3 de outubro de 2020

Cesto da Gávea

Universidade e webinaridade

Na passada terça-feira, 29 de setembro deste ano covidiano, o Conselho Estratégico Nacional do PSD organizou mais um webinar, uma conferência online subordinada ao tema Ensino Superior, Ciência e Tecnologia. Moderado pela Profª. Catedrática Graça Carvalho, Deputada ao Parlamento Europeu e ex-Ministra do Ensino Superior (XV e XVI Governos Constitucionais) o painel de luxo contou com mais 3 Profs. Catedráticos de gabarito: António Fidalgo, Reitor da  UBI-Universidade da Beira Interior; o açoriano Carlos Salema, nascido em Ponta Delgada, atual Presidente da Academia das Ciências de Lisboa;e José Tribolet, Presidente e Fundador do INESC/Tec. Conhecendo o valor dos Colegas do webinar, foi com curiosidade e atenção que acompanhei o debate, do qual recolhi valiosa informação que não resisto a partilhar com os nossos leitores, porque se ser português é estar atento, ser açoriano, é sê-lo duplamente.

Dos anos em que Graça Carvalho foi Diretora Geral do GRICES-Gabinete de Relações Internacionais do Ensino Superior, lembro as conversas que tínhamos sobre a necessidade de Portugal dispor de um estatuto de estudante internacional, assunto que era quase tabu para os governantes de então. Foi uma luta persistente, que só terminou quando o Governo PSD de Passos Coelho, com o Prof. Nuno Crato como Ministro, publicou em 4 de Março de 2014 o ambicionado Estatuto. Entretanto, perderam-se milhares de oportunidades de ingresso de estudantes estrangeiros nas nossas universidades e politécnicos, incluindo na Universidade dos Açores. Das missões exploratórias que fizemos aos Estados Unidos, Brasil, Canadá, Angola e Bermudas, recordo esta última, realizada em Março de 2003, quando propusemos ao Bermuda College um acordo de cooperação. Aquele College só dava os 2 primeiros anos universitários (AssociateDegree), enviando os estudantes para os EUA, onde completavam o Bachellor Degree, equivalente à licenciatura. A comunidade bermudense de origem açoriana ficou radiante com a possibilidade dos seus filhos poderem completar o grau na nossa Universidade, onde iriam pagar propinas que estimámos na altura entre 7.500 e 10.000 USD/ano, incluído alojamento em residência e alimentação nas cantinas universitárias (regime “roomandboard”, que nos EUA disparava pelo menos para o dobro ou o triplo). Não foi possível: não havia estatuto para estudante internacional – e quem viesse, não tinha qualquer condição especial. Ficámos assim sem possibilidade de receber uma centena ou mais de estudantes bermudenses, para falar apenas destes.

No webinar de terça-feira passada, esta questão foi relevada pelo Reitor da Universidade da Beira Interior, ao informar que 22% dos alunos que a frequentam são estrangeiros, um feito notável para uma universidade do interior do País. Na mesma linha, pronunciou-se o Prof. Carlos Salema, ao afirmar que 20% dos estudantes que apresentam teses são estrangeiros. Isto apesar de se poder fazer muito mais, não fosse a validação de diplomas de países como a China, Irão e Índia tão complicada e cara em Portugal. Há que alterar este sistema de validação, porque já se perdeu demasiado até o Governo PSD de Passos Coelho e Nuno Crato publicar o Estatuto de Estudante Internacional. Cinco anos depois, os resultados são evidentes: o sistema de Ensino Superior nacional (universidades e politécnicos, públicos e privados) aumentou o total de estudantes internacionais de 38%, passando de 523 (2014-2015) para 5477 (2019-2020). O número destes estudantes matriculados pela 1ª vez, no 1º ano, multiplicou por 15 no mesmo período, subindo de 161 para 2398 (dados da DGES-Direção Geral do Ensino Superior, 2020). Por Instituição, a percentagem em relação ao total  de novos estudantes internacionais matriculados em 2019/20 variou de 2% na Universidade de Lisboa a 32% no Politécnico da Guarda, numa tendência crescente que se espera não diminuir com a corrente pandemia, se o surto em Portugal se mantiver estável. 

Há um sinal positivo desta situação na Universidade dos Açores, onde o número de estudantes internacionais duplicou este ano letivo, passando de 16 para 31, aparentemente como resultado do refúgio sanitário seguro das ilhas. Não será só este o fator de atração, mas é importante manter e divulgar esta etiqueta. Como atrás disse, há quase 20 anos estivemos perto de realizar um projeto de cooperação com o Bermuda College, cujo alcance poderia extravasar a própria Universidade dos Açores. Hoje, com as possibilidades legais e as vantagens evidenciadas no webinar do Conselho Estratégico Nacional do PSD, a possibilidade de recuperar algum do atraso vem da Covid-19 e da esperada recuperação do turismo insular, desde que tenhamos juízo na proteção sanitária e apoio governamental regional à internacionalização da nossa Universidade. Com critérios inteligentes de aplicação das tecnologias digitais – uma prioridade da Comissão Europeia – haverá que aproveitar uma parte dos fundos europeus que aí vêm para concretizar o que podia ter sido feito há muitos anos, afimda Universidade se não quedar pela webinaridade.

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Categorias: Opinião

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