povo Soberano, sem peias de submissão colonial centralizadora e dominadora.
Assim as actuais lideranças públicas e privadas estejam à altura de tão desafiante desígnio, e não se deixem enredar em interesses corporativos ou de classe. Haja visão e se consiga ir para além “da espuma dos dias” e da conjuntura tacticista, prejudicando a projecção estrutural e o planeamento estratégico de médio e longo prazo.
As gerações futuras de açorianos merecem e justamente esperam, que seja essa a postura dos que agora têm a enorme responsabilidade de tomar as decisões certas.
Como foi do conhecimento público discutiu-se recentemente em Lisboa a “visão estratégica para o plano de recuperação 2020/2030”, documento elaborado, a pedido do governo central, pelo gestor e consultor Professor Costa Silva.
Uma parte desse trabalho refere-se aos Açores e às suas potencialidades nomeadamente as decorrentes da sua zona económica exclusiva. Já há algum tempo que esclarecidos estudiosos açorianos, nomeadamente prestigiados académicos da nossa Universidade, têm vindo a enfatizar muitas das posições propostas.
Espera-se que os representantes açorianos presentes no respectivo fórum tenham tirado boa nota, e que consigam replicar nos Açores idêntica visão, para que a aplicação dos “milhões” tenham a sustentar um plano de recuperação, com a necessária adaptação à nossa realidade marítima e arquipelágica, sem prejuízo das “250 medidas” já anunciadas pelo actual governo açoriano.
Espera-se que os centralistas e defensores da tese que os Açores são apenas um sorvedouro de dinheiros públicos sem qualquer retorno, mudem de argumentos e que abandonem os velhos “tiques” coloniais de tratarem as “ilhas adjacentes” como duma possessão se tratasse.
Desde as vantagens da localização dos Açores para os estudos do Atlântico, do clima, da interacção entre a terra e a atmosfera até ao relevante papel que a Universidade dos Açores tem vindo a desenvolver nas ciências do mar e na vulcanologia, e bem assim a promoção da investigação oceanográfica e climatológica, foram, entre outras, algumas das potencialidades salientadas no estudo.
Relevante, igualmente, foi a proposta para uma Universidade do Atlântico nos Açores e a interacção e integração na Academia Açoriana que poderia ver o seu papel de centro de investigação de excelência, reforçado, e assim atrair financiamento de muitos parceiros internacionais, pois os resultados poderiam vir a interessar não só a países como a muitas empresas. 
Nos Açores é justo salientar o desempenho de excelência do ensino profissional e tecnológico, reconhecido e premiado, a quem devem ser alocadas verbas para que reforçam os seus recursos humanos e financeiros, de modo a continuarem no pelotão da frente da transição para o digital.   
Desafiam-se os partidos concorrentes nas próximas eleições, a colocarem nas suas agendas, o que pensam sobre estas matérias, cruciais para o nosso devir colectivo.  
Os Açores são importantes. Foi a globalização e o digital, que permitiu a descoberta deste novo paradigma, daí a urgência dos açorianos não se resignarem em serem apenas uma grande autarquia da metrópole centralista. 
O projecto de autonomia concedida, já lá vão quatro décadas, esgotou-se, daí a premência de voltar a discutir-se novas formas de auto-governo, que podem ir do federalismo à autodeterminação. 
Ganhavam os Açores, mas acima de tudo ganhava Portugal e a União Europeia, da qual os Açores pretendem continuar a fazer parte, com iguais poderes de discussão e negociação, como potência atlântica que são.  

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Categorias: Opinião

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