Caloiros numa roda-viva para abraçar a vida académica, mas sem saber se há praxes

Universitários conscientes dos sacrifícios que os pais fazem para que frequentem o ensino superior fora dos Açores

 A entrada na universidade é sempre um período de grande azáfama para alunos e pais. Neste ano atípico devido ao novo coronavírus há mais preocupações, mas a preparação para a vida académica é a mesma, principalmente para os que mudam de ilha para estudar bem como para os que saem das ilhas para frequentar o ensino superior em diferentes regiões de Portugal continental. Antes, a expectativa das famílias era grande para saber se os seus filhos entravam, depois de saber em que curso e regiões ficaram houve todo um conjunto de tarefas a promover com rapidez, mas com mais tempo do que em anos anteriores, uma vez que as aulas presenciais começam mais tarde (6 de Outubro a nível nacional e 12 de Outubro na Universidade dos Açores) e quase todos os procedimentos podem ser feitos online.  
O mais difícil está feito, entrar numa universidade, que na maioria dos casos é no curso pretendido, outros não. Mas a vida é assim. Nem sempre se concretiza os sonhos, mas há que avançar e não perder tempo. Pior, como dizem os alunos, é não entrar, dado que hoje em dia sem um curso académico ou um curso profissional pouco ou nada se pode fazer. Longe vão os tempos em que havia emprego para todos. Hoje há que lutar para isso. 
Teorias à parte, houve pouco tempo para prosseguir na nova etapa. Marcar a passagem, fazer as malas e embarcar rumo ao desconhecido. Para atrás ficam algumas lágrimas na despedida dos familiares. Desembarcados, a prioridade dos universitários é encontrar alojamento, embora muitos já tenham feito agendamentos mesmo sem saber em que academia entrariam. Tudo para prevenir. Outros, mais a nível continental, pelas distâncias, tiveram de ficar uns dias em residenciais/hotéis até encontrar uma casa para ficar e/ou dividir com colegas, alguns conhecidos, outros desconhecidos.  Os preços também, em muitos casos, ditam a escolhas, dependendo das possibilidades financeiras de cada família. Um quarto pode ficar entre 200 a 400 euros - fora as despesas de água, luz e gás - dependendo do número de pessoas a dividir a Casa/apartamento. No centro de Lisboa e Porto os preços são superiores aos do resto do país e ilhas.
Francisca Almeida saiu da ilha Terceira para a ilha de São Miguel. Ficou felicíssima quando recebeu o e-mail da Direcção Geral do Ensino Superior a confirmar que entrara no curso de Educação Básica.
“Já tinha quase a certeza de que ia entrar no curso que queria, mas fiquei muito feliz quando recebi a confirmação. A sensação de abrir o e-mail e ver que fiquei colocada na minha primeira opção foi muito boa. O curso de Educação Básica para ser Educadora de Infância é o que sempre quis para mim desde criança”, diz.
Consciente de que hoje em dia educadores e professores andam com a casa às costas, no entanto, garante que ouviu muitos profissionais dessas áreas, alguns familiares que são professores, e acha que daqui a cinco anos – curso e mestrado – será uma boa altura para ingressar no mercado de trabalho porque vai haver “muitos professores/educadores que vão entrar na reforma. Provavelmente na minha altura haverá algumas vagas disponíveis e pode ser que tenha sorte de ficar efectiva sem muitos anos de espera”, opina.
Contudo, à sua felicidade por ingressar na academia açoriana no pólo de Ponta Delgada, junta o seu ‘coração apertado’ por deixar na sua terra natal os pais, o irmão, com apenas dois anos, o namorado e os amigos. “Vim para um meio novo, sozinha, e aqui tenho alguns colegas e amigos, mas em São Miguel a nível familiar não tenho ninguém”.
Encontrar quarto foi fácil. “Só procuramos um e quando a minha mãe falou com a senhoria ficou logo tudo alinhavado. Vivo numa zona bem situada e muito perto da universidade, a cerca de 5 minutos a pé, o que é muito bom”.
Francisca Almeida está consciente de que sair da ilha para outra ilha para estudar sai caro. “Os meus pais têm de abdicar de muita coisa para que eu possa estudar fora de casa. E não são só os meus pais que têm de abdicar, o meu irmão também, apesar de ter só dois anos [têm 17 anos de diferença]. Ele terá menos, porque haverá coisas que os meus pais vão deixar de lhe dar para me dar mim para que eu possa fazer o curso”.
Ainda não há vida académica porque as portas da academia só abrem a 12. “Já tentamos saber se vai haver praxe mas ninguém sabe se vai haver, ou não. A comissão de praxe ainda não nos sabe dizer nada. O coronavírus veio dificultar a vida académica, diz Francisca Almeida, pois “a praxe, entendo eu, é muito importante para a integração social entre caloiros e alunos que já estão na universidade”.
João Luís Câmara é outro dos alunos que teve de mudar de ilha. Veio também da Terceira para São Miguel para estudar Protecção Civil e Gestão de Riscos, a sua primeira opção. Não teve de procurar alojamento porque tem casa de família em São Miguel, consciente também dos sacrifícios que os pais têm de fazer para estudar fora da ilha. “Como tenho casa para ficar em São Miguel não tive preocupação em procurar quarto, mas vou ficar mais longe da universidade do que eles”. Todos os colegas que com ele vieram para São Miguel estudar ficaram mesmo no centro de Ponta Delgada e próximos da academia mas ele a 10 km de distância. 
“O único senão está em apanhar o autocarro todos os dias para ir para as aulas, ou mesmo quando quiser estar com os meus colegas, mas isso não é impeditivo de se fazer uma vida normal. Os meus colegas também têm a possibilidade de ir almoçar a casa e eu não o posso fazer. Vou almoçar no refeitório da Universidade. Mas isso também não é problema nenhum, temos que nos habituar a uma nova vida, até porque vamos fazer novas amizades e estando mais tempo na universidade podemos aproveitar os tempos mortos para ir para a biblioteca estudar”.
Quando recebeu o e-mail da Direcção Geral do Ensino Superior com a confirmação de que tinha entrado na sua primeira opção diz: Fiquei muito contente”, embora reconheça “que sendo este um curso muito interessante, com boas saídas profissionais, por agora,” tem também a consciência de que é um curso muito trabalhoso, com disciplinas com algum grau de dificuldade, como é o caso da Matemática e da Química, o que obriga a uma rotina de estudo bem delineada. Não pode haver descuidos”.
Estudar está nas prioridades do jovem universitário de 18 anos, mas como tinha muitas actividades na ilha Terceira – jogava na equipa sénior do Angrense (série Açores) e dava aulas de danças de salão - também espera nesta ilha ocupar os seus tempos livres com aquilo que gosta mais de fazer: jogar futebol. Na bagagem trouxe também a sua viola, companheira de viagem, “porque toco todos os dias, e quem sabe não posso vir a integrar a tuna da universidade dos Açores, que era algo que gostaria de fazer. A seu tempo, veremos dessa possibilidade”, diz o jovem.
Estar em São Miguel, berço do seu nascimento, é um sonho realizado. “São Miguel é uma ilha incrível, é uma mini-Lisboa”, e mesmo tendo ido para a ilha Terceira aos 3 anos, quando adolescente teve sempre a ideia de regressar a esta ilha, o que é concretizado com a entrada na universidade. “Pretendo fazer tudo para que ter sucesso académico e possa no futuro trabalhar na área da Protecção Civil, Meteorologia ou Cartografia, que são as minhas áreas de interesse. Se estudar decerto vou conseguir, porque é o que quero fazer na vida”, garante João Luís Câmara.


