3 de outubro de 2020

A talho de foice…

A ilha

A ilha, esse pedaço de terra rodeado por água por todos os lados. É aqui no meio do nada, que nascemos, crescemos e constituímos família. Criamos amizades, brincamos, estudamos, trabalhamos. Viver na ilha, torna-nos pessoas diferentes, obrigados a olhar para dentro, porque, para fora é só mar, e este apenas serve de descanso e consolo nos dias de maior fadiga, embora seja também o sustento de muitas famílias e até em alguns casos, de cruel e assassino, mas é na ilha que nós nos sentimos seguros. Assento sobre o basalto, erguemos as nossas casas, e as videiras que, por entre os socalcos brotam frutos, onde o sabor é acentuado pelo calor dos muros de pedra solta. Ser ilhéu, é mais do que uma virtude, é um teste à capacidade de resiliência, da coragem e da imaginação. Este isolamento, que por vezes é longo demais, acentua a cor da pele e redefine as rugas, embora a alma seja jovem, sente-se o peso do corpo mais cedo. É difícil compreender um ilhéu, mas é fácil aceitá-lo na nossa vida e fazer parte dela, tornando-nos também ilhéus. A rigorosidade do tempo, que tantas vezes fustiga a ilha, torna-nos mais forte e apenas temerosos de Deus, nem mesmo com a terra a tremer, somos capazes de a abandonar, embora sejamos caminhantes, dos pés brotam raízes, que perfuram o solo rochoso e que se fixam na eternidade. Mesmo aqueles, que um dia por necessidade ou aventura foram para terras novas, em busca de melhor conforto ou de riqueza, tendem voltar à ilha, para que nela possam repousar e desfrutar do vento, do nevoeiro, do cheiro do mar e deliciar o olhar nas nuvens, que são únicas e só existem aqui, na ilha. As privações de que somos alvo pelo facto de sermos ilhéus, são desmerecidas. Ser regedor numa terra como esta não é de todo tarefa fácil, tendo como agravante a sua geografia. São nove bocas a quererem ser alimentadas, todas filhas da autonomia, embora o pai seja uma incógnita, a mãe permanece fiel, no carinho e na atenção, tentando que todos os seus filhos crescem saudáveis e na equidade. As nove ilhas, embora não sejam gémeos, são todas fruto do mesmo parto, dificultando o desenvolvimento paralelo, porque nem sempre o mais gordo é o que mais come. Mas as ilhas são assim, um conjunto de cores, sabores, aromas e de modos de falar, que engrandece esta família chamada Açores. Há, portanto, que as preservar, salvaguardar das terríveis mudanças comportamentais e ambientais de que o mundo atravessa, para que um dia, cada ilhéu, sinta ainda mais orgulho em fazer parte desta história e que outros, por inveja ou por opção queiram aqui nascer ou morrer, para poderem sentir a emoção de ser filho do mar e da terra. Cada filho desta mãe, mesmo que na sua diferença, deverá contribuir para o sucesso desta empreitada, valorizando o que é seu, defendo o que é dos outros e salvaguardo o que é de todos. Cada ilhéu ao nascer, é abençoado pela virtude da humildade, que sendo igual ao próximo, torna-se numa pessoa melhor. Na imparcialidade e disciplina, defenderá as causas nobres da sua terra e das suas gentes com dedicação e moderação, mantendo o equilíbrio entre os direitos e deveres. Pela intuição, compaixão, e consciência, haverá uma saudável adaptação às novas realidades para que seja possível a realização dos sonhos. Através da escolha certa, na união e no amor, seja o desejo, um saudável desafio, que pelas transformações não seja o destino, uma mudança, mais sim um sucesso, rico em prosperidade e felicidade. Confiante no instinto, a paixão e a sedução, que não se traduza em egoísmo, porque só assim a concretização do sonho, pela força de vontade, e da inteligência será um sucesso. Reconhecidos pela valentia e paciência, de que os ilhéus são dotados, viverão na ilha, não como um castigo, mas sim uma dádiva de Deus.
 

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Categorias: Opinião

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