10 de outubro de 2020

Cesto da Gávea

Sol pelas costas

Uma das coisas importantes que custam a engolir para quem gosta de cinema, são os títulos portugueses dados a alguns filmes estrangeiros, tão desajustados são. “Younglions”, um clássico de 1958 com estrelas como Marlon Brando e Hope Lange, deu “O baile dos malditos”. Verdade seja que o tema é a guerra de 1939-45, mas adulterar títulos originais para ceder ao popularucho politicamente correto, é simplesmente desonesto – e estes é apenas um dos múltiplos casos semelhantes. Ultimamente, com os avanços tecnológicos, a aplicação da informática ao cinema e as excelentes séries de cadeias televisivas especializadas, o cuidado com os títulos em português é maior. Aliás, tem de ser assim, porque os consumidores mais jovens falam mais línguas e são mais versados no audiovisual digital. Isto não impede que um filme como “Younglions”, seja ainda hoje uma obra prima, com cenas de uma espetacularidade impressionante. Uma delas é o ataque dos comandos alemães do Afrika Korps, infiltrados atrás das linhas inglesas, à coluna acampada no deserto da Líbia, onde um experiente tenente aconselha o capitão a esperar que o sol lhes nasça pelas costas, ofuscando os ingleses e impedindo-os de ripostar. A chacina foi inevitável.
Esta tática de ofuscaçãodo adversário aplica-se noutro tipo de guerras, porventura não menos cruéis, mas infinitamente mais sofisticadas, visto decorrerem sem quase darmos por elas. Na selva em que a ação política se transformou, a ocorrência da pandemia que assola o mundo só veio agravar a situação, com especial incidência nas democracias ocidentais. Os exemplos pouco dignificantes dos EUA e do Reino Unido, liderados por personagens clownescas, desprovidas de palavra honrada (veja-se o descaramento do PM britânico Johnson, ao afirmar que “cabe aos nossos amigos e parceiros usar o bom senso”, como se não fosse sua a responsabilidade, quando assinou o acordo do brexit. É caso para lhe responder que tivesse pensado nas consequências antes de assinar, mas a arrogância intolerante de certos políticos vai de par com o histrionismo das suas cabeleiras – até que apareça quem as corte rente, o que faria bem ao mundo. O problema é que o homem, em termos capilares e não só, está excelentemente acompanhado do lado americano, sendo um perfeito eufemismo falar-se de “amigos” com gente desta. Aliás, do lado americano, desde que foi noticiada a infeção viral do Presidente Trump, as notícias sobre o cocktail medicamentoso que recebeu, parecem um anúncio comercial dos efeitos positivos dos anticorpos monoclonais, made in USA pela Regeneron Pharmaceuticals (1.400 milhões USD, lucro líquido/2019) e a Eli Lilly (USD 5.568 milhões, um aumento do lucro líquido de 6% relativamente a 2018). Após o pânico resultante da expansão de mortes Covid-19, o anúncio da “cura milagrosa” fez disparar as ações da Regeneron (+12,5%) e da Eli Lilly(+6.5%). A revista “Foreign affairs”, num artigo deste mês sobre o nacionalismo das vacinas, que considera uma tragédia, cita Trump quando comparou a vacina anti-SARS-Cov-2 como uma máscara de oxigénio numa cabine de avião que despressuriza: a primeira máscara é para si, depois vêm os outros; mas na 1ª classe , as máscaras caem ao mesmo tempo que na económica, conclui a revista. É bom que o sol não ofusque as vítimas…
Porque para encandear e baralhar a pontaria política das vítimas eleitorais, é suficiente a torrente (des)informativa que grassa em Portugal, onde os episódios grotescos se sucedem em catadupa. O mais recente é o do código de contratação pública, uma aberração que vem atravessando sucessivos governos, parecendo que piora sempre que a desejam reformular. Desde porta para a corrupção, a imbróglio propositado para turvar as águas, são inúmeras as qualificações atribuídas, agora agravadas com a nomeação para Presidente do Tribunal de Contas, de um seu ex-diretor geral que me dizem ser fiel servidor da pior face do poder socialista. 
Custa-me acreditar, porque a trempe Marcelo-Costa-Rio mostra-se concordante, embora estas concordâncias me pareçam um tanto forçadas pela próxima chuva de fundos europeus, em vésperas de Portugal assumir a presidência do Conselho Europeu e antevéspera de eleições para Presidente da República. Sobre o “conto” – que espero não ser do vigário – do código das contratações públicas, assisti estupefacto onlineà audição do Bastonário da Ordem dos Engenheiros na Assembleia da República. Alguns adjetivos que respiguei, foram: “confuso, “não amigo do utilizador”, “pouco eficaz”, “punitivo”, “obscuro”, concluindo logo de início com a frase “o que nasce torto, tarde ou nunca se endireita”. Mais adiante, o Bastonário afirmou que o código facilitava o dumping salarial e os preços desajustados, além de critérios de adjudicação que não são claros. Quando tanto se insiste em basear a recuperação económica no investimento público, o encandeamento é total, pois os detentores do poder têm o sol pelas costas.
 

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Categorias: Opinião

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