O Rei dos Queijos, no Mercado da Graça

Além de quebras de cerca de 80% muitos produtos foram lançados ao lixo por ultrapassarem prazos de validade

Longe da azáfama de outros tempos, em que os clientes se amontoavam dentro da pequena loja do Rei dos Queijos, no Mercado da Graça, agora são poucos os que vão aparecendo e os turistas ainda são menos.
À entrada, a informação da obrigatoriedade de máscara dentro da loja e um posto de desinfecção fazem agora parte da decoração do Rei dos Queijos a par do pão fresco, dos bolos lêvedos, bebidas, bolachas e biscoitos, ananás e, claro, os vários tipos de queijos e manteigas de praticamente todas as ilhas.
A boa disposição e as brincadeiras com os clientes já não podem ser feitas como antes, que eram quase uma imagem de marca da típica loja. Mário Bernardo, gerente da loja O Rei dos Queijos, admite que com a pandemia também veio o receio e “o calor humano, agora já não existe”. É que, agora, com todos os cuidados necessários devido à crise sanitária “nem dá vontade de fazer nada. Não há aquele entusiasmo de brincar com os clientes. Estávamos habituados à bagunça, a ter muita gente aqui dentro da loja, à entrada e saída de mercadoria. Era um movimento que tínhamos antes e que agora não tem comparação”, refere Mário Bernardo.
Sem grandes contactos físicos agora, o certo é que numa loja onde o queijo é rei, há que degustar as iguarias antes de as comprar. E essa sempre foi uma das apostas do Rei dos Queijos: dar a provar o queijo que melhor se adequava ao gosto do cliente para que pudesse escolher, entre vários. Mário Bernardo garante que essa degustação se mantém, mas agora com outras condicionantes. Agora cada cliente usa a sua espátula para a prova dos queijos, que é depois lavada e esterilizada entre cada prova. “Não pomos para o lixo, temos uma máquina que lava e esteriliza a faca que damos a provar. Cada prova é uma espátula”, explica ao informar que a loja tem disponíveis cinco mil espátulas, à espera. Aliás, explica o responsável da loja, uma das formas de se avaliar o impacto da Covid-19 nas vendas é através das espátulas lavadas e esterilizadas: “antes lavávamos uma máquina de loiça com espátulas duas vezes por dia, agora lavamos uma máquina uma vez por semana”.

Quebras avultadas
Aquando do confinamento o Rei dos Queijos não fechou portas, mas viu os seus clientes diminuírem drasticamente, a começar pelos turistas. A decisão foi apostar nas entregas ao domicílio. “Fomos das primeiras empresas a fazer entregas ao domicílio, porque todas as outras estavam fechadas” e foi isso que continuou a dar vida ao negócio “porque durante a semana não tínhamos clientes”. Os dias mais fortes do Mercado da Graça – à Sexta-feira e ao Sábado – foram os que continuaram a ter clientes no Rei dos Queijos mas “nada como noutros tempos”.
O gerente da loja explica que quando foi anunciado pelo Governo Regional o confinamento, a loja teve de se readaptar. “Fechámos a porta, tirámos o vidro e colocámos acrílico, servíamos à porta, mas essa situação fez com que vendêssemos menos ainda”, isto porque as pessoas não “viam o produto” e as vendas eram apenas do essencial. “Na porta vendíamos só o pão e queijo. Por exemplo, na pandemia não vendemos um único frasco de doce e muitos frascos foram para o lixo”, explica.
Apesar das entregas ao domicílio, as quebras foram em cerca de 80%, fora o prejuízo dos produtos que foram acabando os prazos de validade, como os doces, e deixaram de estar aptos a consumo, como os queijos “que não conseguimos vender e que acabaram por ir para o lixo”.
A loja esteve mais activa nas redes sociais. Anunciando as entregas ao domicílio e tentando “ver se conseguíamos fazer com que as pessoas viessem à loja. Mas não foi fácil”, explica Mário Bernardo que conta que nesses dias facturavam “uma média de 200 a 300 euros por dia”, nada comparado com os dias fortes da loja. “Para uma loja com quatro empregados, não foi fácil porque os custos foram sempre os mesmos, tínhamos de pagar luz, água, renda. E o que facturávamos era praticamente só à Sexta e ao Sábado”, embora aos Domingos também mantivesse a loja aberta mas “não havia ninguém, as pessoas estavam com medo. Aliás, hoje em dia ainda estão com medo”.
Na loja isso ainda é notório, mas Mário Bernardo já consegue ver melhorias. Diz que “as pessoas já estão saturadas com a pandemia e estão a sair mais. Temos um limite de quatro pessoas dentro da loja mas às vezes entram sem saber, não querem esperar”. Entre meados de Agosto até ao princípio de Setembro “foi melhor” a facturação com os turistas continentais e alguns espanhóis a animar a loja.

