30 de setembro de 2020

Crónica da Madeira

Quintas da Madeira: onde a natureza explode e o silêncio reina

São os jardins românticos
que rodeiam as casas solarengas
que fazem das Quintas madeirenses
“ilhas” dentro da ilha

Maria Lamas disse-me: Viver na Madeira
é uma coisa. Viver numa quinta da Madeira
é outra coisa completamente diferente 


Naquela tarde primaveril sugeri ao Mário Trindade que fossemos à Quinta Favila tomar chá e comer os deliciosos doces que ali serviam. Trabalhávamos juntos. Tínhamos tido uma tarde de trabalho exausta. Longe de mim imaginar que aquela tarde assumiria um significado especial na minha vida: o encontro com a grande personagem das letras portuguesas – Maria Lamas. Um nome e uma pessoa que tanto inquietavam a polícia secreta de Salazar – a pide – pelas suas ideias, no dizer deles, revolucionárias. Eram ideias inteligentes por quanto corajosamente gritavam liberdade e justiça social; fraternidade e solidariedade. 
Maria Lamas simpatizou comigo e foi a propósito da Quinta onde nos encontrávamo-nos que me disse: “viver na Madeira é uma coisa. Viver numa Quinta da Madeira é outra coisa completamente diferente”. Esta afirmação fez-me entrar na realidade: As quintas madeirenses são pequenas “ilhas” dentro da ilha. Elas estão praticamente isoladas, com uma vivência própria. São casas solarengas, rodeadas de jardins, com vegetação exuberante. Era, no passado, o tipo preferencial de residência para os ingleses que demandavam a ilha. Ali criavam um ambiente tipicamente inglês. Ofereciam as suas receções, à tarde, nos jardins ou nas ditas Casinhas de Prazer (jardins de inverno) serviam o “fiveo`clocktea” e à noite, realizavam as danças de salão.
Com o decorrer dos anos, nada é estático, as famílias sem possibilidades financeiras de manterem as suas Quintas, transformaram-nas em pequenos hotéis de charme. Decorados com bom gosto, com mobiliário de inspiração inglesa, quadros a óleo e gravuras antigas nas paredes. Mesas de jogos e confortáveis maples por cima de tapetes persas. O primeiro madeirense que transformou a sua Quinta em alojamento para turistas foi Miguel Santa Clara Gomes, casado com a Senhora D. Manuela Favila Vieira. Um verdadeiro gentleman, culto, dominando à perfeição a língua inglesa. Ele, com a sua forma de ser e estar na vida, fez da Quinta da Ribeira um “Universo de simpatia e promoção da Madeira”. Por ali passaram nobres, escritores, poetas, artistas e cientistas. Um dia gerou-se uma grande confusão que pôs os jornalistas em desassossego. Correu a notícia de que a famosa atriz Betty Davis chegara à Madeira e estava ali hospedada. Os telefonemas não pararam. Tudo não passou de um equívoco. Na realidade uma turista inglesa com grandes semelhanças com a Betty Davis, explorando esse facto, pôs a cabeça dos jornalistas às voltas.
O meu primeiro e único encontro com a notável poetiza Fernanda de Castro, Mulher de António Ferro, foi na Quinta da Ribeira. Personalidade apaixonante pela sabedoria e conversação que muito me sensibilizou. Quando entrei num dos salões da esplendida Quinta, Fernanda de Castro, vestida com uma blusa branca e um casaco de seda preto estava sentada num dos maples forrado com tecido de cretone às flores. Por detrás uma mesa inglesa com um grande e artístico arranjo de orquídeas à frente de um grande espelho, com moldura dourada. Surpreendida ela sorriu apertando-me a mão. Ela julgava que fosse muito mais velho o jornalista que a vinha para entrevistá-la. O nosso diálogo correu muito naturalmente. Falámos de poesia, de escritores portugueses e estrangeiros. Referiu-se, com simpatia, a Virgínia Wolf. Perguntou-me se já tinha lido os Melhores Contos Ingleses, os Franceses e os Italianos. Disse-lhe que o meu pai tinha essas séries em casa e que conhecia apenas alguns dos contos. Recomendou-me que os lesse. Salientou quanto estava a gostar da Madeira e que a calorosa hospitalidade dos donos da casa muito a sensibilizara.
Viemos depois para o jardim e aí brindamos à saúde e à vida com cálice de Boal, oferecido pelo proprietário da Quinta.

