Bandas Filarmónicas da Ilha de São Miguel

União dos Amigos e Minerva dos Ginetes consideram que apoios da Câmara Municipal e Governo Regional deviam ser superiores

Nas Capelas, a União dos Amigos nasceu no ano de 1879 e segundo o seu Presidente, Fábio Bernardino, a banda “já contribuiu muito para nossa cultura açoriana” e “tal como todas as outras, já teve boas e más fases”. 
Nos dias que correm, a Filarmónica tem o efectivo de 30 músicos e outros 10 alunos a frequentarem a escola de música. Esses alunos que estão em formação iriam, segundo o Presidente da banda, “ingressar este ano nas actuações” da União dos Amigos.
Apesar de ainda não terem regressado aos ensaios, o responsável pela filarmónica avança que os mesmos serão retomados dentro de pouco tempo.
“Pretendemos voltar aos ensaios agora já em Outubro, porque temos um concerto que está no plano artístico da Direcção Regional da Cultura. Pretendemos começar os ensaios para nos prepararmos para este concerto que estava contemplado nas comemorações dos 140 anos da nossa filarmónica”, explica.
Relativamente à situação financeira, Fábio Bernardino classifica-a como “caótica” e explica que, a não realização de serviços durante o Verão, prejudicou a saúde financeira da banda.
“Tivemos os meses de Inverno onde realizamos os investimentos que tinham de ser feitos para podermos ter a nossa actividade no Verão, mas agora não tivemos retorno do investimento feito. Como vamos ter de fazer novo investimento este inverno as coisas ainda vão piorar mais. Estamos a aguardar alguns apoios”, salienta antes de explicar que sem a contribuição das entidades governamentais, dificilmente alguma banda poderá sobreviver.
“Estamos a aguardar os da Câmara Municipal e do Governo Regional que agora prometeu dar a cada filarmónica 2500 euros, para podermos continuar a nossa actividade e financeiramente não é possível continuar a nossa actividade sem esses apoios”, afirma.
O Presidente da Filarmónica União dos Amigos refere mesmo que os valores anunciados quer pela Autarquia quer pelo Governo Regional dos Açores, não são suficientes para que as bandas se mantenham em funcionamento: “Com o apoio que a Câmara Municipal nos quer dar de 2000 euros e o apoio do Governo regional de 2500, penso que não existirão muitas filarmónicas que se aguentarão durante muito tempo. Não é um apoio que vem de encontro às realidades das nossas filarmónicas”. 
“A Câmara da Ribeira Grande, por exemplo, apoiou as suas filarmónicas com 6000 euros. A do Nordeste apoiou com 10 ou 11 mil (…) Também o valor de 2500 euros dado pelo Governo, não vem colmatar as necessidades das filarmónicas. Era preciso muito mais, talvez o dobro daquilo que nos estão a dar”, garante. 
Ainda sobre esta matéria, Fábio Bernardino endereça ainda algumas questões à Câmara Municipal de Ponta Delgada às quais gostava de obter resposta.
“Nós fomos à Câmara Municipal a uma reunião, falamos com o Sr. Vice-presidente e com a Sra. Presidente, que nos tinham prometido um apoio de 4000 euros. Mas o apoio ainda não foi tornado público. Ainda há pouco tempo recebemos um mail para concorrermos a um valor de 2000 euros, que era o que nos tinham oferecido anteriormente à reunião. Como é que ficamos? Nos 2000 ou nos 4000 que foi o que nos disserem na reunião? É uma questão que tem de ser a Autarquia a responder”, afirma.
Eleita no final do ano passado, a actual Direcção da Filarmónica União dos Amigos tinha pensado alguns projectos que, devido à pandemia, tiveram de ser adiados.
“Neste primeiro ano era para nos irmos preparando e inteirando da situação da banda. Para este ano tínhamos preparado o projecto da compra do novo fardamento. O actual já existe há 10 ou mais anos. Tínhamos todo o gosto em apresentar-nos em 2021 com um novo fardamento. Tal não vai ser possível e é um projecto para esquecer”, esclarece.
Para além dos novos fardamentos, Fábio Bernardino refere outro dos projectos que considera ser importante realizar, mas que, para já, se encontra em suspenso.
“Outro projecto que tínhamos, juntamente com o Governo Regional, passava pela melhoria das nossas infraestruturas. Quer-me parecer que o Governo deixou isso para trás. Estou a falar da sede da nossa filarmónica que, depois de uma avaliação, percebeu-se que tem amianto”, refere, salientando que considera ser urgente resolver a questão, até porque, as condições existentes colocam em causa a saúde dos músicos.
“É a saúde dos nossos elementos que está em risco e ainda não tivemos resposta nenhuma. Aquilo que nos foi dito é que o Governo Regional ia trabalhar isso, foram até feitos dois orçamentos para a sede. Num estava discriminado a remoção do amianto, que é mais dispendioso e o no outro orçamento dizia que poderia ser feita alguma melhoria no tecto em que ficasse lá o amianto mas de forma a não prejudicar a saúde”, explica.
O Presidente da Filarmónica considera que as bandas devem manter a união para fazer face aos problemas que surgem nesta fase e que, a Federação das Bandas dos Açores, deve ter um papel importante na defesa destas instituições.
“Cabe à Federação de Bandas dos Açores unir as nossas filarmónicas. Eles são a voz de todas as bandas dos Açores. É muito mais eficaz para nós, filarmónicas, reunirmos com a federação e depois eles reunirem com quem de direito, ao invés de o fazermos individualmente com as entidades competentes”, afirma.
 
Filarmónica Minerva dos Ginetes

Do outro lado do concelho, encontra-se a Minerva dos Ginetes, fundada em Janeiro de 1906 por José Maria Raposo de Amaral. Para além deste, António Costa, Presidente da banda destaca igualmente o papel de Jácome Correia que doou o terreno onde a filarmónica tem implantada a sua sede até aos nossos dias. Na sua história, a Minerva já conta com actuações em várias ilhas dos Açores e com deslocações ao estrangeiro, das quais se podem destacar idas aos Estados Unidos da América e Canadá.
 Presentemente, a banda conta com cerca de 45 elementos e outros 16 na escola de música, apesar de o seu Presidente frisar que “é muito difícil saírem todos” quando a filarmónica realiza as suas actuações.
“Temos à volta de 45 ou 46 elementos mas é muito difícil saírem todos. Há rapazes que trabalham na hotelaria e na restauração. Umas vezes vão uns noutras vão outros”, explica.
António Costa fala naturalmente dos tempos difíceis que levaram ao encerramento da banda e conta que o regresso aos ensaios ocorreu há poucas semanas. Apesar de não terem agendada qualquer actuação, o Presidente da Minerva desvenda alguns dos planos para os próximos tempos.
“Regressamos no dia 18 de Setembro. Em princípio até ao final do ano não teremos actuação nenhuma. Estamos pensando, em Abril, se isto passar, fazer uma actuação ao ar livre. Tudo depende da evolução da pandemia, mas temos essa intenção”, revela.
 Sobre a situação financeira da filarmónica, esclarece que se não fossem os apoios dados pelas entidades governativas, as contas da banda não aguentariam muito mais tempo.
“Se não fossem os apoios da Câmara Municipal e do Governo Regional, teríamos dinheiro para manter a filarmónica aberta mais 7 ou 8 meses. Não angariamos dinheiro nenhum no ano que se passou”, destaca antes de enumerar algumas das despesas e dos compromissos que é necessário continuar a cumprir.
“Nós temos o maestro para pagar, a água, a luz, a internet, os professores da escola de música que são 3. Já se sabe que se não existirem apoios, nem serviços, as filarmónicas vão ter grandes dificuldades”, afirma.
Apesar de reconhecer a importância dos apoios financeiros disponibilizados pela autarquia, António Costa considera que os apoios poderiam ser de outra monta e com uma modalidade diferente da actual.
“Todos os apoios são bem vindos, mas eles podiam ter dado mais qualquer coisa. A não ser que estejam a pensar ir apoiando mais para a frente de outra forma. Dão-nos os apoios e depois pedem-nos para justificarmos esses mesmos apoios em 2021. Assim é complicado, se nos dessem um apoio a fundo perdido era melhor, mas assim será muito complicado para as filarmónicas”, considera.
O Presidente da banda fala ainda como a ausência de serviços afectou a filarmónica e como é necessário a estas instituições, criarem algumas condições para continuar a atrair os seus músicos.
“As filarmónicas já viviam apertadas. A gente antes fazia uma festa, no primeiro domingo de Agosto, da nossa filarmónica que dava para aguentarmos quase um ano. E este ano nem isso pudemos fazer. Temos uma carrinha, seguro para pagar, combustível, etc. A carrinha é para levar os miúdos da escola de música e, mesmo no caso dos músicos que vivem mais longe da sede, temos de os ir buscar a casa e depois levar. Isso são tudo despesas que não existiam antes nas filarmónicas e que agora são uma realidade”, salienta.
António Costa admite que, após a longa paragem, existiam alguns receios com a desmoralização e desistência de alguns dos músicos que integram a filarmónica.
“Apareceram praticamente todos, mas houve 2 ou 3 que não regressaram. Eu estava com muito medo disso, mas foram só esses que apesar de tudo tiveram formação na nossa escola e já se tinham tornado músicos de primeira qualidade. Têm 18 ou 20 anos, uma idade complicada para os aguentar lá”, lamenta.
Para António Costa é fundamental que a família e muito concretamente os pais continuem a apoiar os músicos e a incentivá-los para que estes continuem a integrar-se nas bandas.
“A colaboração dos pais é fundamental para motivá-las e fazer com que eles não desistam. A família é muito importante na formação de um músico”, acredita.
António Costa realça o facto de as despesas inerentes ao funcionamento de uma banda terem aumentado e serem diferentes das que existiam anteriormente. 
“As despesas já não são como eram antigamente, está tudo muito diferente. Hoje em dia, se não tivermos internet na sede eles fogem da filarmónica. As coisas mudaram muito e são muito diferentes do que eram antes”, afirma o Presidente da Filarmónica Minerva dos Ginetes.                                                        

Luís Lobão

Print
Autor: CA

Categorias: Regional

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima