4 de outubro de 2020

A aviação à espera de milagres?


Há dias, um dirigente da oposição acusava o Governo dos Açores de estar a “empurrar com a barriga” a solução para os problemas da SATA, ao propor a Bruxelas a prorrogação do prazo para prestar esclarecimentos à Comissão Europeia sobre os aumentos de capital na transportadora aérea açoriana, concretizados em anos anteriores. Já anteriormente, outro responsável partidário se queixara de a divulgação do plano de negócios para esta empresa estar a ser condicionada pelo calendário eleitoral.
Eu próprio escrevi há algum tempo no título de um texto, que a aviação precisava de um milagre, relacionando essa afirmação com a convicção de, tanto para a SATA como para a TAP, não se vislumbrarem soluções governamentais. Nem propostas para a sua discussão.
Não terá sido por acaso que, ao porta voz do principal partido da oposição, tenha ocorrido a imagem de empurrar com a barriga. Certamente se referia a empurrar para a frente no tempo e ao objetivo governamental de procurar evitar que a discussão das soluções para a difícil situação da SATA ocorra durante o período de campanha para as próximas eleições regionais. Receio eu que o empurrar para a frente seja a tradução de não haver ainda propostas com ideias assentes sobre as melhores soluções para se cuidar da situação quase trágica em que se encontram as empresas de transporte aéreo portuguesas, que, tal como as congéneres europeias, terão, no final do corrente ano, uma redução de mais de metade da sua atividade, qualquer que seja a comparação que se faça com os números do ano anterior, mesmo contando com a ligeira recuperação de julho e agosto. Com efeito, os dados concretos têm vindo a confirmar os piores receios: depois de um início de ano prometedor, a pandemia fez parar mais de 90% da atividade nos meses de confinamento generalizado e as tímidas melhorias a partir de julho levam a que os planos que se esboçam na Europa sejam no sentido da redução dos ativos, uma vez que já é considerado positivo quando a procura justifica 30% da operação do ano anterior.
Já tardam os planos para as nossas transportadoras – e mal seria que a demora fosse motivada por interesses de campanha eleitoral, mas, do que vai constando, o caminho só pode ser de emagrecimento nas frotas e no pessoal das companhias aéreas, uma vez que as previsões de retoma são cada vez mais prudentes, para dizer o mínimo. Em crises anteriores – menos graves que esta, é certo, já se ensaiaram experiências de redução de pessoal. Sem grande sucesso, porém: saiu o conhecimento e não tardou a ocupação das vagas por novos candidatos.
Tenho defendido que os governantes se devem distanciar da gestão concreta e corrente das empresas à sua tutela, deixando-a para os gestores nomeados, a quem, sem dúvida, devem pedir responsabilidades pelo mandato exercido e especialmente pelos dinheiros gastos. Mas não me parece arriscado de adivinhar que, agora, a responsabilidade pela iniciativa de dinamizar e coordenar a elaboração e a divulgação de um plano de negócios alternativo estará a circular entre as próprias empresas e os departamentos governamentais. Tanto na TAP como na SATA. Nesta, por maioria de razão, se calcula que ande entre governantes, já que parece ter sido adotada recentemente essa bizarria que se traduz numa prática de tutela bicéfala entre a área dos transportes  e a das finanças cujo acerto está por demonstrar. Ora, perante os trágicos efeitos económicos e sociais para que a atual crise pandémica empurra as organizações em geral e as de aviação com particular violência, atentos os custos dos meios imobilizados pela quebra da procura, afigura-se no mínimo surpreendente a adoção de experiências de gestão e de tutela mais relacionadas com medições de influências políticas ou com a satisfação de clientelas, do que com a solução efetiva dos gravíssimos problemas com que estas empresas se debatem.
À estabilidade governativa permitida pelas maiorias absolutas que têm sido regra nas Regiões Autónomas, tem vindo a corresponder uma redução na exigência. Esta fragilidade que dezenas de anos de experiência fizeram salientar, conduz a que apreciemos mais os mecanismos constitucionais que dificultem a formação de maiorias absolutas, favorecendo a rotatividade na constituição dos governos, no entendimento de que as soluções ficam mais beneficiadas quando as maiorias as constroem com negociações. Afinal, os pesos e contrapesos, na gestão política tal como na construção das organizações humanas e, de resto, na própria natureza, só contribuem para equilíbrios enriquecedores.
Na situação atual, compreende-se que não seja fácil a fundamentação dos processos de aumentos de capital de anos anteriores, por implicar o risco de tais acertos nos bens da empresa poderem vir a ser considerados ajudas de Estado, mas também não deixa de ser compreensível que a justificação para o arrastamento de um verdadeiro plano estratégico seja interpretada como coincidente com os interesses eleitorais do partido no poder. Algumas medidas que vão constando, para serem aplicadas nas grandes companhias aéreas europeias, não são nada atraentes para serem transpostas, mesmo que com adaptações, para a nossa realidade social em que os efeitos de um acréscimo do desemprego sempre terão dolorosos impactos em cadeia, muito difíceis de compensar. Contudo, algumas resoluções terão que ser adotadas, de preferência por negociação. Esperemos que o tempo de crise seja relativamente curto e que venham os antídotos, sejam eles vacinas, lâmpadas ultravioleta ou sprays nasais, desde que a sua aplicação permita controlar a pandemia, repondo-se os intercâmbios turísticos e retomando-se a atividade económica.

José Adriano Ávila

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Autor: CA

Categorias: Opinião

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