4 de outubro de 2020

Apontamento dominical

A eutanásia e a Bíblia

 Roma publicou recentemente três documentos de grande relevância. O mais importante é a nova Encíclica sobre a fraternidade humana, assinada ontem pelo Papa em Assis. Não a apresentamos agora porque só será tornada pública hoje.
Os outros dois documentos são a Carta «Samaritanus bonus» (14 de Julho) e a Carta apostólica «Scripturæ sacræ affectus» (30 de Setembro).

REJEIÇÃO DE TODAS AS
FORMAS DE EUTANÁSIA
O primeiro texto é uma afirmação enérgica do valor de toda a vida humana e uma rejeição absoluta de todas as formas de eutanásia. O cuidado de cada pessoa é parte integrante da nossa relação com Deus, mas não é só um imperativo ético para os cristãos: todos os homens têm a obrigação moral de defender a vida.
– «É a dignidade da vida humana que está em jogo!» – clama com força o Papa Francisco. 
A recusa do aborto e da eutanásia são fundamentos básicos da ordem social. Em nenhum caso se pode colaborar nestes crimes, ou sequer facilitar que outros os cometam.
A Santa Sé cita a doutrina da Igreja, continuamente defendida ao longo dos séculos, expressa solenemente no Concílio Vaticano II, no Catecismo da Igreja Católica, na Carta «Salvifici doloris» e nas Encíclicas «Evangelium vitæ», «Centesimus annus», «Veritatis splendor» de João Paulo II, nas Encíclicas «Deus caritas est» e «Spe salvi» e em vários discursos de Bento XVI, na Encíclica «Laudato si’» e nas Exortações apostólicas «Evangelii gaudium» e «Amoris laetitia» e em numerosos outros textos do actual Papa, corroborada ainda em intervenções de Pio XII e de autores mais antigos.
O contraste com a apatia intelectual da opinião pública portuguesa não podia ser mais escandaloso. O nosso parlamento ignora preguiçosamente as tomadas de posição em favor da dignidade humana (nem sequer se dá ao trabalho de debater este documento da Santa Sé!) e prepara-se para aprovar mais uma lei iníqua.

S. JERÓNIMO E A BÍBLIA
Na passada quarta-feira o Papa publicou a Carta apostólica «Scripturæ sacræ affectus», a comemorar os 1600 anos da morte de S. Jerónimo, conhecido pela monumental tradução da Bíblia para o latim. Graças aos trabalhos preparatórios de grandes génios, como as Hexaplas de Orígenes, e ao apoio de várias pessoas, conseguiu elaborar uma nova tradução da Bíblia de extraordinária qualidade. Além de S. Jerónimo ser um literato exímio em latim e dominar o grego, o hebraico e o aramaico, recorreu a outros especialistas para encontrar a palavra adequada a cada caso. O empreendimento durou muitos anos intensos, mas valeu a pena! Rapidamente a tradução de S. Jerónimo se impôs e foi adoptada pela Igreja durante mais de mil anos. Esta tradução, com algum retoque posterior, costuma designar-se como a versão latina «Vulgata», isto é, a «mais difundida».
A última revisão começou em 1907, por iniciativa do Papa S. Pio X, que confiou o encargo à Ordem Beneditina. O trabalho era tanto que tiveram de convocar outros estudiosos. Em 1933, Pio XI incumbiu a Abadia Pontifícia de S. Jerónimo de dirigir o trabalho e, posteriormente, intervieram muitos outros, sobretudo Jesuítas e Dominicanos. Várias gerações de biblistas trabalharam anos a fio. A obra foi tão meticulosa que só avançava poucas páginas por ano, até finalmente João Paulo II receber o resultado completo e o promulgar em 1979. O texto revisto chama-se «Neovulgata».
É verdade que as diferenças entre a Vulgata e a Neovulgata são relativamente poucas e são questões de pormenor, contudo, a Bíblia é tão importante para a Igreja que o mínimo pormenor é relevante.
Referindo-se a S. Jerónimo nesta Carta apostólica, Francisco sublinha o seu apaixonado amor a Deus, à Palavra de Deus, à Igreja e ao Papa, porque Deus quis revelar-Se através da comunhão com o Povo de Deus. Como diz Francisco citando Bento XVI: «A Bíblia foi escrita pelo Povo de Deus e para o Povo de Deus, sob a inspiração do Espírito Santo. Somente com o “nós”, isto é, nesta comunhão com o Povo de Deus podemos realmente entrar no núcleo da verdade que o próprio Deus nos quer dizer». A Bíblia é um texto que não vive fora da comunhão com a Igreja e com o Papa.

 

 

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Categorias: Opinião

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