3 de outubro de 2020

Ter para ser em vez de ser para ter

Aproveitei o tempo de silêncio gerado pela pandemia da Covid-19 para usar das palavras que hoje despontaram livremente do meu espírito.
Há muito que já o sabia, mas agora vejo com maior clareza que o silêncio é eloquente e que é mesmo indispensável para que haja critérios melhores no uso das palavra.
No nosso mundo abusa-se muito das palavras, ao ponto de elas hoje estarem completamente desacreditadas e quase ninguém acreditar nelas; as palavras estão mortas, como mortas estão as almas que as proferem; estão despidas como as almas, e a sua nudez é de tal modo evidente; estão tão desgastadas pelo seu mau uso que praticamente já ninguém ouve ninguém com atenção as palavras que cada um vai dizendo a seu belo talante.
Mas porquê?
Porque as palavras são um meio, embora limitado, de expressão do pensamento e dos sentimentos, mas acontece que no teatro social elas são mais usadas para esconder os pensamentos e os sentimentos do que para os revelar.
A palavra é vida mas só é viva, sé é vida se for palavra sentida ou palavra vivida, porque ela é precisamente o corpo a carne do espírito, e só o espírito da vida à palavra e lhe confere o seu verdadeiro sentido.
Lembro aquela parte da Bíblia em que Cristo, numa das suas parábolas, disse “ouvistes as minhas palavras e agora quem tem olhos que veja e quem tem ouvidos que oiça.
Cristo com isso quis dizer que não basta ver e ouvir, é preciso não só que palavras sejam vivas e frescas, como também os espíritos devem ser vivos para que as palavras produzam o seu efeito, para deixaram de ser um conjunto de sons para se converterem em espírito e vida, como uma luz que alumia as almas enquanto percorrerem os caminhos do mundo..
Digamos que o espírito dá significado existencial às palavras e as palavras dão vida ao espírito, porque o fazem abrir brechas na muralha do mundo, e aí lançar as sua luz.
Só devíamos falar para comunicar, não para tagarelar e dizer tolices, para repetir lugares comuns até á exaustão, mas para dizer alguma coisa.
Eu tive um professor em Coimbra, na Faculdade de Direito, que quando gostava da prova do aluno dizia invariavelmente: “o aluno disse, não falou”.
“Oh tempo, oh mores”!
Mas palavras leva-os o vento, se não estão profundamente enraizadas na nossa alma, se não passam a ser substância por dentro da forma, se não são para comer à mesa do espírito, com a melhor e mais santa iguaria com que os deuses nos  podem agraciar.
Ate a honra não dispensa a palavra, a honra e a garantia da palavra .
Portanto, já no tempo de Cristo era como hoje; havia almas mortas e almas vivas.
Quando eu era rapaz, na minha aldeia dos Ginetes, admirava-me de ver a malta mais velha toda a dormir enquanto o padre Evaristo ou meu padrinho Antonio Leite pregavam o evangelho segundo Jesus Cristo.
Alguns ferravam o galho do princípio até ao fim da missa, de modo que a malta da minha idade que tinha de ir para a parte de cima para o coro se divertia a atirar grãos de arroz para cima das carecas daqueles cristãos adormecidos.
Iam a missa fazer o quê?
Bom, a maioria dos cristãos ainda hoje não lê a Bíblia embora as veja, em casa de alguns, em cima da mesinha de cabeceira.
E isso é um pequeno sinal de como vivemos da forma errada a própria vida e quando se dá por isso já é um pouco tarde, embora nunca seja tarde para ver a verdade e fazer justiça como a experiência da vida largamente nos demonstra.
Face à brevidade da vida e à inevitabilidade da morte, a vida humana devia ser vivida de forma completamente diferente daquela que é vivida no mundo em geral.
Primeiro, o homem no geral vive a vida como se fosse o seu dono, quando não passa de um seu hóspede de fracos recursos.
Ocorre-me aquela história do mendigo a quem o rei acolheu por uma noite no seu pomposo palácio e que perante tanta magnificência e luxo perguntou ao rei se era ele o dono daquele palácio e o rei disse que sim.
E antes de ti quem era o dono, perguntou o sem abrigo?
Era do meu pai.
E antes do teu pai?
Era do meu avô.
Ah então tu não és dono, és hospede como eu.
Depois a malta quase toda constrói casas como se fosse durar cem anos
Razão tinha Hipocrates quando disse que a malta do tempo dele estava toda avariada do miolo e que só Diogenes, que passava a vida a rir-se das ocupações diárias e modo de vida dos seus conterrâneos, estava de boa saúde mental.
Fundaram a sociedade com base no dinheiro, no ter, em vez de fundarem uma sociedade com base no ser, deviam trocar amor por amor e confiança por confiança, em vez de dinheiro por dinheiro, e nesse aspeto Marx tinha toda a razão; não só e mais justo e humano como e mais conforme a nossa condição humana e existencial.
Todos, sem excepção, deviam sentar-se à mesma mesa da vida, alegrar-se uns com os outros na partilha do pão, ajudar-se uns aos outros, amar-se e compadecer-se uns dos outros, e largar a maior parte das coisas em que gastam o seu tempo que já de si não é longo, quando comparado com a eternidade.
Viver como irmãos alegrar-se, celebrar a vida, porque se a vida, às vezes, espera um pouco a morte, nunca espera nem atende.
Viver de forma mais livre e despreocupada e fraternal o tempo da vida enquanto habitamos o tempo.
Teres e haveres só dão chatices e brigas até fratricidas a parricidas; as heranças são coisas que os mortos deixam aos vivos para que eles se matem uns aos outros.
Com vida breve e feita de momentos fugazes e irrepetíveis, a salvação está no amor, na liberdade, na amizade uns pelos outros, no distanciamento face aos prazeres e ilusões do mundo.
Santo Agostinho disse-o egregiamente no seu livro A cidade de Deus, quando a compara com a cidade dos homens e afirmou que a maioria dos males que temos advém da nossa estupidez, ignorância e loucura.
A vida tem uma parte boa e uma parte escabrosa, atroz; a parte má atinge, em doses variáveis cada um dos viventes, a parte boa também atinge de modo variável cada um deles.
Alegria e confiança, que no fim há remédio para todos os males desta vida e celebremos a oportunidade que julgo única de vivermos.
Os romanos, quando algum deles partia, diziam “Viveu”.
E quem viveu uma vez viveu para sempre.
Portanto, mais atenção ao ser do que ao ter.
Tivemos agora a experiência com o corona virus: uma civilização que tem um poder científico e técnico como nenhuma outra na história e bastou um micróbio, um vírus maldito, uma coisa minúscula, para a deitar toda abaixo, como se fosse um castelo de cartas.
Como eu disse no que toca ao ter alguma coisa na sociedade em que estamos, para não ter de estender a mão a caridade e  não chatear muito os outros, o melhor é trabalhar e poupar, se possível; no resto, apostar no ser.
Porque como disse algum a quem peço desculpa por agora não me lembrar do seu nome “por baixo da nossa civilização jaz o cadáver da humanidade.”

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Categorias: Opinião

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