Mário Jorge Araújo, empresário do sector vitivinícola de Vila Franca

Vinho ‘Cerrado do Mar’ passou de uma facturação de 50 mil euros em 2019 para apenas 3 mil este ano devido à pandemia

Como está a decorrer a vindima?
Neste momento ainda tenho em fermentação, um vinho branco, um verdelho dos Açores que deve acabar este fim de semana. Como fermenta em frio, ou seja, coloco-o a uma temperatura máxima de 14 graus, ele leva entre 20 a 22 dias de fermentação. 

Já tem ideia da quantidade de uva recolhida este ano?
Sim. Os Serviços de Desenvolvimento Agrário foram lá fazer a pesagem e tirar também o grau brix que é a quantidade de açúcares que a uva tem. Nas brancas tive 5546 quilos, de um grau brix na ordem dos 11,83. Das tintas tive muito menos do que no ano passado, não sabemos bem porquê, mas tive 2000 quilos com 12,5 de grau brix. Quando falo nas castas brancas refiro-me concretamente ao Terrantez do Pico, que são três quartos da quantidade total e o restante é de verdelho. Do Terrantez do Pico retirei 700 quilos para fazer um licoroso que faço desde 2016. 

Produz, portanto, vários tipos de vinho…
Faço o branco e o tinto. Desde 2016 faço um licoroso só exclusivamente de Terrantez do Pico e este ano já fiz mais 500 litros. Nunca fiz até agora vinhos monocasta mas este ano vou fazer um vinho só de Terantez, um só de Verdelho e o outro será um blend (uma mistura) como fazia anteriormente.

Em litros ou em garrafas qual será a produção deste ano?
Em termos de branco tenho 3900 litros. Tirando 500 litros para o licoroso fico com 3400 litros para o vinho branco. No tinto é que baixei para um terço daquilo que é normal. No concelho de Vila Franca toda a gente se queixou, mesmo da uva de cheiro. Não percebamos o que aconteceu com as castas tintas. Este ano vou fazer 1600 litros de tinto que são mais ou menos 3 pipas. Um quilo de uvas dá 0,7 litros de vinho.

Não tem uva de cheiro?
Muito pouca quantidade. Fiz uma experiência o ano passado e face ao rendimento que retirei de 8 alqueires, prefiro ter apenas um alqueire de Terrantez do Pico e de Verdelho. Não compensa porque eu faço um trabalho mecanizado. 

As uvas são todas das suas vinhas?
Quase todas. Este ano adquiri 600 quilos do Serviço de Desenvolvimento Agrário (SDA) porque ninguém as quis comprar. Até hoje a Azores Wine Company é que ficava com tudo porque queria o Terrantez. No Pico todas as garrafas têm o Terrantez do Pico mas não sei aonde vão buscar esse vinho…

Não sabe?
Não sei. Digo isto porque eles só começaram a fazer as enxertias há 3 ou 4 anos e ainda não devem ter quantidade suficiente e o Terrantez do Pico é a casta que mais produz nos Açores mas não nas condições como se faz no Pico. Os terrenos no Pico têm vários problemas fitosanitáritos, apodrece quase tudo, e podem ver as fotografias que tenho no meu site, tiradas pelos Serviços de Desenvolvimento Agrário de São Miguel, em que não há podridão. Em 2011 e 2012, quando foi feito um estudo pela Universidade e pelo Governo, só havia 78 cepas. Muitas cepas foram enxertadas aqui no SDA de São Gonçalo e só em 2013 ou 2014 é que começaram a ver quais eram os melhores clones dessas vinhas e nessa altura foi-me proposto que eu plantasse dois clones. Um que tem a maior produção e outro que tem o maior grau brix e nessa altura plantei 2000 cepas. Neste momento tenho já o dobro disso. 

Está portanto a dizer que o Terrantez não existe no Pico nessas quantidades?
Não pode existir porque eles só começaram a enxertar a partir de 2014, 2015 e 2016 e sabe-se que as cepas, só a partir de 6 ou 7 anos é que começam a produzir. Se calhar têm alguma quantidade limitada e colocam nas garrafas. Vou-lhe dizer uma coisa, ainda ao ano passado, as uvas do SDA de São Miguel, do Terrantez do Pico e incluindo o Verdelho, foram compradas a 7 euros ou 7 e 30 cêntimos pela Azores Wine Company. É uma loucura mas eles têm mercado para isso e isso significa que eles precisam. E se precisam é porque não têm muito. Isso ainda vai na SATA em frio, imagine-se o preço a que chega lá ao Pico. Isso é com eles e fico satisfeito por eles poderem vender o Terrantez do Pico porque efectivamente é uma casta que estava em extinção e que não há em mais lado nenhum do mundo.

Outra questão muito falada na época das vindimas tem a ver com a mão de obra. No seu caso sente problemas em arranjar trabalhadores?
Não tenho. Mas não tenho a quantidade que, por exemplo, existe no Pico. Enquanto eu tenho 16 mil cepas eles terão à volta de 1 milhão e 600 mil cepas. No meu caso, mão de obra não falta para a apanha das uvas.

E para o resto dos trabalhos, como enxertias e podas…
Sou eu que faço as podas na totalidade. Na minha opinião o SDA deveria implementar algumas formações para que os mais novos aprendessem estes ofícios de poda e enxertia. 

Há muitos jovens interessados nesta área?
Tenho conhecimentos que existem já dois projectos razoáveis no Concelho de Vila Franca do Campo. 

Tem apoios à sua produção?
Sim, porque o meu vinho é IGP. 

É inevitável falarmos da pandemia de Covid-19. De quanto foram as suas quebras?
Posso falar em valores. No ano passado facturei cerca de 50 mil euros em vendas e este ano até ao início de Outubro foram à volta de 3 mil euros. É uma quebra brutal. Mas não sou só eu é geral. Nos Açores estávamos a viver aqui um ciclo que se quebrou que era o do Turismo. Infelizmente, aqui na região, vivemos por ciclos. Eu consigo vender mais o tinto do que o branco. Os turistas gostam muito do branco, mas eu também vendo a alguns hotéis e a um grupo de cá que me compra o tinto e o comercializa. 

O seu principal mercado é aqui em São Miguel?
É única e exclusivamente cá. Tenho dois receptores, o Lima e Quental e a Dianicol. Só vendo a esses distribuidores e eles depois colocam onde quiserem. 

Há algum local em específico onde gostasse de colocar o seu vinho?
Gostava de colocar no ‘mercado da saudade’. Quer queiramos quer não temos mais açorianos nos Estados Unidos da América e no Canadá do que cá e gostava de colocar lá para as pessoas perceberem que isto evoluiu. Os emigrantes quando vêm cá ficam boquiabertos quando percebem que evoluímos para este tipo de vinho. Além disso o meu vinho também tem a marca Açores.

Com tudo o que estamos a passar, quais são as perspectivas para o futuro?
No meu antigo trabalho, onde estive 38 anos e meio, vivi muitas desgraças como esta. 1982, 83, 87, no tempo do Mário Soares, onde passamos por grandes desgraças em termos económicos e teve de vir para cá o FMI. Mas tudo isso depois volta ao seu lugar e esperamos que se descubra a bendita vacina porque senão vamos continuar a ter esta desgraça ‘sempre às costas’. Mas não se pode comparar com os outros períodos onde os problemas foram essencialmente económicos e nossos. Este agora não é um problema exclusivamente nosso. É mundial e para além de ser económico é também social. Hoje em dia, há também uma restrição na movimentação de pessoas. Mas sou um optimista por natureza. Nada é eterno e acredito que vamos dar a volta a esta situação. 

A nível dos apoios disponibilizados para a sector, quer do Governo Regional quer da União Europeia, considera-os adequados?
Sou da opinião de que o dinheiro disponibilizado para a plantação e reconversão das vinhas dá para tudo. Mas também tenho a opinião que deveriam ser redireccionados exclusivamente para as castas autóctones dos Açores. Ou seja, se eu quiser fazer um projecto com uma casta qualquer, com um sauvignon blanc, por exemplo, isso não deveria ser comparticipado. Esta é uma opinião pessoal e não tem nada contra ninguém. Eu apenas planto e enxerto castas de cá (Verdelho e Terrantez do Pico). 
Como analisa o sector do vinho em São Miguel e nos Açores?
Do resto da Região pouco sei. Aqui em São Miguel frequentava, antes de pandemia, muitos restaurantes e uma das coisas que me entristecia era o facto de eles encaminharem as pessoas ou para vinhos do continente, de outro países ou então para aqueles vinhos que eram considerados como sendo dos Açores mas que na realidade não o eram. Existiam vinhos que não tinham certificação e estavam a ser vendidos como sendo da Região. Penso que deveria existir, e já o há, uma tentativa de os restaurantes terem uma aprendizagem e valorizarem o que é nosso. Íamos, por exemplo, ao Aeroporto de Ponta Delgada e víamos lá vinhos equiparados e no mesmo compartimento dos vinhos dos Açores, mas que não eram de cá. 

Está a falar de alguns vinhos do Pico?
Claro. Mas isso era antes, agora os vinhos já estão todos bem identificados e esse problema foi ultrapassado. 

Este ano vai lançar algum novo vinho?
Pretendo lançar um licoroso que não tem nada a ver com o Lajido que é um licor seco e o meu é um bocado mais doce. Pretendo fazer este ano o lançamento desse licoroso e apresentar um novo rótulo que não será “Cerrado do Mar”. Terá um outro nome que já está registado.

Como se vai chamar?
Vai-se chamar “Cordilheiro”. O nome é em memória da minha avó. Enquanto o “Cerrado do Mar”, o vinho, foi uma coisa que fiz em memória do meu avô paterno, este agora será da minha avó paterna. Como em novo era muito traquinas, rebelde, ela chamava-me cordilheiro. Por isso este nome para este novo licoroso.

Tinha também um projecto para a produção de cidra. Como está a correr?
Estou há 3 anos a fazer experiências com maçãs autóctones de cá. Nomeadamente as chamadas maçãs das Furnas que não são apenas de uma única variedade. Existem 21 variedades diferentes. Eu tenho cerca de 9 variedades plantadas, já com boas produções. Neste momento estou até a fazer uma vinificação em cidra mas vou desistir da ideia, porque por aquilo que me foi dado a entender quando publiquei isto no facebook do “Cerrado do Mar”, as pessoas estão ‘sedentas’ de provar as maçãs das Furnas. Vou colocá-las à venda no mercado e não vou fazer a cidra que sinceramente não me tem corrido muito bem.                                                

Luís Lobão

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Autor: CA

Categorias: Regional

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