7 de outubro de 2020

Vive-se menos nos Açores do que no resto do país

Estamos em plena campanha eleitoral e nem de propósito, a Pordata, da Fundação Francisco Manuel dos Santos, na sua edição 2020, traça-nos um panorama pouco animador que carece de medidas urgentes para o debelar. É certo que os Açores têm feito o seu caminho, melhorando os parâmetros de desenvolvimento, não apenas desde 1996, mas desde sempre. Contudo, torna-se necessário fazer muito mais, a fim de não nos afastarmos do de outras regiões.
Este retrato atual dos Açores traz à luz do dia indicadores muito interessantes, alguns deles comparativamente satisfatórios face ao passado, dando-nos uma ideia da evolução da realidade açoriana, que vale a pena escalpelizar, por forma a nos apercebermos de como vão as coisas por este solo insulano.
Retenho de tanta informação útil que aquela publicação nos mostra o facto da esperança de vida nos Açores ser a mais baixa do país, o que causa algum pesar, porque enquanto residentes numa região de Portugal, viveremos menos tempo, do que os nossos compatriotas do retângulo, ou seja, a esperança de vida nos Açores é de 77,9 anos, menos do que na Madeira que é de 78.4, e menos do que em Portugal Continental cuja média atinge os 80,8 anos. Em Lisboa é de 81 anos e no Norte do país atinge os 81.3.
Numa síntese sobre a situação dos Açores, poder-se-á dizer que somos menos escolarizados, com menos poder de compra do que a média nacional e no entanto com mais jovens.
De notar neste aspeto que o índice de envelhecimento revela que há 95 idosos por cada 100 jovens nos Açores, enquanto na totalidade do território português a proporção é de 161 idosos por cada cem jovens, uma diferença positiva muito significativa.
Estes números favoráveis, por comparação com a média nacional, poderão esconder que o índice de envelhecimento está a subir, como acontece por todo o país, desde o início do século.
De tal forma que São Miguel é agora a única ilha com mais jovens do que idosos e onde o saldo natural é positivo e por ser a mais populosa, tem um grande peso na média final.
De acordo com os indicadores reunidos pela Pordata, a partir de dados do Instituto Nacional de Estatística, em 2019 cerca de 48% dos nascimentos nos Açores ocorreram fora do casamento, situação que antigamente não acontecia e mesmo assim está abaixo do que é a média nacional que atinge os 57%. Numa Região considerada conservadora como é a nossa, mesmo assim, os casamentos não católicos atingem os impressionantes 71/%.
Os Açores estão diferentes em termos de modernidade, no entanto, a taxa de abandono escolar registada é mais do dobro da registada a nível nacional.
Com uma população particularmente jovem, 27% deles dos 18 aos 24 anos estão fora do sistema de ensino, sem terem completado o secundário, enquanto no todo nacional essa percentagem é de 11%. Trata-se de um dado complexo, que não se pode esconder, nem assobiar para o lado, porque é de assegurar futuro que se poderá falar.
Repare-se que 70% da população com 15 ou mais anos não tem o ensino secundário já que em todo o país a percentagem é de 58%, e só 11% tem formação superior, enquanto no país é de 20%. A taxa de retenção e desistência no secundário é de 20% nos cursos gerais e de 15% nos tecnológicos e profissionais.
Apesar das estratégias de luta contra a pobreza a médio prazo, não deixa de ser angustiante que os indicadores mostram sem margens para dúvidas que temos a população mais pobre do que a média do país, sendo o número de beneficiários do rendimento social de inserção de 10,2%, ainda superior aos 3% da totalidade do território, ou seja são 20 913 beneficiários, 7,8% do número total de beneficiários no país. Por outro lado, nos Açores ganha-se menos, pois enquanto no arquipélago é de 17 514 euros, contra os 19 827 euros de todo o país.
No que diz respeito à Saúde, os números também aqui não são muito animadores e até nem precisávamos de esperar pela PORDATA para o confirmarmos.
Basta reparar no número de habitantes por médico que nas nossas ilhas são 278, enquanto que no Continente são 186.
No entanto, temos outros indicadores em que os Açores mostram resultados superiores à média nacional e diz respeito à internet. No arquipélago 86% das famílias têm ligação à internet, enquanto que são 81% em todo o território, e 78% dos indivíduos com 16 ou mais anos usam a internet e a média nacional é de 75%.
Os dados mostram que são sobretudo as mulheres (80%) quem utiliza a internet, quando nos dados nacionais são os homens.
Temos tantas batalhas pela frente em que não podemos esconder alguns números como o da violência doméstica e das dependências do álcool e drogas.
Oxalá que nesta campanha haja oportunidade para se debater tudo isto, sempre com o espírito de todos concorrermos para que os Açores continuem a dar saltos qualitativos em termos de qualidade de vida.

 

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Categorias: Opinião

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