10 de outubro de 2020

Fatos bem talhados


Simone de Beauvoir, mulher francesa fora de série, autora do conhecido livro intitulado “O Segundo Sexo”, disse a  dada altura da sua vida que ninguém a compreendia ou amava inteiramente, que no fim de contas só se tinha a si própria e definia a angústia como sendo causada pela vida ao cravar os dentes no seu coração.
Filhos do amor nossa alma é como um hino ao amor, à liberdade, ao bem fecundo, prece e clamor de um pressentir divino, mas desse pressentir dá-me a certeza e eu sempre bendirei essa tristeza.
Quer Simone, quer Antero, veriam decerto com imensa tristeza o estado lastimoso do mundo actual.
Mundo que está nos antípodas do mundo fraternal pregado por Cristo e da liberdade económica, política e moral dos seres humanos.
Eu vi e ouvi recentemente a presidente da Comissão de Ética da União Europeia dizer na televisão que o último relatório da Comissão refletia as seguintes questões essenciais:
Que era urgente salvaguardar na Europa o Estado de direito.
Ora, o Estado de direito tem como pedra basilar o princípio da separação dos poderes executivo, legislativo e judicial.
O que eu percebi é que neste momento na Europa há países cujos governos tentam controlar o poder judicial violando o princípio da separação e independência dos mesmos .
A segunda questão prende-se com o aumento da corrupção em muitos países e para a combater a União europeia tem mecanismos próprios.
Ora eu não conheço esses mecanismos e a existirem são completamente inúteis.
Como disse a drª. Maria Jose Morgado numa entrevista concedida a Miguel Sousa Tavares na televisão, a corrupção, especialmente o crime económico, de colarinho branco (white color crime), esse tipo de criminalidade, pelas várias e ponderosas razoes que ela enumerou e que aqui seria fastidioso estar a reproduzir “in tottum”, é muito difícil de combater.
Quanto a mim, a principal razão está no facto de não haver vítimas (a não ser a sociedade em geral, claro), e portanto, não haver queixa-crime contra o corruptor activo ou passivo, por acto lícito ou ilícito; fica tudo no silêncio dos deuses, neste caso, do diabo.
O valor que é dado ao dinheiro e a lugares lucrativos na sociedade explica, em parte, o fenómeno da corrupção e a outra parte explica-se pela corrupção das almas coisa que nas almas deste mundo não vejo forma de ser mitigada.
A delação premiada não me parece a solução, porque o delator pode sempre mentir ,e quem anda pelos tribunais sabe a facilidade com que as pessoas mantém mesmo perante juramento.
O Ministério Público também não actua com base em queixas anónimas sem ter indícios suficientes na sua posse da prática desse crime e dos seus presumíveis autores.
A corrupção é feita em rede e em circuito fechado, tipo mafia, pelo que não vejo moita de onde saia coelho, embora mais tarde ou mais cedo as coisas acabem por se saber, dando razão ao filosofo alemão Heggel que dizia que “os pecados que cometeste na solidão do teu quarto um dia serão atirados para cima do teu telhado”.
Ou seja, o mal é começar, porque uma mentira conduz a outra mentira, um crime leva a outro crime, e recorrendo novamente a Heggel, “se alguém hoje não faz aquilo que deve é porque alguma vez já fez aquilo que não devia”.
Acresce que a presidente da comissão de ética da União Europeia remete também para a essencialidade da independência e imparcialidade dos juizes, a melhoria da qualidade da justiça.
Está certa, mas como é difícil julgar, como e difícil alcançar a verdade verdadeira ...
Américo Natalino Viveiros, num excelente editorial que recentemente deu à estampa neste jornal, diz que a democracia está doente, que a estrutura em que se fundem os poderes do Estado está podre .
Miguel Sousa Tavares por seu turno, num artigo publicado no jornal Expresso, clarifica algo que confunde alguns espíritos e que consiste na aliança tácita existente entre Whasington e Moscovo, entre Trump e Putin.
Para este articulista, na prática, pelo seu perfil e actuação, Trump desacredita a superioridade moral das democracias e do estado de Direito.
Putin não acredita na democracia.
Vamos pensar o seguinte:
Os alfaiates talham os fatos à medida do corpo dos clientes; às vezes até nem é à medida do corpo, é antes à medida da vontade do cliente.
Em teoria, a democracia é um fato que serve bem no corpo da maioria (para além de, como disse  o filosofo britânico Karl Popper), ser é o único que permite mudar o governo no poder sem sujar as mãos de sangue).
Na prática, analisemos alguns casos.
No nosso Portugal, a democracia instaurou e instalou a mediocridade e a corrupção económica e moral ao mais alto nível das instituições e poderes do Estado.
E aqui chegado há que dar razão ao antigo sábio chinês Confúcio, que disse que “se queres conhecer o futuro estuda o passado”.
Ora, o passado da democracia em Portugal é a Segunda República, que foi um desastre sangrento; aliás, foi esse desastre que abriu o caminho para a emergência do Estado Novo e da ditadura salazarista.
A democracia não funcionou antes e não funciona bem agora se por bom funcionamento se entender uma sociedade de pessoas educadas, respeitadoras do seu semelhante, portadoras de um código moral sólido e não provisorio.
Funciona bem na América?
Funciona.
Porquê?
Porque os americanos do norte, apesar do money and business”, como definiu o escritor inglês Charles DicKens quando lá esteve há muitos anos, gostando muito dinheiro, não se mentém na política por dinheiro.
Nunca oiço dizer que um presidente, um senador americano tenha sido expulso por ser ladrão; os desmanchos da linha de conduta moral e cívica normalmente incidem sobre devaneios e práticas sexuais não alinhadas com o padrão da moral sexual dominante na América.
Antes de lá entrarem já são ricos em dinheiro.
Em Portugal e noutros países do sul da europa é diferente.
Os indivíduos estão empobrecidos quando entram na política e por isso são presa fácil da corrupção.
O poder político, que devia ser um meio, um instrumento ao serviço do bem comum, torna-se num fim ao serviço do bem de alguns.
Não quer isto dizer que haja uma superioridade moral ontológica dos americanos sobre os europeus.
E aqui tenho que recorrer à conhecida frase de José Ortega Y Gasset “O homem é ele e a sua circunstância”, ou como dizia o francês Proudhon “Mudadas as circunstâncias, teremos um homem diferente”.
Olhamos para a Historia e desde logo vemos Portugal como país colonizador; já a América do Norte expulsou à força das armas os índios dos seus domínios, que teve um regime esclavagista e que tem a Klu Klux Klan, que matou Abraham Lincoln porque aboliu a escravatura e que assassinou Martin Luther King por defender a igualdade de direitos e deveres entre brancos e negros na América.
Mas os russos também não se podem considerar santos; tiveram os gulags que Soljenitsin denunciou nos seus romances, tiveram os czares e a escravatura dos camponeses que Gogol, Tolstoi, Turguniev e Dostoivsky denunciaram nos seus romances, têm a KGB, tiveram Staline com os seus hospitais psiquiatricos, as purgas ideológicas, os assassinatos políticos, a Sibéria como prisão politica, enfim um rol de atrocidades de que o próprio diabo se deve envergonhar.
A Historia demonstra, portanto, que os  clientes, quando não escolhem bem o alfaite, estão sujeitos a vestir fatos que não lhes servem e quando isso acontece permitem o aparecimento dos alfaiates de fato único, que são os piores.
Muito mais haveria a dizer sobre estas temáticas. Fica para depois.
 

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Categorias: Opinião

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