Face a Face...! com Ricardo Viveiros Cabral

É “imprescindível” a participação dos açorianos nas decisões políticas

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Ricardo Viveiros Cabral - Médico Dentista, Director Técnico do Programa de Intervenção do Cancro da Cavidade Oral dos Açores (PICCOA), Presidente da Mesa da Assembleia Geral do Clube Desportivo Santa Clara, deputado do Partido Socialista e Vice-presidente da Assembleia Legislativa Regional nas IX e X Legislaturas, entre 2008 e 2016.

Fale-nos do seu percurso de vida no campo académico, profissional e social?
Estudei em Ponta Delgada, na Escola Secundária Antero de Quental. Joguei futebol no Santa Clara, nos juniores e nos seniores. Fiz o ensino superior na Faculdade de Medicina Dentária da Universidade do Porto. Fiz serviço militar obrigatório como aspirante médico-dentista. Em 1990, ingressei no Centro de Saúde da Ribeira Grande e, em simultâneo, iniciei a actividade na minha clínica dentária privada. Fui autor e coordenador do Programa Regional de Saúde Oral da Região Autónoma dos Açores e do Programa de Promoção de Saúde Oral “Eu Gosto dos meus Dentes”, para crianças de 3 anos de idade; do Programa “Sou Amigo dos meus Dentes”, para crianças dos 6 anos; e do programa “Viver com dentes”, para crianças de 12 anos. Fui autor do BISO - Boletim Individual de Saúde Oral.
Actualmente, sou o Director Técnico do Programa de Intervenção do Cancro da Cavidade Oral dos Açores (PICCOA). No Clube Desportivo do Santa Clara sou o sócio nº.24 e, actualmente, pertenço aos Órgãos Sociais, como Presidente da Assembleia Geral e do Conselho Santaclarense. 

Como se define a nível profissional?
Sou médico-dentista por vocação, com a perene prioridade de ajudar as pessoas na melhoria da sua qualidade de vida. A promoção da saúde e a prevenção das doenças da cavidade oral, sempre foram as minhas principais directrizes.

Quais as suas responsabilidades?
Actualmente, trabalho na USISM - Centro de Saúde da Ribeira Grande e sou o responsável pelo PICCOA, programa de rastreio do cancro da cavidade oral dos Açores, do Centro de Oncologia dos Açores. Sou responsável por tudo o que faço e penso.

Como descreve a família de hoje e que espaço lhe reserva?
A família é fundamental para um percurso de vida equilibrado e feliz. A família de hoje continua a ser o barómetro para o bem-estar, mesmo sendo constituída, actualmente, de diferentes e diversas formas. Reservo-a como a primeira prioridade do meu trajecto de vida.
 
Que explicações se podem dar que justifiquem o desaparecimento gradual da família tradicional nos Açores?
As diversas composições das famílias, as diferentes proximidades entre as pessoas, o progresso, a liberdade e os direitos humanos, alteram as formas da família, ao longo dos séculos, todavia os valores afetivos da família permanecem inalteráveis.   

Que importância têm os amigos na sua vida?
Os amigos são um suporte importante para a autoestima de todos. Para a minha vida tem sido sempre um privilégio ter amigos ao meu lado que, próximos ou mesmo distantes fisicamente, ajudam-me a traçar muitas decisões e a viver diariamente muitas alegrias. A vida sem amigos deve ser um grande aborrecimento.

Para além da profissão, que actividades gosta de desenvolver no seu dia-a-dia?
Conversar e pensar com pessoas inteligentes. Passear e viajar, porque sou curioso. Ler e escrever para alcançar outros horizontes. Planear, implementar e avaliar projectos para deixar algo para o futuro.

Que sonhos alimentou em criança?
Ser jogador de futebol, porque nasci na freguesia de Santa Clara. Ser profissional de saúde, porque o meu avô paterno inspirou-me. Ser taxista, porque o nosso tempo e o nosso espaço merecem serem sentidos e observados com orientação.