O medo
Com o desconfinamento e apesar das quebras avultadas, foi necessário investir para garantir que todas as regras de segurança sanitárias eram cumpridas. A colocação de acrílicos, as marcações no chão, as máscaras que os colaboradores usam, os tapetes desinfectantes na entrada e os pontos de desinfecção tiveram de integrar os custos da empresa. Mário Bernardo diz que só em gel desinfectante os gastos são enormes, pois cada bolsa usada no posto de desinfecção “custa quase 20 euros e dura um dia ou um dia e meio. Há quem abuse no desinfectante e gasta-se em média uma bolsa de gel desinfectante por dia. Portanto, só de desinfectante gastamos cerca de 20 euros por dia, fora as outras despesas.
E essas despesas tiveram de ser feitas ainda durante o confinamento, garantindo a segurança de quem recebia os produtos em casa. Aliás, conta o gerente do Rei dos Queijos que havia muito medo de quem comprava online e muitos clientes “chegava à porta e ligava, a pessoa estava do lado de dentro e dizia para deixarmos à porta”, sem haver qualquer tipo de contacto. Até nos pagamentos isso tinha de ser garantido, e muitos faziam pagamentos por MBway e o contactless era cada vez mais usado, “senão as pessoas não pagavam”.
Mário Bernardo conta que depois os clientes foram ganhando confiança, “viam que usávamos todos os meios de protecção – como viseira, máscara, luvas – que descartávamos a cada clientes que visitávamos. Começaram a ver que tínhamos todos os cuidados e cumpríamos todas as regras sanitárias e começaram a aproximar-se aos poucos”.
E com isso voltaram a aproximar-se também da loja e já passam pelo tradicional estabelecimento, fazendo decair as entregas ao domicílio. “As pessoas querem sair, por terem ficado tanto tempo fechadas e já começam a vir à loja”, refere ao acrescentar que em Agosto e Setembro “melhorou” a procura na loja e os turistas também voltaram a povoar as ruas de Ponta Delgada. “Agora já voltou a decair porque é sempre assim, quando abrem as escolas as pessoas não viajam tanto”, afirma.
Mas Mário Bernardo entende que ainda vai “levar algum tempo” antes que as pessoas se sintam à vontade para voltar a fazer a sua vida normal. “Acho que vai levar algum tempo. Até haver uma vacina e até as pessoas se mentalizarem que a vacina é eficaz e que está tudo bem. Enquanto não houver isso, as pessoas vão estar sempre com medo”, refere Mário Bernardo. Aliás, refere que o turista continental “tem menos medo do que o açoriano. Os continentais entram em grupos e se virem gente dentro da loja, entram na mesma sem problema. Pode ser como têm a certeza que já fizeram teste, têm outra segurança”, refere.

Aposta em marca própria
Sendo o Rei dos Queijos uma das lojas onde a variedade deste produto é vasta, foi com naturalidade que apostaram numa marca própria. Aliás, como praticamente todos os queijos que comercializam são “afinados” no armazém do Rei dos Queijos, foi feito isso também com a nova marca que Mário Bernardo assume que tem vindo a ganhar cada vez mais adeptos junto dos clientes que procuram a loja. E que tem vindo também a ser melhorado. “O queijo quando saiu não estava bem afinado. Mas actualmente, posso dizer que é dos melhores queijos que temos na loja e é dos que vende mais. Embora seja dos mais baratos, mas as pessoas não procuram os preços. A pessoa faz a prova cega e leva sempre da nossa marca”, explica o gerente da loja. E descreve-o como “um queijo que não é muito forte, é amanteigado, e é feito com leite pasteurizado. As pessoas apreciam cada vez mais os queijos feitos com leite pasteurizado”, explicando que o leite pasteurizado dá garantias de segurança alimentar e que pode ser consumido por grávidas e até “por pessoas com problemas de estômago. Dão garantias de segurança alimentar”, refere.
O queijo O Rei dos Queijos está no mercado desde o início de 2018 e tem tido grande aceitação na loja do Mercado da Graça, o único local onde é comercializado.

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Autor: Carla Dias

Categorias: Regional

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