A vida em Lisboa é cara
Nasceu em Abrantes mas reside  nos Açores desde tenra idade [três anos] e para estudar regressa agora a território continental. Joana Rita Fernandes entrou na Faculdade de Motricidade Humana de Lisboa no curso de Reabilitação Psicomotora. Contente pela nova etapa, assume que é difícil deixar a família e os amigos na ilha Terceira, mas sente-se “preparadíssima para enfrentar o novo ano lectivo na Faculdade”, embora desconheça como vai ser a vida social a nível académico. “Não tenho nenhuma informação. Só na próxima terça-feira, início das aulas, é que vamos saber se vamos ter praxe, ou não. Neste momento, devido à Covid-19 só a secretaria está aberta para tratar de alguns documentos, como, por exemplo, o acesso ao passe. Todos os restantes serviços estão a funcionar online”.
Joana Rita Fernandes foi uma das alunas que se precaveu com a estadia. “Independentemente da Faculdade em que ficasse, como as opções escolhidas eram todas na área de Lisboa, já tinha desenhado várias opções. Portanto, já cheguei a Lisboa com tudo coordenado e  organizado”.
Esta jovem estudante também tem consciência dos sacrifícios que as famílias fazem para que um filho estude em Lisboa, onde a vida é cara. “Sempre fui informada de que ia haver mais gastos e isso sempre foi tema de conversa na família  porque sabemos que não é fácil ter um filho a estudar em Lisboa. São muitas despesas. Sabendo isso estamos todos empenhados para estudar” e devolver no final os gastos que os pais tiveram com “um canudo”. 
Nos tempos livres garante que vai aproveitar para fazer desporto, actividade que interrompeu devido à Covid-19. “Fora isso, gostava muito de entrar no espírito académico da própria universidade”. Para o futuro, em termos profissionais o sonho vai para a reabilitação ligada à área da saúde e dos idosos, seja em lares seja ao serviço dos hospitais e/ centros de saúde, conforme nos conta Joana Rita Fernandes.

                                     

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