O que mais o incomoda nos outros?
A tristeza, a pobreza, o sofrimento e as desigualdades.

Que características mais admira no sexo oposto?
A maternidade, a inteligência, a amizade e a beleza.

Gosta de ler? Diga o nome de um livro de eleição?
Fernando Pessoa escreveu, “Ler é sonhar pela mão de outrem. Ler mal e por alto é libertarmo-nos da mão que nos conduz. A superficialidade na erudição é o melhor modo de ler bem e ser profundo”. Gosto muito de sonhar. Um dos muitos livros, que orientaram e moldaram o meu pensamento foi “Os Miseráveis”, de Victor Hugo, romance da literatura francesa que despertou-me para as desigualdades sociais, a miséria, o trabalho, o empreendedorismo, o conflito na relação com o estado e a justiça.  

Como se relaciona com o manancial de informação que inunda as redes sociais?
Relaciono-me muito bem. Entendo que é uma grande mais-valia para a humanidade poder desfrutar de muito conhecimento. Devemos, agora, é saber filtrar a boa informação, das más informações que abundam pelos mais variados meios de comunicação, disponíveis à distância de um clique.

Costuma ler jornais?
Leio diariamente vários jornais. Sou coleccionador de jornais desportivos de todo o mundo.

Gosta de viajar? Que viagem mais gostou de fazer?
Viajar é conhecer outros caminhos e sentir o desconhecido. Gostei de todas as viagens que efectuei. As viagens que mais gostei foram à China, à Arménia, aos Emirados Árabes Unidos, à Itália e à Costa Rica.

Quais são os seus gostos gastronómicos? E qual é o seu prato preferido?
Gosto de quase tudo, mas o meu prato preferido é batatas fritas com ovos estrelados ou cozidos.

Que notícia gostaria de encontrar amanhã no jornal?
Há vida em muitos outros planetas do Universo. O Santa Clara dos Açores na final da Taça de Portugal.

Se desempenhasse um cargo governativo descreva uma das medidas que tomaria?
As medidas que entendo serem cruciais para a melhoria da saúde das pessoas são: contratar mais profissionais de saúde; avaliar com rigor o desempenho dos mesmos; rentabilizar as estruturas de saúde e valorizar quem trabalha bem.

Qual a máxima que o inspira?
A vida é bela.

Que episódios marcaram mais a sua profissão de médico-dentista?
Ao longo dos anos a ajudar muitas crianças, muitas sem nenhum dente saudável, a praticar medicina dentária curativa e preventiva comunitária. O episódio que mais marcou o desempenho da minha profissão foi saber, após trinta anos de esforço, o resultado do último Levantamento Epidemiológico Nacional das Doenças Orais, onde se regista a inversão da classificação da Região Autónoma dos Açores da pior para uma das regiões com os melhores índices de cárie dentária e possuindo, actualmente, uma das melhores percentagens do país de crianças isentas de cárie dentária, aos seis anos de idade, já atingindo, em algumas localidades, as metas preconizadas pela Organização Mundial de Saúde, para 2020. 

A população micaelense e a açoriana tratam devidamente dos seus dentes? Porquê?
Cada ano que passa as crianças, os adultos e os idosos estão mais conscientes para os cuidados a ter com os dentes e com a cavidade oral em geral, assim como a higiene oral diária. Apesar de existir uma maior acessibilidade aos cuidados de saúde oral, ainda necessitamos de investir e implementar mais estratégias e estabelecer prioridades para dar continuidade à melhoria do estado de saúde oral da população.  

Os açorianos não deveriam ter um maior acesso aos médicos dentistas? E porque não acontece?
A acessibilidade à Medicina Dentária aumentou exponencialmente nas últimas décadas. Todos os Centros de Saúde da Região Autónoma dos Açores têm gabinetes de saúde oral e médicos dentistas para prevenir e tratar, com segurança e qualidade, as doenças da boca. Os Açores foram pioneiros no país a disponibilizar acessibilidade pública em medicina dentária, mas ainda, é insuficiente. Há necessidade de aumentar a produtividade para tratar ainda mais pessoas, sobretudo os mais carenciados.

Poderá dizer-se que há médicos dentistas a menos em São Miguel, ou que as consultas são demasiado caras para determinados extractos sociais da população?
Nos últimos anos chegaram muitos médicos dentistas competentes e bem qualificados que vieram contribuir para o melhoramento do estado de saúde oral da Região. Temos que investir mais e consistentemente na promoção da saúde, na prevenção das doenças, no tratamento e na reabilitação oral, porque só assim podemos ter uma sociedade mais saudável. 

O que pensa da política? 
A política é essencial para o progresso e para o desenvolvimento das comunidades.

Qual a sua opinião sobre a classe política açoriana?
A classe política açoriana é competente e suficientemente crítica.

Sendo um observador da actividade política e governativa na Região, o Governo dos Açores tem gerido, da melhor forma, a prevenção no combate à Covid-19? Quer explicar?
A gestão da pandemia Covid-19 nos Açores foi e é equilibrada, assertiva e atempada. Só assim se explica os números reduzidos de infectados, o número diminuto de internamentos e o número de óbitos.
O sistema de testagem e o permanente controlo das cadeias de transmissão foram e são importantes para a contenção desta pandemia que ainda não terminou.

Pode interpretar-se que algumas decisões do Governo dos Açores para impedir que se criem cadeias de transmissão do vírus nos Açores não foram aceites pelo poder em Lisboa por razões centralistas? A saúde deve sempre sobrepor-se ao legalismo?
A minha interpretação é que o Governo Central não quis descontinuar os Açores do território nacional, mas o Governo Regional, com mestria, soube tornear esta decisão com medidas autonómicas correctas de contenção da propagação do vírus SARS-COV-2, em benefício da população açoriana.
Concorda que haja uma maior participação da sociedade nas decisões políticas?
A participação cívica da sociedade nas decisões políticas em democracia é imprescindível. Na reflexão dos problemas, no planeamento das estratégias, no apoio e na crítica dos procedimentos, na solução das dificuldades e dos obstáculos. Pensar, participar e votar nas eleições livres é um direito e um dever de todos os cidadãos. 

Em que medida o preocupa a abstenção nas próximas eleições legislativas regionais?  
A abstenção deveria ser uma preocupação de todos, sem excepção. Em democracia devemos apoiar e criticar sempre de forma informada, ordeira e construtiva. Os maiores avanços nas sociedades sempre dependeram da participação comunitária e do conhecimento partilhado. As razões da abstenção são muitas: cadernos eleitorais com muitas pessoas ausentes da Região; dificuldades de comunicação entre candidatos e eleitores; necessidade de aumentar a consciencialização da importância do dever de participação. 

Enquanto democrata, não lhe causa apreensão que se caia numa situação de partido praticamente único nos Açores?  
A situação de partido único nos Açores não se coloca, nem se perspectiva acontecer. Nos últimos anos, a Assembleia Legislativa Regional passou a ter no seu espectro político seis partidos políticos diferentes. A pluralidade de pensamento será sempre uma mais-valia para a democracia nos Açores. As pessoas com idade para participarem é que orientam e decidem o futuro de todos. O voto de cada um é importante para o fortalecimento da democracia, do desenvolvimento e do progresso da nossa Região.

Quer acrescentar algo mais que considere interessante no âmbito desta entrevista?
Agradecer, ao Correio dos Açores a amabilidade de me convidar, para partilhar com os seus leitores as minhas ideias, as minhas reflexões, os meus interesses e as minhas contribuições para a nossa sociedade.
 
                                      

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Autor: João Paz

Categorias: Regional

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