Maioria dos açorianos não tem rendimento para aceder à compra do ‘peixe fino’ pescado na Região

Considere-se, como exemplo, uma família de cinco pessoas, (um casal e três crianças em idade escolar), em que apenas o cabeça de casal trabalhe, admitindo que o vencimento médio nos Açores ronda os mil euros (mesmo havendo milhares de pessoas a ganhar um ordenado médio de 850 euros e alguns milhares a ganhar apenas o salário mínimo). Mas, centremo-nos no ordenado médio de mil euros e admitindo que a família de cinco pessoas compra peixe duas vezes por semana. Se, de cada vez que for às compras do peixe, adquirir 250 gramas por pessoa para uma refeição, terá de adquirir 1.250 gramas. Se comprar boca negra a 15 euros o quilo, vai pagar quase 19 euros pelo peixe. Se, da segunda vez, comprar lírio a 16.25 euros o quilo, seguindo a mesma estimativa, a família paga pelo peixe pouco mais de 20 euros. Ora, somando os dois valores, são 39 euros de peixe por semana. No final do mês esta família pagou 152 euros pelo peixe que comprou. E só comeu ao longo do mês oito refeições de peixe.
E se a mesma família de cinco pessoas, baseando-nos no mesmo ordenado médio de mil euros por mês, fizer três refeições de peixe por semana, e se juntar aos 19 euros de boca negra e aos 20 euros do lírio, cerca de 24 euros por 1.250 gramas de pargo, a 19 euros o quilo, esta família só com peixe tem um rombo no seu orçamento familiar no valor de 252 euros em peixe. E teve acesso a 12 refeições de peixe fresco ao longo do mês.
Se esta família, que ganha o ordenado médio de mil euros por mês já tem algumas dificuldades em ter uma dieta alimentar comendo três vezes peixe nos sete dias da semana, os 252 euros tornam-se incomportáveis para a família de cinco pessoas que ganhe à volta de 850 euros por mês e este valor de peixe é proibitivo para a família que ganhe o salário mínimo.
Estas espécies piscícolas consideradas ‘finas’, pescadas nos mares dos Açores, nem sempre estão disponíveis no mercado local porque, face à grande procura que têm no mercado continental português, em Espanha e outros países, e à falta de poder de compra da maioria esmagadora dos açorianos para as adquirir, as quantidades pescadas são praticamente todas exportadas. O seu aparecimento, nesta altura, no mercado açoriano, deve-se a uma redução de procura nos mercados tradicionais mas, mesmo assim, é proibitivo o preço a que algumas espécies são vendidas.
O discurso oficial não favorece em nada o consumidor açoriano. Por um lado, há uma grande preocupação do Governo dos Açores em valorizar o peixe na lota para subir o rendimento do pescador. Mas, ao contrário do que aconteceu em 2019, em que o preço do peixe subiu em lota; entre Setembro de 2019 e Agosto deste ano, o valor médio do pescado em lota baixou 25,5% e para as espécies demersais (peixe de fundo como a abrótea, rocaz, peixão, goraz, alfoncim, pargo, entre outros), a descida do preço em lota no mesmo período de tempo foi de 6,1%. E o preço no consumidor continua a não acompanhar estas descidas, perdendo-se o valor ao longo da cadeia de compra e venda antes de chegar a quem consome.
Portanto, por esta via do discurso oficial de valorizar o preço do peixe em lota, com o valor médio do ordenado que têm, cada vez menos os açorianos vão ter acesso a estas espécies piscícolas.
A outra face do discurso oficial é a de que se está a valorizar, no consumo, espécies como o chicharro, a cavala, o congro, o peixe porco e a raia entre outros. Ora, para se ser mais directo, embora ainda se façam boas pescarias em redor das ilhas dos Açores, de espécies de elevada qualidade, os açorianos estão “condenados” a aprender a cozinhar, de várias formas, as espécies piscícolas mais baratas para poderem ter o peixe necessário na sua dieta alimentar.
Presentemente, o chicharro, se adquirido na Cooperativa de Pescas Açoriana,  está a chegar ao consumidor a preço acessível, 1,99 euros o quilo;  a cavala está a ser vendida a 3 euros o quilo; a bicuda a 4.99 euros o quilo; o peixe porco a 4.50 euros o quilo; e a raia a 3.95 euros o quilo.                                                                                                                                      

Consumidores concordam com criação de  ‘quota’ 
especial para venda de peixe mais barato aos açorianos

 João Paulo Costa
É consumidor de peixe? 
Sim. Compro umas duas vezes por semana. 
Que tipo de peixe compra habitualmente?
Bacalhau, encharéu, atum e bonito. Compro também chicharros com bastante frequência e é a espécie que mais consumo. Também compro anchova.
Dentro dos chamados ‘peixes finos’, qual a sua opinião sobre os preços praticados?
Penso que o preço está um bocadinho acima da média de acordo com o nosso poder económico. Compro esporadicamente esses peixes, mas não são dos que adquiro com mais frequência. O preço também é uma das razões que me impede de comprar mais vezes.
Devia ser criada uma quota especial para os locais a preços mais acessíveis?
Acho que sim. Nós temos um poder de compra abaixo de muitos países da Europa e por isso não faz sentido pagarmos muito dinheiro. Esses valores acabam por não permitir às famílias comprar com mais frequência peixe com alguma qualidade e que acaba por pertencer aos nossos mares. 

Maria Gonçalves
É consumidora de peixe? 
Como mais peixe do que carne. Vario muito no tipo de peixe e compro na Fat Tuna, que é uma fábrica que temos cá sempre com peixe fresco, um bocadinho caro mas bom.
Que tipo de peixe compra habitualmente?
Como boca negra, encharéu, garoupa, e peixe porco.
Dentro dos chamados ‘peixes finos’, qual a sua opinião sobre os preços praticados?
 Penso que o peixe está excessivamente caro para aquilo que nós ganhamos. 
Devia ser criada uma quota especial para os locais a preços mais acessíveis?
Concordo que se criasse uma quota para vender aqui aos locais a preços mais acessíveis.

Manuel Pereira, emigrante no 
Canadá há 48 anos
É consumidor de peixe? 
Quando estou cá como peixe muitas vezes. Ainda ontem comemos atum. Compramos uma posta e a minha mulher cortou. Gosto muito de peixe. Os preços variam consoante os sítios.
O que pensa dos preços dos chamados ‘peixes finos’, como por exemplo o boca negra, que está a mais de 15 euros ao quilo?
Não acho que seja muito caro. No Canadá, por exemplo, o peixe deve custar à volta de 28 dólares.
Acha que deveria haver uma quota especial de venda de peixe a preços mais acessíveis para as pessoas de cá?
Vou-lhe dizer sinceramente, para mim isso não importante, mas as pessoas que vivem cá provavelmente queixam-se dos preços, achando que o peixe está caro. 
                                                  
                                                                         
L.L

Print
Autor: João Paz

Categorias: Regional

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima