Pais insatisfeitos por filhos estarem sem professor de Matemática desde o início do ano lectivo

A denúncia veio do pai de uma aluna do 9º ano da Escola Secundária Antero de Quental, em Ponta Delgada, mas podia vir de outras escolas dos Açores já que a situação é recorrente a cada início de ano lectivo e em várias escolas. Desde o início do ano lectivo que várias turmas do 9º ano da Escola Secundária Antero de Quental estão sem aulas de Matemática porque a professora que lecciona a disciplina está de baixa médica. 
Se para alguns alunos isso poderá significar que ficam com uma ou duas horas livres durante o dia da semana, para outros há a responsabilidade de ser uma disciplina sujeita a exame nacional, no final do ano, e há que retomar aprendizagens que podem não ter ficado bem esclarecidas no ano lectivo passado com o ensino à distância.
Enquanto pai, Nelson Cabral, diz-se “triste e preocupado” com esta situação e admite que só expôs a situação depois dos alunos da turma da filha terem questionado a escola acerca do assunto. A resposta era que a questão estava a ser resolvida, na expectativa de ser colocado um novo professor em substituição. Mas o que é certo é que “quatro semanas depois” ainda não há professor a dar as aulas de Matemática nem há “professores de matemática para colocar”. 
Nelson Cabral questionou então o Conselho Executivo da Escola Antero de Quental, tendo sido informado que a Direcção Regional da Educação (DRE) já tinha conhecimento da situação e que já tinha sido efectuado um novo concurso para colocação de um professor de Matemática para a escola, ao qual ninguém tinha concorrido, e por isso teria sido aberto um concurso através da plataforma BEPA – Bolsa de Emprego Público nos Açores – para um horário incompleto.
Nelson Cabral contactou então a DRE alertando que “o processo de recrutamento para professores de substituição era muito lento e era necessário apresentar alternativas mais céleres” e explica ao Correio dos Açores que “é preciso fazer alguma coisa já” e questiona porque não são usadas as plataformas digitais que no final do ano lectivo passado foram a ferramenta usada para o ensino à distância aquando do encerramento das escolas. Porque não, questiona Nelson Cabral, ter professores de outras escolas a leccionar Matemática através das plataformas digitais aos alunos da Antero de Quental. 
“Há que alterar a forma de recrutamento, quando se sabe que naquele agrupamento não há professores para colocar”, refere Nelson Cabral que acrescenta que nenhum professor de fora da ilha de São Miguel irá candidatar-se ao horário incompleto. “Quem é o professor que vem para os Açores com um horário incompleto, pagar casa e outras despesas com um vencimento de um horário incompleto?”, questiona. 
O encarregado de educação reforça a necessidade de se alterarem procedimentos e voltar a apostar na formação de professores, principalmente de Matemática, abrindo o curso de ensino de Matemática na Universidade dos Açores. Um curso, refere, que está fechado desde 2002 e cujos últimos licenciados saíram entre 2006 e 2008. “Nos últimos 12 ou 13 anos não saíram professores da Universidade dos Açores licenciados em Matemática (ensino de)”, sugerindo que a DRE analise o “número de professores da disciplina de Matemática que se reformaram neste período e quantos são expectáveis de se reformarem nos próximos 5 a 10 anos” para que se possa planear com antecedência esta carência de professores. No entanto, ressalva que mesmo que reabra o curso de ensino de matemática no próximo ano lectivo, só vários anos mais tarde sairão os novos licenciados da Universidade, aptos a ensinar. 
“Até lá como fazemos? Contratamos professores com horários incompletos para uma das disciplinas mais importantes do 3º ciclo e Secundário. Ou contrata-se já, com horários completos, os que surgirem na plataforma BEPA, isto porque já há várias escolas que já sentem as “dores” da falta deste planeamento da DRE, na disciplina de Matemática, de Físico-química, entre outras”, refere. 
Para este encarregado de educação “este é um ano especial” e por isso já antecipa que “possa haver problemas” com outros professores que sendo já mais experientes têm já uma idade mais avançada, pertencendo a grupos de risco em altura de pandemia. 
Por isso volta a sugerir que a DRE altere os processos de concurso de colocação de professores, “tornando este processo mais célere, e por mais célere estou a falar em ter um professor substituto em dois ou três dias. Se a educação é para todos, tem de haver aulas para todos, todos os dias, em todas as escolas. Nem todos os pais têm condições para pagar um explicador”, reforça. Nelson Cabral revela que a sua filha, agora no 9º ano, espera seguir a área de ciências e a Matemática “é a base para quem quer ir para esta área” e por isso pugna por ir “contra o sistema e a favor da educação”. 

Escola Antero de Quental 
já resolveu
Depois de tornado público o desabafo de Nelson Cabral, o Correio dos Açores falou com o Presidente do Conselho Executivo da Escola Secundária Antero de Quental, Ulisses Barata, que garantiu que a partir da próxima Segunda-feira (dia 12) a questão do professor de Matemática estará resolvida. Serão três professores de Matemática e também de Inglês que estão em falta na Escola Antero de Quental e que estão a ser colocados, à medida que vão sendo realizados os procedimentos necessários a essas colocações. 
Ulisses Barata admite que este tempo de espera, desde o início do ano lectivo até à próxima semana, fica a dever-se aos “procedimentos decorrentes do concurso de colocação de professores, em que tem de ser seguido o protocolo”. Aliás, refere o Presidente do Conselho Executivo da Escola Secundária Antero de Quental, “apesar dos constrangimentos, este concurso é dos melhores sistemas porque é claro. É dos poucos concursos que é transparente e assenta apenas no mérito do professor”, já que é tido em conta o número de anos de serviço mas também a média final de curso. 
“Não houve muitos candidatos”, reconhece Ulisses Barata, que refere que os cursos para a via de ensino estão encerrados há alguns anos e admite que “a profissão de professor já não é tão atraente como era há uns anos atrás”. 
Sobre a possibilidade de ser usado o ensino à distância para suprimir estas carências pontuais sem recorrer a professores de substituição, Ulisses Barata refere que “não é impossível” de fazer mas “não é recomendável porque tem constrangimentos”. E obrigaria, nomeadamente, a recursos “que as escolas por vezes não têm”, como um sistema em todas as salas de aulas que transmitisse as aulas através da plataforma digital. Já que com as novas regras sanitárias actualmente em vigor, “obrigaria a que todas as salas estivessem preparadas para este ensino à distância”. Além de requerer material e apoio técnico, também seria necessário um outro professor presencialmente naquela hora e naquela sala com os alunos. “Obrigaria a ter pessoas só para isso” e se as escolas já se debatem com a falta de professores ter mais um recurso humano em duplicado afecto a esta tarefa, seria ainda mais complicado. 
Ulisses Barata recorda que no ano lectivo passado a experiência de ensino à distância “correu muito bem”, mas porque “estavam todos em casa” e era fácil conjugar esforços individualmente para tal enquanto que estando fisicamente os alunos numa sala de aula com o professor online, acarretaria outros constrangimentos que “com todos em casa” não se colocaram. 
          

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Autor: Carla Dias

Categorias: Regional

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