11 de outubro de 2020

Dos Ginetes

Recordo

     
Os “idosos como eu” guardam na memória as mais diversas recordações do tempo que marcou a nossa infância mesmo se hoje nem sempre compreendida por jovens que estão em vias de formar esta geração do primeiro quarto do século XXI.
Eu, tal como outros septuagenários temos sempre muito para contar aos nossos filhos e netos que por vezes nos olham pouco convencidos das realidades que descrevemos sobre um tempo que evidentemente foi difícil para nós e nossos pais, mas que apesar de tudo lembramos e relembramos sempre com muita saudade. Quando olho à minha volta neste tempo, interrogo-me várias vezes sobre o que haverá para descrever por estes jovens de hoje no final dos próximos trinta anos para ficar na memória de outras gerações  sobre este tempo que vivemos envolto nas mais diversas crises de ordem sanitária, económica, de corrupção, de injustiças, de violência, e falta de princípios outrora considerados sagrados.
Sei que nesse futuro ainda distante já não farei parte deste mundo, mas não me atrevo a realçar o que considero egoísmo quando alguns afirmam não sentir qualquer preocupação simplesmente porque não estarão cá para ver.
Ninguém pode viver apenas do passado sem dar do seu melhor ao presente para que o futuro seja melhor. 
Recordo os meus primeiros anos de escola e os meus amigos que felizmente tal como eu ainda fazem parte deste mundo dos vivos. Outros com menos sorte já partiram para essa viagem rumo ao desconhecido que a fé nos diz transportar para um mundo supostamente melhor.
Recordo o respeito que nos era exigido para com as nossas professoras, pois na altura eram muito poucos os homens que se dedicavam ao ensino. Não íamos fazer queixa ao papá ou à mamãe porque a professora se tinha zangado connosco. É verdade que algumas vezes sucederam atitudes demasiado severas da parte dos responsáveis do ensino, mas tal incumbia aos nossos pais resolver o problema e não aos alunos “musculados” como muitas vezes sucede neste tempo.
Recordo esta terra escura, mas segura, sem iluminação pública, mas onde as reuniões em família ou com amigos faziam parte da alegria de aqui viver. Sou do tempo dos primeiros aparelhos rádio aqui chegar ligados a uma simples bateria de automóvel cuja carga não durava mais que duas semanas. Era necessário levar a mesma a Ponta Delgada para ser recarregada.
 Recordo as maravilhosas noites de Teatro no Salão Paroquial dos Ginetes, na altura uma casa de referência nesta zona, que reunia à volta de trezentas pessoas “confortavelmente sentadas” em cadeiras de madeira e em bancos “sem costas” igualmente considerados confortáveis porque não necessitávamos muito para nos sentirmos bem.
Recordo o Moinho de Vento a funcionar, ainda bem visível neste tempo, mas em ruínas, a envergonhar a paisagem maravilhosa desse Pico do Cavalo que deu o nome à freguesia de Ginetes. Ainda tenho bem presente o som do búzio do “moleiro” a anunciar lá do alto que estava pronto para receber o milho para transformar em farinha como era hábito nesse tempo. Sei que o mesmo foi entregue à Junta de Freguesia de Ginetes da parte do Governo Regional dos Açores. Uma oferta “maliciosa”, pois, sabiam muito bem que a autarquia local não tem condições financeiras para o recuperar e que tal nem vale a pena se o acesso não beneficiar igualmente de obras para assim receber visitantes. Será mais uma mancha negra como outras que aqui existem a testemunhar o desinteresse manifesto dos governantes por esta terra dos Ginetes. 
Recordo o respeito que nos era exigido para com os mais velhos, sem necessariamente ser idosos. Nenhum jovem se atrevia a provocar ou insultar com palavrões. Tantas vezes nos repreendiam por atitudes menos correctas e a resposta era simplesmente reduzida ao silêncio.  
Recordo o respeito para com o Pároco da Freguesia incluindo mesmo dos idosos para quem a figura desse representante da Igreja nesta terra dos Ginetes, mesmo sendo homem não perfeito, não se insultava. Infelizmente, como diz a tradição, o sacerdote tem sempre as “costas largas” onde existe um lugar reservado para críticas e elogios.
Recordo a presença da Comunidade na Igreja dos Ginetes nas manhãs já frias e chuvosas do mês de Novembro em que muito cedo era celebrada a Eucaristia por alma dos fiéis defuntos. Igualmente tenho bem presente uma Igreja repleta, mas ao início da noite para a tradicional “Novena de Natal” culminando com a Missa do Galo à meia-noite de 24 de Dezembro.
Recordo igualmente e para ser honesto que nem tudo era perfeito e reconheço o grande avanço da tecnologia que dispomos hoje, mas que muitas vezes mal utilizada sobretudo no domínio da justiça social. Verdade que existem ainda feridas que o tempo não conseguiu dar cura mas que são na realidade pedaços de experiência que o homem não soube aproveitar. Afinal vivemos num mundo construído à imagem das diversas gerações que se vão renovando ignorando a experiência do passado, agarradas ao presente, mas muito pouco preocupadas com o futuro. 

Secção destacada de Ginetes dos 
Bombeiros Voluntários de Ponta Delgada
  
Tomei conhecimento, não de forma oficial, mas de fonte fidedigna que temos os nossos rapazes de volta e a respectiva ambulância presente nos Ginetes pronta para prestar um serviço mais rápido às gentes desta zona 24 horas sobre 24. Espero bem que assim continue pois todos reconhecem que uma vida não tem preço e que muitas vezes tem de lutar contra o tempo. Parabéns aos responsáveis por tal decisão muito esperada.

Print

Categorias: Opinião

Tags:

Theme picker

Revista Pub açorianissima