O adeus da Academia das Expressões

Academia das Expressões anuncia o fim de um projecto único em Portugal

Depois de cinco anos de funcionamento, a Academia das Expressões anunciou oficialmente o encerramento desta escola de formação artística, levando a que João Paulo Costa e Paula Cristina Marques recebessem inúmeras mensagens de apoio e de gratidão por todas as oportunidades que foram geradas por este projecto privado.
Apesar de todo o esforço feito ao longo dos anos, uma vez que este foi – desde o seu início – um projecto que contou apenas com o capital próprio dos empresários, a falta de apoio proveniente de entidades públicas locais e regionais terá também motivado o encerramento da Academia, por onde passaram cerca de 1.800 alunos.
Ainda assim, por nunca ter deixado de acreditar neste sonho (algo que ainda hoje se mantém), João Paulo Costa admite ter colocado o edifício da Academia das Expressões à venda na esperança de a salvar, venda esta que ainda não conseguiu concretizar.
No início do ano lectivo passado, conta, o Governo Regional preparava-se para adquirir os serviços desta escola de formação artística. No entanto, com a chegada da pandemia, chegou também o telefonema que viria a deitar por terra esta intenção, dificultando de novo o caminho destes empresários que, apesar de tudo, tentaram que este fosse um negócio o mais sustentável possível.

 (Correio dos Açores) A Academia das Expressões viria a abrir no ano de 2015. O que o motivou a iniciar este projecto?
(João Paulo Costa, responsável pela Academia das Expressões) Este foi um projecto que veio ao encontro de uma falta que existia na nossa Região dentro do ensino não formal e do ensino artístico. Na minha formação académica e artística notei que havia pessoas que não se identificavam a 100% com o ensino técnico e formal dentro das valências mais práticas, dentro da música erudita e de outras áreas artísticas.
Após o meu crescimento artístico vi que havia a necessidade de abrir um projecto que acolhesse outro tipo de público, não só como consumidores do mundo artístico mas também como artistas, para crescerem e terem uma componente sempre genuína e não tão formatada.
A partir de 2015, mal se deu início ao projecto, a aceitação foi fantástica e correu muito, muito bem. Escolhemos quatro escolaridades do mundo artístico para desenvolver: expressão plástica, expressão musical, dramática e corporal, e dentro de cada valência havia alguns ateliês mais focados para algumas áreas de acordo com as necessidades da nossa população.

Este foi um investimento feito apenas por sua conta e risco. Como foram os últimos cinco anos?
Todo o investimento na Academia das Expressões foi feito pela minha família, foi um investimento privado porque acreditámos num projecto que era de interesse regional, e a aquisição, as obras e a aquisição de instrumentos e materiais foi feita com investimento privado.
Depois da estrutura montada e de mostrar realmente que havia uma grande afluência e uma grande aceitação da comunidade em geral, nós tentámos vender o projecto de forma sustentável, porque ao longo destes últimos três anos tivemos sempre que injectar capital próprio para que o projecto tivesse continuidade.
Fomos sempre, ao longo destes anos, solicitando a abertura das entidades públicas locais e regionais de forma a adquirirem os nossos serviços e mostrar que as artes também têm direito a um mercado transparente. Isto é, não serem apenas subsídio-dependentes mas poderem vender os seus serviços de forma mais empresarial.

Mas acredita que existem poucos apoios para a área da cultura e das artes?
A meu ver, enquanto houver aquele sentido de um apoio, de ser dependente de subsídios, e não haver a compra do serviço artístico, esta acaba por ser uma área sempre muito frágil. 
Ou seja, acaba por haver subsídios para áreas muito específicas, e quem acaba por fugir um pouco daqueles que são os padrões de candidatura, condicionadas pelos decretos-lei do Governo Regional, acabam por nunca ter acesso a estes tipos de apoio e acaba por não haver algo de diferente, uma linguagem ou uma abordagem diferente nesse modelo artístico.
Se houvesse sempre essa componente de as pessoas poderem vender os seus serviços, seria melhor para ambas as partes, quer para os artistas como para quem os compra.

Antes de optar pelo encerramento da Academia das Expressões tentou vender o imóvel onde este projecto nasceu. O que o motivou a isso?
Aquele edifício foi algo que surgiu também com a magia da Academia das Expressões. Foi um edifício que foi recuperado com muito cuidado e com muita sensibilidade para não perder aquilo que é o nosso património arquitectónico e aquilo que o próprio edifício contava.
Tivemos muito cuidado na reparação do mesmo para que quem usufruísse do espaço sentisse esta presença na história, para que fosse um espaço diferente e não apenas um armazém ou uma sala quadrada que servisse apenas para formação, mas sentimos que não havia forma de subsistência, porque não conseguíamos ir buscar outra fonte de rendimento sem ser os alunos e algumas instituições privadas que colaboravam connosco, como é o caso do Colégio do Castanheiro e da Casa de Saúde de Nossa Senhora da Conceição.

Tentou, entretanto, encontrar outro espaço para a Academia das Expressões?
Sim, a primeira vez que colocámos o imóvel à venda foi de forma a arranjar um novo espaço. Mas não conseguimos vendê-lo pelo valor pretendido, considerando também que estávamos em altura de pandemia, então tentamos agora que seja vendido pelo valor de aquisição e das obras. Ou seja, não haverá qualquer tipo de retorno financeiro com a venda do imóvel.
Ao ser vendido ao preço de custo não temos a capacidade para reinvestir num novo projecto.