A segunda Quinta a ser adaptada a alojamento turístico foi a Quinta da Faliva. Um casal muito especial. Ele com uma cultura invulgar. Estudou medicina em Louvaina, na Bélgica. Ela uma senhora, bonita, das mulheres mais elegantes da Madeira, com requintado gosto e um extraordinário poder de iniciativa. Criaram dentro do Funchal uma verdadeira ilha onde imperava o conforto e o sentido de estética numa decoração que agradava a todos. Aníbal Trindade e a Senhora D. GermainMammerikx Trindade eram os anfitriões que recebiam, como ninguém, os seus hóspedes. Muitos deles, dada a calorosa hospitalidade, regressavam à ilha e ali novamente se hospedavam.
A Quinta da Favila rapidamente tornou-se numa referência do turismo e um ponto de encontro de personalidades de vários países. Numa das suas estadias na Madeira ali se hospedou a escritora Maria Lamas, grande amiga da família Trindade, uma das destacadas personalidades das letras portuguesas. Senhora distinta. Uma conversadora admirável, possuidora de uma cultura extraordinária. Muitas vezes disfrutei da sua companhia, nos aprazíveis jardins da Quinta Favila.
Aníbal Trindade deu ao turismo da Madeira um grande contributo, com as suas iniciativas. A ele fica-se a dever a construção dos Hotéis “Mimosa”, “Buganvilia” e “Estrelícia”, proporcionando com estes hotéis a vinda para a Madeira do turismo escandinavo, rompendo assim com a tradição da habitual corrente turística da Inglaterra. Criou outras possibilidades, abrindo a Madeira a outros mercados. Neste projeto, como nos demais, a sua mulher, Senhora D. GermaineMammerikx Trindade, deu uma grande colaboração.
A terceira Quinta foi a Sarmento, situada na rua dos ilhéus e pertencente a uma tradicional família madeirense, aparentada com distinto historiador Coronel Sarmento. Como as outras duas Quintas, esta primou igualmente pelo conforto e bom gosto. Tal como as outras, a decoração tinha toque de artista, com grande sensibilidade e sentido de estética. O ambiente que ali se respirava era convidativo para um regresso à Madeira. Os donos da quinta desfaziam-se em amabilidades, rodeando os seus hóspedes de muitas atenções. A família Sarmento com a abertura da sua quinta, contribuiu para um segmento de mercado diferente e enriqueceu o turismo madeirense. Hoje a Quinta da Ribeira é a Pousada da Juventude, a Quinta Favila, foi destruída para ali erguerem um pequeno monstro de apartamentos. A Quinta Sarmento deixou de ser alojamento turístico.
Depois surgiram outras Quintas, não tinham o mesmo requinte. Era uma filosofia diferente sem, contudo, perderem o encanto e o romantismo dos jardins.
Um casal amigo, Andreia e Márcio, dois jovens com iniciativa, compraram no ano passado uma quinta, na pitoresca freguesia da Camacha. Terra de cantares e danças, famosa pelo seu grupo folclórico, o primeiro criado na Região, há muitos anos. A Camacha é conhecida também pelas suas Quintas, todas elas com histórias para contar. Não distante do Funchal eles abriram as portas da Quinta para alojamento a turistas e madeirenses. Na verdade, nada é mais recomendável do que gozar um fim-de-semana (porque não uma semana) nesta paradisíaca Quinta, cuja casa solarenga, abraçada por árvores seculares e camélias floridas é o remédio santo para matar o stress daqueles que numa correria constante, sem tempo sequer para pensarem que a morte existe, encalham no cansaço só recompensado com o merecido descanso...
A Quinta da Moscadinha proporciona, com a sua vegetação exuberante e um silêncio diáfano, a paz e o sossego necessários para umas férias. Alguns funchalenses e estrangeiros já gozaram deste ambiente aprazível. A convite dos meus amigos passei grande parte da tarde de domingo por entre o arvoredo fabuloso espalhado por toda a propriedade, com canteiros de urze, assentes no empedrado antiguíssimo que circunda a casa pintada de amarelo com barras e molduras das janelas de cor vermelha. Estava uma tarde de sol. Sentei-me por debaixo das árvores. O que avistava, dali, coberto pelo silêncio, era um autêntico quadro, predominantemente romântico. Um panorama, com uma casa cor-de-rosa ao fundo, que fazia sobressair ainda mais as diferentes tonalidades de verde. Um quadro digno de Max Romer, o pintor alemão que se fixando na Madeira, com a mulher e a filha, amou-a, porque a compreendeu, pintando milhares de aguarelas e óleos que hoje decoram as paredes de muitas casas madeirenses e estrangeiras.
O almoço foi servido, no patamar empedrado, em frente à casa. Uma mesa para 14 convidados. Um menu bem regional, sopa de trigo rica pela qualidade de ingredientes que levava, acompanhada com pão caseiro. Uma verdadeira delícia, repetida duas e três vezes o prato, pelos convidados, tal era o seu sabor.
Desfrutando destes momentos de silêncio encontrei espaço para meditar: realmente as quintas são “ilhas” dentro da ilha. Por tudo o que elas oferecem; pelo ambiente que se vive. Na mesa perto da minha, estavam duas senhoras do Quénia que vieram apenas para passar dois dias na Madeira, na Quinta da Moscadinha. Reservaram já o seu regresso no próximo ano.
Desejo à Andreia e ao Márcio as maiores felicidades para este novo projeto. Estou certo de que se imprimirem a qualidade nos serviços terão muito êxito.

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Categorias: Opinião

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