4 de outubro de 2020

Dos Ginetes

Os Esquecidos

 Foi o título com maior sentido para o assunto que pretendo abordar este fim-de-semana face a uma realidade que se tenta esconder porque grande parte dos visados na prática já não tem o direito de reclamar, ou se algum dos seus o faz encontra um muro revestido de tanta burocracia e ornamentado do mais repugnante desinteresse. Grande parte do tempo responsáveis assobiam hipocritamente para o lado alheios a uma realidade que um dia vai chegar a todos. A minha idade já permite manifestar um desencanto com um sistema de saúde à responsabilidade de gente altamente diplomada, mas ausente de uma realidade que me incomoda porque tantas vezes sou confrontado com mentiras.
Poderia ter escolhido “abandonados” ou até “velhos esquecidos”, mesmo se esta última expressão é um pouco forte para quem ainda é capaz de humanamente associar consciência com amor. Digo ainda, porque hoje somos cada vez mais confrontados com novas tecnologias que em minha opinião em grande parte ainda não conseguiram substituir esse maravilhoso dom que possuíam “os antigos” que trabalhavam verdadeiramente por vocação. É um problema que se estendeu a todos os níveis da sociedade. Mesmo se ainda existem alguns valiosos voluntários na grande maioria o dinheiro e contínuas recriminações por melhores condições e menos horas de trabalho vieram complicar a vida a todos.
Durante as últimas décadas várias expressões se sucederam para valorizar a nossa gente mais velha, como era conhecida no meu tempo de criança, hoje carente em muitos casos de mais amor, respeito, mas sobretudo de atenção. Passaram a ser chamados idosos, seniores, gente da terceira idade, e até a língua francesa os apelida de “l’aged’or” (idade de ouro). Portanto é um problema não apenas português.
       Durante os últimos anos têm sido organizadas diversas actividades para essa gente da qual também sou parte. As autarquias e o próprio Governo Regional dos Açores têm procurado camuflar muita deficiência no apoio a essa gente que no passado em condições extremamente difíceis participaram na construção deste mundo que parece cada vez mais ausente de valores. Estamos a viver uma crise muito grave que ninguém pode garantir como e quando irá terminar. Os jovens evidentemente se encontram preocupados com o futuro e manifestam-no a altas vozes, e com razão, enquanto no outro extremo se encontra esse mundo silencioso dos idosos que para muitos não passam de um estorvo mesmo se os responsáveis pretendem defender o contrário.
É com muita mágoa que continuo a assistir ao desmoronamento devido à irresponsabilidade para com esta gente “velhinha”, mas ainda preciosa nesta terra dos Ginetes e não só. Todos sabemos que um dia iremos partir para uma viagem sem retorno, mas ninguém quer ver o pai ou mãe vivendo parte do seu tempo na incerteza. A doença nem sempre é controlável como seria desejo, mas as condições essas sim poderão ser adaptáveis para um final de vida humanamente respeitável.
Conheço perfeitamente grande parte dos idosos acamados desta terra dos Ginetes. Acreditem que não é fácil a forma como vivem um pouco desamparados apesar do melhor que procuram dar as respectivas famílias que nem sempre conseguem combinar a vida profissional, porque é necessário trabalhar, com os cuidados e atenção que requerem os mais velhos. Não sei como é possível estarmos por estes lados tantos anos atrasados em relação a outras localidades da Ilha de S. Miguel.
É verdade que o ideal é manter as pessoas o máximo tempo possível em suas casas para que se sintam acarinhados por familiares e amigos, mas chega sempre aquele momento derradeiro que nada é mais possível controlar. É aqui que o Estado tem de entrar em cena e assumir responsabilidades da mesma forma que o faz ao pobre cidadão quando o obriga a pagar os seus impostos no prazo que lhe concedeu.
Na minha vida nunca ouvi falar, mesmo vagamente, na possibilidade de um dia existir um “Lar de Idosos” numa das freguesias desta zona. É verdade que existe o chamado “Apoio ao Domicílio” que tem realizado um bom trabalho, na ausência de melhor, mas em muitos casos sejamos realistas não basta, porque as carências exigem muito mais.
 Como acima referi também pagamos os nossos impostos como todos os cidadãos, mas parece que os direitos não são repartidos por igual.
Hoje praticamente se fala apenas em Covid-19. Quanto ao resto nos hospitais parece estar em greve ou em período de hibernação. Que me desculpem alguns, não todos felizmente, dos nossos profissionais da saúde considerados ainda não há muito como heróis nacionais estão a transmitir no momento uma imagem que começa a perturbar a população. Pessoalmente já comecei a interrogar a minha inteligência que não consegue responder. Ou bem já estou com problemas devidos à minha idade ou alguém quer passar este tempo a rir de nós “Os Esquecidos”.
 

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Categorias: Opinião

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