Sentiu-se desacompanhado?
Nos últimos contactos que fiz com as instituições públicas locais e regionais, a dizer que estávamos aflitos e que o projecto estava em causa, não tive qualquer tipo de resposta. Isso mostra que, realmente, na altura de pandemia este projecto não era prioritário, e se calhar foi isso que nos afectou também.
(…) No início do passado ano lectivo, houve uma reunião com o Governo Regional que teve a intenção de adquirir os serviços da Academia das Expressões. No entanto, quando surgiu a pandemia, recebemos um telefonema a dizer que a intenção de colaborar connosco não era possível.
Magoa muito, porque acaba por ser um investimento privado na formação da população em geral. Era muito mais fácil comprar os serviços do que estar a reinventá-los mais tarde, e se calhar é isso que vai acabar por acontecer.
Estamos a tentar mostrar às entidades públicas regionais e locais que era necessário colaborarem connosco desde a abertura da Academia, e na primeira abordagem que tivemos em 2015 foi que o Governo não entrava em parcerias com entidades, e entendo isso devido ao CAE.

Acha que o Governo Regional tem noção do impacto que isto pode ter na forma de viver a cultura nos Açores?
Sinceramente não sei. Eu percebo que o Governo acabe por ter directrizes muito bem definidas, ou seja, acaba por olhar para um vector muito mais conservador e mais unilateral.
Este é um projecto tão diferente e que foge completamente aos padrões, e se calhar o próprio governo e as entidades públicas locais e regionais viram-no como “uma brincadeira” de jovens e adultos que estão ali apenas para descontrair, esquecendo-se um bocado de que a parte das emoções é muito importante para garantir o equilíbrio do ser humano, e era esse o trabalho que fazíamos.
Nós adaptávamos toda a componente formativa às necessidades e capacidades de cada indivíduo. Não tínhamos pacotes formativos iguais para todos os alunos, isto estava completamente fora do nosso sistema de ensino.
De acordo com as capacidades de cada um, os formadores adaptavam as suas ferramentas para atingir os seus objectivos artísticos, e acredito que isso tenha feito um bocadinho de confusão, e daí o Governo ter desacreditado o projecto da Academia das Expressões.

Depois de cinco anos de funcionamento, como reagiram as pessoas à notícia do encerramento?
Os primeiros sinais que tivemos com a interrupção da Academia das Expressões e do encerramento da mesma foi o feedback dos alunos. Os alunos ligaram a chorar e a dizer que este era o único sítio em que eram aceites e onde podiam ser genuínos e únicos.
Agora estes alunos têm que beber aquilo que os outros querem. Acabaram por se sentir completamente despidos, e foram crianças, jovens adultos e adultos que telefonaram a agradecer e isso aí mexeu muito com a minha parte emocional, porque realmente o impacto da academia foi muito grande. 
Não tinha essa consciência ou noção, e mesmo em termos de feedback no Facebook, nos nossos telemóveis e no nosso e-mail, sentimos o carinho de todos.
E não só daqueles que estavam directamente ligados à academia, mas também daqueles que estavam mais ausentes. 
Foi fantástico ver o impacto que a academia teve na população açoriana e o quanto a população se sente lesada pelo projecto ter sido encerrado, porque era um serviço de utilidade pública bastante importante para jovens, crianças e adultos.

De que forma a pandemia foi decisiva, ou não, para o encerramento da Academia das Expressões?
O que a pandemia nos trouxe foi algo de muito interessante, que veio mostrar que temos um trabalho muito importante. Durante o período em que as pessoas estiveram fechadas em casa fizemos várias acções online de forma a mantermos alguma ocupação para crianças, jovens e adultos, e realmente foram todos concretizados com bastante sucesso.
A pandemia não mexeu com o negócio em si, mas talvez tenha feito com que algumas possibilidades que tínhamos de sobrevivência falhassem, nomeadamente o facto de as entidades públicas locais e regionais terem dado importância a outros factores da formação artística.

Ao longo destes últimos cinco anos faz ideia de quantos alunos/artistas passaram pela Academia das Expressões?
O registo de inscritos na nossa plataforma indica um total de 1.800 alunos que passaram pela Academia, fora aqueles que eram consumidores de actividades esporádicas.

A Academia das Expressões era também conhecida pela sua vertente gastronómica, na figura do Sweet Cup. Pensa manter esta parte do projecto activa?
A parte gastronómica vamos tentar manter porque também era um projecto bastante atípico dentro da cozinha criativa. Vamos tentar reabrir noutro espaço, tendo em consideração que o edifício está à venda e já não poderá ter o efeito que servia.

Para si, qual foi o ponto mais alto nestes últimos cinco anos?
O ponto mais alto foi ver o sorriso, a alegria e a esperança no rosto das pessoas. Ou seja, a transformação que tivemos ao fazer as pessoas acreditarem sempre em si próprias. 
Muitas pessoas que acabavam por ter algumas dúvidas de si próprias acabaram por mudar completamente. Esta era mesmo uma casa de gente feliz, e quem entrava naquele espaço sentia isso.

“Deixar adormecer um sonho é sepultar um talento” é uma frase muito citada por aqueles que foram marcados pela Academia das Expressões, sente que está a sepultar um sonho?
Muitas vezes temos um sonho e acabamos por não acreditar nele e por sepultar aquele que poderia transformar-se num grande talento. Acreditei e continuo a acreditar no projecto, não fui eu que fiz com que este sonho fosse sepultado, de forma alguma.
Ganhei muito mais do que aquilo que estou a perder, sem sombra de dúvidas. Tenho o coração cheio de pessoas, de momentos e de alegrias que consegui obter durante todos estes anos em que a Academia esteve em funcionamento, e também acredito que todos aqueles que por ali passaram ganharam muito.
Infelizmente, quem irá perder muito serão aqueles que não tiveram sequer a oportunidade de ter esta experiência, isso é muito triste.
 

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